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Floris van Dyck - Pièce de Banquet
Floris van Dyck, 1622

Seis canções sobre comida e bebida

A propósito da vinda a Sintra do Ensemble Clément Janequin, recordamos canções sobre a boa mesa com 500 anos

Por José Carlos Fernandes
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A música da Renascença tem fama de ser invariavelmente solene e mesurada e de se destinar a exaltar a glória de Deus ou a lamentar amores não correspondidos por damas altivas e distantes. Porém, a par desta atmosfera refinada, muitas canções profanas da Renascença tinham temáticas muito terra-a-terra: havia-as de toada maliciosa, zombeteira e até francamente brejeira, enquanto outras celebravam a boa comida e o bom vinho e uma vida de ociosidade e prazeres desregrados.

Estas temáticas tiveram especial expressão na canção polifónica francesa do século XVI, que teve o seu apogeu em Paris, em 1530-1560, com nomes como Clément Janequin, Claudin de Sermisy e Pierre Certon, e teve continuação com Claude Le Jeune e Guillaume Costeley.

O Ensemble Clément Janequin no ciclo Reencontros

Seis canções sobre comida e bebida

“Nous Sommes de l’Ordre de Saint Babouyn”

Compositor: Loyset Compère (c.1445-1518)

Como muitos dos mestres da canção polifónica francesa, Loyset Compère nasceu algures entre o que é hoje o Norte da França e os Países Baixos, englobando-se na designação genérica de “franco-flamengo”. Trabalhou em Milão, ao serviço do Duque Galeazzo Maria Sforza, e, após o assassinato deste, ingressou na capela de Carlos VII de França.

“Nous Sommes de l’Ordre de Saint Babouyn” é uma exaltação da vida de ócio e mesa farta e proclama que as regras da ordem incluem “dormir até tarde/ E beber bom vinho”.

Descreve detalhada e gulosamente uma relação de vitualhas e bebidas que deverão alegrar o quotidiano dos membros da ordem: as matinas são ditas com um jarro de vinho à mão, o almoço consiste num “gordo capão”, “sopa com gema de ovo na Terça-Feira Gorda”, um bife e um naco de carneiro. Como snack, “uma salada de arenque curado” e “tarte de pombo”, regados com “um bom vinho clarete”.

À ceia, “coelhos assados, faisão, abetouro e também perdiz” e, de novo, um “gordo capão”. Para rematar o repasto, “tarte de queijo” e “peras confitadas”. Chegou a hora de nos deitarmos entre alvos lençóis, “tendo nos nossos braços uma bela rapariga”, cujas especificações respeitantes às suas partes íntimas é prudente não reproduzir aqui.

[Pelo Ensemble Clément Janequin, do álbum Une Fête Chez Rabelais (Harmonia Mundi)]

“Hau, Hau, Je Boys!”

Compositor: Claudin de Sermisy (1490-1562)

Claudin de Sermisy nasceu em Noyon e em 1598, aos 18 anos, tornou-se cantor da capela real, em Paris, cargo que desempenharia (com um breve interregno) até ao fim da vida. Acompanhou Francisco I na sua viagem a Itália e no encontro com Henrique VIII de Inglaterra. Além de uma dúzia de missas e uma centena de motetos, foi autor de 175 canções.

“Hau, Hau, Je Boys!” é uma celebração do vinho a quatro vozes: “Rezemos a Deus/ O Rei dos Reis/ Para que preserve o bom vinho francês”.

[Pelo Ensemble Clément Janequin, do álbum Les Plaisirs du Palais (Harmonia Mundi)]
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“Je ne menge point de porc”

Compositor: Claudin de Sermisy (1490-1562)

A firme decisão de não comer carne de porco expressa no título desta canção não tem a ver com convicções religiosas, mas com os duvidosos hábitos alimentares do porco: “Não toco em carne de porco/ E digo-vos o motivo:/ Se ele com cem poias se regalou/ Razão para rir terá”.

[Pelo Ensemble Collegium Vocale, do álbum Bonjour, Mon Coeur]

“Or Oiez les Introites de Taverne”

Compositor: Guiard

Nada se sabe sobre este Guiard e a única composição sua que chegou aos nossos dias é precisamente “Or Oiez les Introites de Taverne” que faz parte da colecção “28 Chansons Musicales”, publicado em Paris em 1553 por Pierre Attaingnant, um prolífico editor de canções polifónicas.

A letra, intraduzível, enumera vários compositores franceses do século XVI (alguns deles identificáveis, outros referidos apenas por alcunhas), à medida que entram numa taberna, onde são encorajados a comer e beber até rebentar. A letra, de tom zombeteiro e blasfemo, mistura na mesma linha invocações ao divino em latim e elogios aos enchidos em língua vernacular.

[Pelo Ensemble Clément Janequin, do álbum Une Fête Chez Rabelais (Harmonia Mundi)
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“La chasse au lièvre”

Compositor: Nicolas Gombert (c.1495-c.1560)

O flamengo Gombert (nascido, possivelmente, não muito longe de Lille) foi um dos grandes mestres da polifonia renascentista e talvez a sua fama fosse ainda maior se a sua carreira não tivesse sofrido um sério percalço por volta de 1540, quando era mestre do coro de crianças na corte de Carlos V: foi acusado de abusar de um dos meninos do coro e condenado às galés. Reza a lenda que enquanto cumpria a pesada pena compôs vários Magnificats, que terá feito chegar a Carlos V e que terão comovido este a ponto de perdoar o compositor. Seja qual for a razão, Gombert foi libertado por volta de 1547 e obteve um cargo eclesiástico em Tournai, mas pouco parece ter composto (ou publicado) a partir daí.

A primeira parte da canção “La chasse au lièvre” (A caça à lebre) inscreve-se na tradição da imitação onomatopaica de uma caçada, cuja peça mais famosa é “La Chasse”, de Janequin). Apanhada a lebre, os caçadores encaminham-se para a taberna, onde degustarão o bicho e molharão a garganta, ressequida pela correria. Na verdade, chegados à taberna, a lebre parece ficar esquecida, pois, sentados os caçadores à mesa, tratam de encomendar “galinhas e capões, bifes e carneiro”, embora pareça duvidoso que tenham dinheiro para pagar a conta.

[Pelo Ensemble Clément Janequin, do álbum Les Plaisirs du Palais (Harmonia Mundi)]

“Je Boy à Toy Mon Compagnon”

Compositor: Claude Le Jeune (c.1528-1600)

Como muitos outros cultores da canção “parisiense”, Le Jeune não nasceu em Paris: era originário de Valenciennes, então nos Países Baixos Espanhóis e hoje no Norte de França e a primeira notícia que há dele é a publicação de quatro canções suas em Leuven (hoje na Bélgica), em 1552. Instalou-se em Paris em 1564 e, apesar de professar a fé protestante, escapou ao Massacre de São Bartolomeu, em 1572, em que pereceram milhares de huguenotes. Em 1589 foi forçado a fugir para La Rochelle, por se ter descoberto em Paris ser ele o autor de um manifesto anti-católico – só regressaria à capital francesa em meados da década de 1590, tendo entrado ao serviço de Henrique IV de França.

Chegou aos nossos dias uma centena de canções de sua autoria e uma delas é “Je Boy à Toy Mon Compagnon”, uma canção de beber em cenário marítimo: “Força, força nesse remo/ Força, força, companheiro/ Chegaremos a Inglaterra/ Seja por mar ou por terra [...]/Força, força, companheiro/ Bebi tanto que já vejo o fundo/ Força, força nesse remo”.

[Por The Toronto Consort, do álbum The Italian Queen of France (Marquis Classics)]

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