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Sei o que ouviste no Natal passado (e nos 40 anteriores também)

Fomos à procura das canções que lideravam o top no dia de Natal de cada ano, de 1981 a 2021. E nenhuma era “Jingle Bells”.

Escrito por
João Pedro Oliveira
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É uma espécie de desfile dos fantasmas de Natais passados. Uns serão simpáticos à lembrança, outros talvez criem arrepios, todos estarão guardados num canto de memória colectiva — no fundo, como as consoadas em família. Eis as canções que mais se ouviam em Portugal nos dias de Natal dos últimos 40 anos.

A recolha de informação não é fácil. De 1993 a 1999, por exemplo, não houve top de singles coligido pela Associação Fonográfica Portuguesa e, em alternativa, optamos por colocar o single mais importante do disco que ocupava o primeiro lugar do top de álbuns. Há também que considerar que nem sempre as canções que mais passavam na rádio eram aquelas que mais vendiam, e que muitas vezes é preciso cruzar tabelas de airplay com tabelas de vendas. Depois, nos anos 2000, surge a questão de articular vendas físicas com vendas digitais e, mais tarde, com o streaming, que só a partir de 2016 passou a contar para o top nacional. Por fim, acontece que, ao longo dos anos, as fontes nem sempre coincidem. Em resumo, o que aqui temos resulta de uma valente salganhada de informação, que tentámos organizar da forma mais precisa possível, para chegar ao resultado aproximado que nos interessa, e que é afinal apenas acender uma centelha de nostalgia. Feliz Natal.

Recomendado: A esperança, a hipocrisia e a paródia em 25 canções de Natal

1981 – “Body Talk”, Imagination

Os Imagination são um maravilhoso exemplar daquela sensualidade xaroposa que fez escola na música dos anos 80, que convidava a dançar com movimentos lânguidos, olhos semicerrados e a fazer boquinha de beijo. O trio teve uma vida curta (despontou em 81 e escafedeu-se em 83), mas conseguiu implantar-se no imaginário pop com duas músicas: “Just An Illusion”, o seu maior êxito internacional, e este “Body Talk”, que dominou o top de singles português entre Novembro e Dezembro de 1981.

1982 – “More Than This”, Roxy Music

É o primeiro single do último álbum de estúdio dos Roxy Music. Em 1982, Bryan Ferry e companhia editavam Avalon, disco que marca o culminar do período mais smooth em que a banda mergulhou na sua fase tardia (e pela qual, de resto, é mais lembrada) e se distanciou do rock sofisticado que a notabilizou no início da década de 70, ainda com Brian Eno na formação. A faixa-título, “Avalon”, ficou também instituída para a posteridade como outro dos clássicos dos Roxy Music.

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1983 – “Moonlight Shadow”, Mike Oldfield

As melhores composições de Mike Oldfield são instrumentais, mas alguns dos seus maiores sucessos estão em formato canção. No álbum Crises, o multi-instrumentista britânico seguiu o formato que tinha já implementado no anterior Five Miles Out (1982): um lado do LP totalmente ocupado com um tema único, o outro dividido em canções de formato tradicional. Entre elas, estava esta “Moonlight Shadow”, na voz da escocesa Maggie Reilly. Era número 1 da tabela de singles em Portugal na consoada de 1982.

1984 – “I Just Called to Say I Love You”, Stevie Wonder

Foi escrito para a banda sonora do filme The Woman in Red, de Gene Wilder, e venceu o Óscar de Melhor Canção original. Mas fez mais do que isso. “I Just Called to Say I Love You” foi número 1 em 19 países, incluindo Portugal, onde liderou o top de singles 14 semanas consecutivas, apanhando a quadra natalícia pelo meio. Foi uma das baladas mais virais de que há memória nos anos 80 e acabou por ser o single mais vendido de 1984. Se quer ter uma ideia do que isso significa, atente na concorrência e veja os outros nove que fecham o top 10 desse ano: (2) “Hello”, Lionel Richie; (3) “Radio Ga Ga”, Queen; (4) “Self Control”, Laura Branigan; (5) “Against All Odds”, Phil Collins; (6) “I Want To Break Free”, Queen; (7) “Careless Whisper”, George Michael; (8) “Pipes Of Peace”, Paul McCartney; (9) “I Like Chopin”, Gazebo; (10) “Thriller”, Michael Jackson.

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1985 – “Nikita”, Elton John

Elton John está apaixonado por uma deslumbrante guarda fronteiriça da ex-RDA. O melhor que pode fazer é observá-la de longe através da sua Nikon, sentado no banco de trás do seu Bentley Continental vermelho, discretamente vestido de vermelho também, e insuspeitamente disfarçado com um chapéu de palha e óculos escuros roxos. É assim o vídeo de “Nikita”, single retirado do 19.º álbum de estúdio de Elton John, Ice on Fire, e lançado em finais de Outubro. Quando o Natal veio, já era número 1 em Portugal e em pelo menos mais dez países. As segundas vozes estão a cargo de George Michael e a guitarra nas mãos de Nik Kershaw, que no ano seguinte também andaria pelo top com “I Won't Let The Sun Go Down on Me”.

1986 – “The Final Countdown”, Europe

Chegou à liderança do top de singles em Novembro de 1986 e acabaria por ser o single mais vendido de 1987, em Portugal. Contas feitas, foram oito semanas sem sair de cima. “The Final Countdown” está incluído no álbum homónimo, que despachou dez milhões de cópias em todo o mundo e escreveu mais um capítulo na gloriosa história sueca de exportação de bandas com cabelos luxuriantes. Nos Estados Unidos, os Europe conseguiram mesmo a proeza de incluir três singles em simultâneo na Billboard Hot 100, com “The Final Countdown”, “Rock the Night” e “Carrie”.

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1987 – “You Win Again”, Bee Gees

“You Win Again” marca o regresso dos Bee Gees ao activo depois de alguns anos dedicados às carreiras a solo e à composição e produção de êxitos para outros artistas (Diana Ross, Dionne Warwick, Kenny Rogers, Barbra Streisand – tudo isto tem assinatura de Barry Gibb). Lançada como single em Setembro de 1987, a canção passou o Natal em primeiro lugar do top em Portugal e em mais de uma dezena de países. No Reino Unido, os Bee Gees tornam-se o primeiro grupo a atingir o primeiro lugar da UK Singles Charts em três décadas consecutivas.

1988 – “Yes”, Tim Moore

A canção foi lançada em 1986, mas só chegou ao top em 1988. A razão para este interesse súbito explica-se pelo êxito de Selva de Pedra, novela brasileira que também foi lançada em 1986, mas só chegou a Portugal dois anos mais tarde. “Yes” era o tema que acompanhava o intrincado enredo de amor sofrido entre Simone (Fernanda Torres) e Cristiano (Tony Ramos), na cidade fictícia de Duas Barras, interior do Rio de Janeiro, e bastava ter a televisão ligada à hora de jantar para a escutar. Dois anos antes, no Brasil, o efeito foi ainda maior: a canção ficou dez semanas seguidas no n.º 1 do top brasileiro e Tom Moore passou 75 dias em digressão pelo país.

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1989 – “Lambada”, Kaoma

No Natal é Verão no Brasil e em 1989 parecia que por cá também era. “Lambada” foi o primeiro single de Worldbeat, álbum de estreia dos Kaoma, o grupo franco-brasileiro que se lembrou de exportar o ritmo da Baía para o mundo, adaptando-o à canção “Llorando Se Fue”, do grupo peruano Los Kjarkas. A febre na Europa foi geral, e a voz de Loalwa Braz fez-se ouvir nos tops de 11 países, Portugal incluído, e no primeiro lugar do Eurocharts também. Infelizmente, os Kaoma esqueceram-se de creditar a música aos Los Kjarkas, e a história acabou em tribunal com os peruanos a serem indemnizados. A melodia voltaria a ouvir-se nos tops em 2011, utilizada na base de “On the Floor”, de Jennifer Lopez e Pitbull.

1990 – “Não Há Estrelas no Céu”, Rui Veloso

Está incluído em Mingos & os Samurais, um dos álbuns mais vendidos de sempre em Portugal, e passou seis semanas seguidas no primeiro lugar do top de singles, entre o final de 1990 e o início de 1991. “Paixão”, o outro hit do disco, tinha já também liderado a tabela durante três semanas. Tudo isso fazia com que, no Natal de 1990, a voz de Rui Veloso fosse mais ou menos omnipresente.

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1991 – “The Fly”, U2

O primeiro single de Achtung Baby, o sétimo álbum de estúdio dos U2, foi lançado em Outubro de 1991. No Natal, “The Fly” era já número 1 em Portugal. Seriam extraídos mais quatro singles, todos com assinalável sucesso: “Mysterious Ways” (antes ainda desse Natal), “One”, “Even Better Than the Real Thing” e “Who 's Gonna Ride Your Wild Horses”. Achtung Baby acabaria por vender 18 milhões de cópias em todo o mundo. Em 2011, o álbum teve uma edição comemorativa dos 20 anos e volta a ter uma outra, para assinalar o trigésimo aniversário, ainda a tempo do Natal de 2021.

1992 – “Chuva Dissolvente”, Xutos & Pontapés

Foi o primeiro single de Dizer Não de Vez, o sexto álbum de estúdio dos Xutos, editado em Novembro de 1992. No lado B, trazia “Lá”, tema que contava com a voz de Xana, dos Rádio Macau (também incluído na colectânea Vida Malvada, de 2000). Quando chegou a consoada, era já número 1 do top de singles.

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1993 – “Please Forgive Me (So Far So Good)”, Bryan Adams

Este é o primeiro dos casos nesta lista em que, à falta de um top de singles, nos socorremos dos álbuns mais vendidos e retiramos de lá a canção mais representativa (será assim também para todos os anos até 1999). No Natal de 1993, o inevitável Bryan Adams ocupava o top nacional com So Far So Good, álbum que, sendo uma colectânea, trazia de bónus o inédito “Please Forgive Me”, que se tornou viral nesse final de ano. Curiosamente, “So Far So Good”, a canção que dá nome ao disco, ficou de fora. Seria incluída em Anthology, uma nova colectânea do canadiano lançada em 2005.

1994 – “All I Want For Christmas”, Mariah Carey

Incluído em Merry Christmas, álbum temático lançado por Mariah Carey em Outubro de 1994, “All I Want For Christmas” transformou-se rapidamente num standard da época e é hoje uma das canções de Natal mais rentáveis de sempre (só em royalties, segundo contas da The Economist, tinha já rendido mais de 53 milhões de euros até 2017). Até hoje, a canção vendeu mais de 16 milhões de cópias (físicas e digitais) e foi número 1 em 26 países, nalguns casos por mais de uma vez. Foi o que aconteceu em Portugal, onde liderou a tabela logo em 1994 e, depois, em 2008. Nos Estados Unidos, foi número 1 em 2019, tornando-se na canção que demorou mais tempo entre o seu lançamento e a chegada ao top: 25 anos.

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1995 – “Heaven For Everyone”, Queen

Foi originalmente composta por Roger Taylor para The Cross, um projecto paralelo do baterista dos Queen, criado em 1987, e gravado com a voz de Freddie Mercury. Essa gravação seria recuperada pelos Queen após a morte de Mercury em 1991, trabalhando o registo da voz com todo um novo arranjo criado pela banda, e acabou por servir de single para o álbum Made in Heaven, que foi editado em Novembro de 1995 e no Natal era já o mais vendido em Portugal. Em alternativa, poderíamos também destacar “I Was Born to Love You” ou a faixa-título “Made in Heaven”, duas canções compostas por Freddie Mercury e originalmente gravadas em 1985 para Mr. Bad Guy, o seu primeiro álbum a solo.

1996 – “Se Eu Fosse Um Dia o Teu Olhar (Tempo)”, Pedro Abrunhosa

A 13 de Novembro de 1996, Pedro Abrunhosa edita Tempo. O álbum conta com uma nova formação dos Bandemónio e é trabalhado em Minneapolis, Memphis e Nova Iorque com os New Power Generation, a banda de Prince, e Tom Tucker, o seu engenheiro de som. Participam ainda Carlos do Carmo, Opus Ensemble e Rui Veloso como convidados. Quando chega o Natal de 1996, este é o álbum mais vendido em Portugal e “Se Eu Fosse Um Dia o Teu Olhar” é o seu primeiro single.

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1997 – “Con Te Partiró (Romanza)”, Andrea Bocelli

A canção foi estreada por Andrea Bocelli em 1995 no Festival de Sanremo e incluída no seu segundo álbum de estúdio, Bocelli. Logo nesse ano, o single fez furor um pouco por toda a Europa, com especial destaque para a Bélgica, onde se tornaria no mais vendido de sempre. Cá, o fenómeno faz-se sentir com força em 1996, com o álbum Romanza, que além do original “Con Te Partiró”, incluía também “Time To Say Goodbye”, uma versão parcialmente cantada em Inglês, em dueto com a soprano Sarah Brightman. Foi essa que se tornou viral entre nós e que, no final do ano de 1996, empurrou Romanza para o top de álbuns por seis semanas consecutivas. É, ainda hoje,um dos discos mais vendidos de sempre em Portugal: foram 210 mil cópias que valeram cinco platinas.

1998 – “Borrow (Silence Becomes It)”, Silence 4

O fenómeno começa no Verão desse ano. Silence Becomes It, o primeiro LP dos Silence 4, é lançado em Junho e quando chega ao Natal é já número 1 da tabela de álbuns. O sucesso não era previsível, pelo menos, não para todos: o álbum que acabaria por vender 240 mil cópias, convertidas em seis discos de platina, foi rejeitado por várias editoras, incluindo a Polygram (numa primeira tentativa), que acabaria por editá-lo. O disco contém 15 faixas, incluindo uma escondida e duas versões de “A Little Respect”, dos Erasure, e apenas dois temas em português: “Sextos Sentidos”, um dueto com Sérgio Godinho, que assim apadrinha a estreia da banda de Leiria; e “Eu Não Sei Dizer”. Para amostra, recordamos “Borrow”, o single de maior sucesso do disco, a par de “My Friends”.

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1999 – “You Learn (Unplugged)”, Alanis Morissette

O primeiro álbum ao vivo de Alanis Morissette foi lançado em inícios de Novembro e rapidamente se impôs no airplay nacional. Unplugged contém 12 temas em versão acústica gravados para o programa da MTV, a maior parte dos quais recuperados dos dois álbuns anteriores da canadiana, Jagged Little Pill (1995) e Supposed Former Infatuation Junkie (1998). Foram extraídos três singles do disco. “That I Would Be Good”, “King of Pain” (cover da canção de The Police) e este “You Learn”.

2000 – “Lady (Hear Me Tonight)”, Modjo

Logo na sua estreia, os Modjo roubaram o Natal. “Lady (Hear Me Tonight)” é o primeiro single do duo francês, incluído no álbum homónimo lançado em Junho de 2000, do qual se extraiu uma mão cheia de outros sucessos para as pistas de dança desse ano, casos de “Chillin” e “What I Mean”. Este “Lady” foi número 1 em 11 países, incluindo Portugal, onde era a música mais batida ainda no final de Dezembro.

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2001 – “Can't Get You Out Of My Head”, Kylie Minogue

Lançado a 8 de Setembro de 2001, como primeiro single e antevisão do álbum Fever, este “Can't Get You Out Of My Head" faz a sua primeira aparição no Top 20 português de singles logo em meados desse mês e só de lá sairá em meados de Julho seguinte. Pelo meio, ocupa o primeiro lugar em sete semanas não consecutivas, entre Dezembro de 2001 e Fevereiro de 2002. O Natal é de Kylie Minogue que alcança o número 1 do top de singles em 40 países.

2002 – “Feel”, Robbie Williams

Entre modelos e actrizes, Robbie Williams tem um longo historial a contracenar com mulheres bonitas nos seus videoclipes. Em 2002, armou-se em cowboy e foi atrás de Daryl Hannah que, sendo 16 anos mais velha que ele, foi capaz de arrebatar o filme como nenhuma outra. Lançada em Outubro – aquele mês em se aposta sempre quando se quer passar o Natal no top – a canção falhou a liderança no Reino Unido, mas chegou a número 1 em sete outros países europeus, sendo um deles o que mais nos interessa. “Feel” foi incluída em Escapology, o quinto álbum de estúdio a solo do ex-Take That.

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2003 – “Looking For Something”, Era

Os ingleses têm uma palavra certeira para definir a coisa: gibberish. Significa linguagem sem nexo ou, como no caso, um linguagem imaginária, baseada na fonética de outras línguas, que nos dá a impressão de estarmos a ouvir alguma coisa familiar mas que, em rigor, diz nada. Os Era faziam isso frequentemente com um palavreado entre o grego e o latim, envolvido em música de elevador, e a receita funcionava lindamente. Noutros casos, cantavam em inglês, mas também não diziam grande coisa, limitando-se a um chavão. É o que acontece com este “Looking For Something”, o single mais bem sucedido deste terceiro álbum do projecto do francês Eric Lévi, que liderava o top nacional no Natal de 2003.

2004 – “Do They Know It's Christmas?”, Band Aid 20

Ora eis então o outro caso raro de música de Natal que chega ao top ainda a tempo do Natal. Vinte anos depois de Band Aid, a banda organizada em 1984 por Bob Geldof e Midge Ure com o intuito de arrecadar fundos para apoiar o povo da Etiópia, reúne-se uma nova superbanda para interpretar “Do They Know It’s Christmas”, agora em apoio aos refugiados do Darfur, no Sudão. A mesma canção, uma nova causa humanitária e uma formação renovada. Onde antes se ouvia Paul Young, ouve-se agora Chris Martin; onde se ouvia Boy George, ouve-se Dido; onde se ouvia George Michael, ouve-se Robbie Williams; onde se ouvia Bono, ouve-se Bono na mesma; etc. Foi gravado a 14 de Novembro e transformou-se num hit instantâneo desse Natal.

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2005 – “Para Mim Tanto Me Faz (Ao Vivo nos Coliseus)”, D’ZRT

Nasceram de uma série chamada Morangos com Açúcar e adoptaram nome de sobremesa só com consoantes. Os D’ZRT estrearam-se em final de 2004 com o single “Para Mim Tanto Me Faz”, como amostra do seu primeiro e homónimo álbum de estúdio, que haveria de ser lançado em Maio de 2005, permaneceria umas eternas 21 semanas em número 1 do top e acabaria como o disco mais vendido desse ano (o segundo foi a banda sonora de Morangos Com Açúcar 2). Ainda a tempo do Natal, a boy band editou Ao Vivo no Coliseu, que também alcançaria o primeiro lugar do top.

2006 – “Foi Feitiço”, André Sardet

Esteve 11 semanas sem sair de cima, no final de 2006, e ainda fez uma perninha em 2007, com mais uma semana no top. “Acústico” de André Sardet seria o segundo álbum mais vendido do ano e dominava o airplay nacional quando o Natal chegou. Gravado ao vivo no Teatro Académico de Gil Vicente, em Coimbra, o álbum comemorou dez anos de carreira com 15 canções. Esta tornou-se a mais viral delas todas.

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2007 – “No One”, Alicia Keys

A canção serviu de single ao álbum As I Am, lançado em Setembro de 2007. Foi o quinto tema de Alicia Keys, então com 26 anos, a alcançar o cobiçado número 1 da Billboard Hot 100, dos Estados Unidos. Também liderou o Top 50 em Portugal entre este Natal e Março do ano seguinte. Valeu-lhe também duas estatuetas na edição seguinte dos Grammys, uma para Melhor Canção R&B, outra para Melhor Interpretação Feminina R&B.

2008 – “All I Want For Christmas Is You”, Mariah Carey

E ei-la de volta ao top nacional, 14 anos mais tarde. Portugal, como atrás explicámos (recuar ao Natal de 1994), não foi caso único: há vários países em que “All I Want For Christmas” regressou ciclicamente aos tops. É, sem margem para dúvida, a toada de Natal mais famosa e ubíqua das últimas três décadas. Um relatório da consultora Nielsen, relativo a 2016, mostrava que a canção composta por Mariah Carey e Walter Afanasieff conseguiu nesse ano liderar as tabelas de airplay de rádio, serviços de streaming e compras, demonstrando assim um certo apelo universal, capaz de atrair gente de diferentes gerações e através de diferentes plataformas.

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2009 – “I Gotta Feeling”, The Black Eyed Peas

“Hi guys, I am Carlos [Queiroz], the national team coach of Portugal, and I want to say: thank you so much for your support. The music, the song, the words: brilliant!”. O então seleccionador nacional agradecia assim aos Black Eyed Peas, depois de a banda ter enviado uma mensagem de apoio à Portugal, declarando o seu apoio para o Mundial de 2010, na África do Sul. Isto porque, entretanto, a selecção tinha adoptado a canção como seu hino na fase de qualificação. Carlos dizia que tinha uma fezada, os Black Eyes Peas cantavam que tinham uma fezada, mas não deu para mais que os oitavos de final. Quando Queiroz gravou esta mensagem, em Dezembro de 2009, a canção era número 1 do top de singles.

2010 – “Love The Way You Lie”, Eminem & Rihanna

Relações tóxicas e abusivas: eis o tema para o Natal de 2010. No vídeo, vemos Dominic Monaghan e Megan Fox no papel de um casal a desfazer-se, entre discussões brutas e reconciliações apaixonadas, com cenas de violência que se diz doméstica mas que consegue ser bastante selvagem. Na canção escutamos Eminem e Rihanna a dar voz aos dois amantes que se recusam a separar, apesar de mergulhados numa atribulada relação de amor-ódio e passarem a vida à trolha. Alcançou o número 1 em mais de duas dezenas de países, incluindo a Billboard Hot 100 dos Estados Unidos (sete semanas consecutivas) e o TOP 50 português. Recebeu cinco nomeações aos Grammys (sem vencer nenhum) e permanece como o single mais vendido na carreira de Eminem.

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2011 – “Ai Se Eu Te Pego”, Michel Teló

A culpa, como tantas vezes acontece, foi do Ronaldo. Em finais de Outubro, no jogo que opôs o Real Madrid ao Málaga, Cristiano celebrou um golo acrobático de calcanhar com uma pequena coreografia da canção. De acordo com o próprio Michel Teló, esse terá sido o momento em que esta moda nordestina disparou para se transformar num fenómeno viral em todo o mundo. Nesse Natal, era já número 1 em Portugal. Seria o sexto single mais vendido globalmente em 2012, com mais de sete milhões de cópias físicas e digitais. Quanto a Ronaldo, marcou 60 golos nessa época.

2012 – “Diamonds”, Rihanna

Marilyn cantava que os diamantes são os melhores amigos de uma rapariga e, 60 anos depois, Rihanna estava capaz de concordar. Em 2012, “Diamonds” tornou-se num dos maiores sucessos da sua carreira. O single foi lançado em Setembro, o álbum — Unapologetic — chegou em Novembro, e quando veio o Natal Rihanna estava de volta ao número 1 da Billboard Hot 100 (a sua quinta vez) e à liderança noutros 20 países. Em Portugal aguentou-se 11 semanas. Em Novembro, para ajudar à festa, saiu um remix da canção, com a participação de Kanye West.

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2013 – “All of Me”, John Legend

A canção não tem segredo: é uma jura de amor bajoja de John Legend à sua amada. O videoclipe foi filmado em Itália, dias antes do casamento do músico com a modelo Chrissy Teigen. Legend contracena com a sua noiva e tudo termina com imagens reais do casamento dos dois, no Lago Como. A receita funcionou, mas demorou um bocado. Lançada em Agosto de 2013, a canção só alcançou o top da Billboard Hot 100 em Maio do ano seguinte, destronando Pharrell Williams, que já lá estava a ganhar bolor há dez semanas consecutivas com o ubíquo “Happy”. Antes disso, “All of Me” tinha já chegado ao número 1 do top português, onde se conservava na consoada de 2013.

2014 – “Thinking Out Loud”, Ed Sheeran

Lançada Setembro de 2014, “Thinking Out Loud" foi incluída em X, o segundo álbum de estúdio de Ed Sheeran. No Natal seguinte, trepava já pelos tops de todo o mundo e era número 1 em Portugal. Mas não ficou por aí. Em Junho de 2015, tornou-se no primeiro single a permanecer um ano completo na UK top 40. Em Setembro seguinte, tornou-se também num dos poucos (sete ao todo) singles a conseguir uma tripla platina no Reino Unidos neste século (três vezes 600 mil cópias, que é como quem diz 1,8 milhões). Em Outubro, “Thinking Out Loud" tornou-se a primeira canção de sempre a ser ouvida mais de 500 milhões de vezes no Spotify. E em Novembro, mas de 2021, o videoclipe acumulava já mais de três mil milhões de visualizações no YouTube.

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2015 – “Hello”, Adele

Na tábua cronológica que é a discografia de Adele, 25 é o terceiro álbum de estúdio. “Hello” foi o primeiro single, lançado logo em Outubro, em antecipação ao disco. Em apenas dois meses, teve tempo para vender 12,3 milhões de cópias em todo o mundo e ainda entrar para o top dez das canções mais vendidas desse ano. No Natal, como se adivinha, era já a canção mais ouvida por cá. De resto, 25 foi o segundo álbum mais vendido de 2015 em Portugal.

2016 – “Loucos”, Matias Damásio

Em 2016, o angolano Matias Damásio notabilizou-se em Portugal com “Loucos”, em dueto com Héber Marques, dos HMB. A canção foi incluída no álbum Por Amor e passou o Natal desse ano no top. Em 2017, Matias já enchia os coliseus de Lisboa e Porto.

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2017 – “Perfect”, Ed Sheeran

Três anos depois de “Thinking Out Loud”, Ed Sheeran voltou a conquistar o Natal. “Perfect” foi estreado como single em Setembro e incluído no terceiro álbum de estúdio do músico britânico, lançado no mês seguinte. Uma segunda versão da canção, “Perfect Duet”, cantada a meias com Beyoncé, foi lançada a 1 de Dezembro. Um outro dueto com o italiano Andrea Bocelli, “Perfect Symphony”, seria editado duas semanas depois. Quando o bacalhau nos chegou à mesa, a versão original era já líder em Portugal e nos tops de mais 16 países.

2018 – “Shallow”, Lady Gaga & Bradley Cooper

A coisa acabaria a escaldar na cerimónia de entrega dos Óscares, Lady Gaga e Bradley Cooper a cantar juntinhos, quase enrolados, com o mundo todo a assistir e a namorada dele também. O dueto ficou como momento alto do remake de A Star is Born, realizado pelo próprio Cooper, e Gaga levou para casa o Óscar de Melhor Canção Original. Além disso, “Shallow” foi vencedor nos Globos de Ouro e nos Bafta, fisgou dois Grammys entre cinco nomeações, e de caminho trepou aos tops um pouco por todo o mundo, incluindo a liderança da Billboard Hot 100 e, claro, da tabela portuguesa de singles, onde se aguentou entre finais de Dezembro e meio de Março do ano seguinte.

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2019 – “Dance Monkey”, Tones and I

Lançada em Outubro de 2019, “Dance Monkey” marcou a estreia com estrondo da australiana Tony Watson. Quando o Natal chegou, a canção liderava já o top em 30 países e Portugal era um deles. Na Austrália, então, foi o fim da macacada: aos 26 anos, a compositora, produtora e cantora que adoptou o nome artístico de Tones and I segurou-se 24 semanas consecutivas no número 1, batendo um recorde que durava desde 1943, quando Bing Crosby foi líder por 22 semanas com a sua versão de “White Christmas”.

2020 – “Inesquecível”, Giulia Be & Luan Santana

Em Maio de 2020, a jovem Giulia Bourguignon Marinho (que teve a gentileza de simplificar o nome artístico para Giulia Be) editou Solta, o seu primeiro EP (simplificação de Extended Play, que é assim uma espécie de amostra de disco). O sucesso no Brasil foi imediato e rapidamente chegou a Portugal também. “Inesquecível” é o quarto single retirado dessa primeira montra, foi lançado em Outubro, e é cantado em dueto com Luan Santana. Ocupou o primeiro lugar do top português entre o início de Dezembro e o final de Janeiro seguinte.

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O reino misterioso do sono nunca deixou de atrair os compositores de canções. Estas sete substâncias hipnóticas podem ser tomadas sem receita médica, mas há que ter em atenção que algumas poderão produzir, nas almas mais sensíveis e quando consumidas repetidamente, efeitos secundários imprevisíveis. O importante é reter que as canções de embalar, apesar de talvez terem sido as primeiras criações musicais do Homo Sapiens, não são um género esgotado. A prova está aqui.

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Não consta de nenhuma das letras, mas a palavra da moda atravessa todas estas canções. Aqui fala-se de resistência e esperança, optimismo e perseverança, confiança e tenacidade: em suma, fala-se de resiliência, palavra que por estes dias se consome mais do que álcool gel. Eis então uma playlist que é uma espécie de vacina contra toda a sorte de atribulações, borrascas, contrariedades, dissabores, e mais uma série de sinónimos de coisas chatas, que podíamos continuar a ordenar alfabeticamente até chegarmos a “zaragatoa”.

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