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Rocío Márquez
©Alejandro CayetanoRocío Márquez

Rocío Márquez: “O flamenco é flamenco precisamente pela sua impureza”

A espanhola Rocío Márquez vem a Lisboa no sábado. Falámos com um dos nomes mais badalados do flamenco contemporâneo

Escrito por
Luís Filipe Rodrigues
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Aos 34 anos, Rocío Márquez é uma das grandes referências do flamenco contemporâneo. Nascida e criada na Andaluzia, tem mais de uma década de carreira profissional e a sua música e percurso são frequentemente destacados nas páginas da imprensa espanhola. Estudou e conhece a fundo a tradição, mas não tem medo de inovar e renovar o género – para ela, o flamenco é uma manifestação cultural viva e em constante mutação. Estreia-se ao vivo em Lisboa este sábado, no Centro Cultural de Belém, onde vai apresentar o álbum Visto En El Jueves, do ano passado. Falámos antes do concerto.

Dizem que és “a voz da nova geração do cante flamenco”. O que pensas disto?

Há muitos artistas de qualidade na minha geração. Mais do que uma voz, acho que são várias as vozes que estão a actualizar o flamenco e a aproximá-lo do contexto e sensibilidade actuais.

O que achas que tu e a nova geração de que falas aportam ao flamenco?

Somos filhos do nosso tempo [e vivemos] num momento em que a realidade política, tecnológica, cultural e social está em profunda crise. Exprimimos a nossa experiência de vida neste século XXI a partir dos códigos do flamenco.

Estudaste e escreveste sobre flamenco na tua tese de doutoramento, La técnica vocal en el flamenco [A técnica vocal no flamenco]. Como é que os teus estudos te ajudaram melhorar enquanto cantora?

Acho que para cantar flamenco é necessário conhecer intimamente as fundações do género, pois trata-se de uma música complexa e com um património vasto, deixado por artistas fabulosos. Neste caso concreto, a minha investigação sobre a técnica vocal no flamenco contribuiu para me conhecer melhor e estar mais consciente da minha maneira de cantar.

Na tese, entre outras coisas, escreves sobre a forma como a menstruação afecta o canto. Porque decidiste abordar este assunto e a que conclusões chegaste?

As mudanças hormonais são muito importantes para uma cantaora, mas estranhamente ignoradas. E depois de ler o livro Diario de un cuerpo, de Erika Irusta, comecei a pensar sobre isso. Então, observei-me e apercebi-me, por exemplo, de que nos primeiros dias do período me custa um pouco mais afinar, de modo que agora estou mais atenta a isso e cuido melhor de mim.

Há quem te critique porque o teu flamenco não é puro. O que pensas disto? Essa pureza é importante?

O flamenco é flamenco precisamente pela sua impureza. Por misturar, contaminar, incluir. Não é por acaso que nasceu na Andaluzia, que pela sua situação geográfica é um caldeirão de culturas riquíssimo. É uma arte viva, num constante devir e em diálogo com a sociedade. Portanto, não partilho dessa ideia e desse conceito de pureza que quer espartilhar o flamenco e limitá-lo a um padrão fixado apenas há poucas décadas. É como sentir nostalgia porque alguém ou alguma coisa continua a crescer e não se parece com uma fotografia que tirámos a dada altura.

O que pensas de alguém que faz algo muito mais radical, ainda menos puro, com o flamenco, como a Rosalía?

Admiro muito a Rosalía. O que fez é complicadíssimo e ela tem as qualidades necessárias para defender aquilo que propõe. Parece-me valente, curiosa e muito talentosa.

Mas achas que o que ela faz ainda é flamenco?

Depende. No El mal querer escutam-se inúmeras influências e estilos de flamenco. Mas também faz canções com outras músicas que não posso considerar flamenco.

O que pensas sobre as acusações de apropriação cultural de que foi alvo?

Não concordo com elas. Eu defendo a liberdade criativa dos artistas.

A ti já te acusaram de apropriação cultural?

Não.

Falas muitas vezes do machismo no flamenco. Para mim esse machismo não é só um problema do flamenco, mas de toda a indústria musical. Dirias que o machismo no flamenco é pior do que no rock ou a música urbana, por exemplo?

Claro que não. E até iria mais longe. O machismo não é um problema apenas da indústria musical, mas de todo o nosso sistema patriarcal. Portanto é normal que qualquer instituição ou meio esteja contaminado por ele. Não acho que o flamenco seja mais machista do que outros estilos musicais, apesar de não os conhecer tão bem.

Conversa afinada

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Miguel Angelo foi um dos artistas mais mediáticos do Portugal dos anos 90. Não só pela popularidade dos discos gravados com a Resistência e os Delfins, como pelos trabalhos que desenvolveu paralelamente na televisão, no teatro, no cinema ou na imprensa. Hoje, está mais recatado, mas nem por isso menos ocupado. Está a celebrar os 35 anos de carreira e lançou em 2019 o mini-disco NOVA (pop). Num destes dias, sentámo-nos numa esplanada sobre o novo disco e tudo o que está para trás. Mas não havia um lugar ao sol.

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Noah Lennox, o homem que conhecemos como Panda Bear, é um dos mais influentes e inovadores músicos independentes deste século. A viver em Lisboa há mais de uma década, foi responsável por discos seminais como Person Pitch, de 2007, ou Merriweather Post Pavillion (2009), dos Animal Collective, mas isso não lhe subiu à cabeça. Quando nos encontramos para conversar sobre o seu novo álbum, Buoys, está a passar na rádio uma canção dos Oasis e ele está a adorar. “Esta canção é do caraças”, diz, entusiasmado e sem um pingo de ironia.

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Os Pixies regressaram em 2004 e desde então nunca mais nos deixaram. Isto apesar de a fundadora Kim Deal ter saído da banda em 2013, sendo temporariamente substituída por Kim Shattuck, antes de a baixista Paz Lenchantin se juntar definitivamente aos Pixies no ano seguinte. Desde então, o quarteto tem tocado por todo o mundo e já lançou três novos discos – a actual baixista gravou dois deles. O mais recente, Beneath the Eyrie, saiu em 2019. Pouco depois do CD chegar às lojas, falámos com Paz Lenchantin.

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