A Time Out na sua caixa de entrada

Procurar
Legendary Tigerman
© DRThe Legendary Tigerman

The Legendary Tigerman: "Um pobre diabo à procura da sua alma"

The Legendary Tigerman tem um novo álbum, ‘Misfit’. Bem como um filme, ‘Fade Into Nothing’. Um regresso em grande

Escrito por
Luís Filipe Rodrigues
Publicidade

Três anos depois de True, The Legendary Tigerman está de volta aos discos. E de que maneira. Com Misfit, um álbum de rock and roll gravado em trio, com Paulo Segadães e João Cabrita, no mitifacado Rancho de La Luna, estúdio de Dave Catching (earthlings?) em Joshua Tree. E com Misfit Ballads, conjunto de baladas que não encaixavam em Misfit. E com o filme Fade Into Nothing, de Furtado, Rita Lino e Pedro Maia, história de estrada e diário de viagem ficcionado que acompanha a edição em CD de Misfit. E ainda há a banda sonora do filme, a editar mais perto do final do ano. Falámos sobre isto tudo com o músico português.

 

A música de The Legendary Tigerman sempre foi muito americana – os blues, o garage – mas era uma interpretação feita à distância, por alguém de fora. Como é que foi fazeres um disco lá, com uma vivência mais próxima do país?

Sabes que não foi por acaso que só agora é que fui lá gravar um disco [de The Legendary Tigerman]. Em 1998 e 99, estive lá durante algum tempo e mudei a minha perspectiva em relação à música americana. Aprendi uma série de afinações abertas, tomei contacto directo com os blues e com pessoas que me ensinaram uma data de coisas. Foi um período de descoberta e transformação, de estilização da minha música. Como venho do punk e do rock houve muitas coisas dos blues que entraram por aqui e mudaram o que eu fazia, e eu achei durante muitos anos que seria redundante gravar na América porque eu não queria ir lá antes de ter uma linguagem minha bem definida.

O novo disco, Misfit, é de alguma forma uma reacção ao anterior, True?

Acho que sim. No True eu levei a coisa da one-man band longe demais. Passei horas e horas, durante meses, numa cave negra e escura. Passava um dia inteiro a tentar resolver uma parte técnica de uma música e a certa altura comecei a achar que isso era estúpido. Por que é que tinha de me forçar a tocar tudo, os instrumentos todos, se podia fazer uma coisa diferente. Eventualmente o Sega entrou para bateria, e mais tarde entrou o [João] Cabrita, um bocado por acidente. De repente, de uma maneira super-orgânica e não planeada, esta one-man band acabou por se transformar num trio, o que me obrigou a tomar uma decisão: gravar este disco como one-man band ou como um trio. E optei por essa última hipótese, porque era o que me estava a dar mais gozo e porque a linguagem criada com o Cabrita, com o saxofone barítono, que tem um som muito poderoso, era interessante. Podíamos criar uma parede de som e uma sonoridade diferente, mantendo alguns dos princípios deste projecto.

O saxofone do João Cabrita é de facto determinante no disco. Como é que foi trabalhar com ele, estando tu tão habituado a fazeres tudo sozinho nos discos de The Legendary Tigerman?

Foi paradisíaco. O Cabrita é um músico inacreditável e os inputs dele foram sempre incríveis. Dele e do Sega. Mas há uma grande generosidade do Cabrita em estar ao serviço do meu ponto de vista. Deixar-se guiar pela minha ideia para o disco e direcção artística, mas não se coibir de seguir pelas direcções que ele quer seguir. Isso para mim tornou-se claro logo ao vivo. Quando começámos a tocar ao vivo o sax passava muitas vezes à frente da guitarra, e felizmente que o fazia, e a linguagem deste disco começou a ser criada aí. Era uma energia tão boa e tão especial que era necessário aproveitá-la.

Voltando à relação entre o Misfit e o True, parece-me também que o anterior era um disco mais pessoal.

Sim. O True tinha sido uma coisa muito instrospectiva, e aqui achei que tinha de olhar para fora, mesmo que esse olhar tenha muito de mim mesmo. Precisei de forçar isso.

Quem é este “Misfit” que dá o nome ao disco? Ainda é o Legendary Tigerman ou é um novo personagem?

É um novo personagem, por cima do Tigerman. Ou melhor, é uma máscara que vem por cima desta máscara que é o Tigerman. Há uma relação, mas há quase um descruzar. E é um personagem curioso. Não percebes se é um gajo completamente descompensado, se é um gajo que meteu demasiados ácidos e já não é capaz de raciocinar direito. [No Fade Into Nothing] não percebes o que é real ou não. Se aquelas coisas podem ser reais e ele é só um pobre diabo à procura da sua alma no meio do deserto... Essas interrogações estimularam-me muito na escrita dos diários dele.

E o que tens a dizer sobre o processo de composição do álbum e rodagem do Fade Into Nothing?

Não me apetecia escrever sobre mim próprio, apetecia-me olhar para fora. Isto muito antes de chamar o Pedro e a Rita para embarcarmos nesta ideia do Fade Into Nothing, que na altura nem sabia que ia ser uma longa-metragem. Queria escrever sobre coisas que estivessem a acontecer fora de mim e eu pudesse ver por outros olhos. Sobre a estrada e o caminho. Percebi que gostava de escrever isto na América, na estrada, além de que o deserto de Joshua Tree é muito estimulante. Era uma viagem que me interessa muito e quis nessas duas semanas condensar toda a faísca criativa, de escrita e de composição, quer do disco, quer do filme. Claro que houve um ano de planificação antes e um ano de trabalho depois, mas no fundo a faísca criativa aconteceu nessas duas semanas.

A banda sonora do filme é diferente do Misfit e das Misfit Ballads que acompanham o disco. As composições também nasceram naquelas duas semanas? Estás a pensar editar isso?

Esse processo foi totalmente exterior àquelas duas semanas. Foi o momento em que me tentei distanciar mais do projecto. Ainda pensei em pedir a outra pessoa para fazer a música, mas não achei que fosse a solução mais correcta, até porque musicalmente o filme teria de ter algo a ver comigo. Então encarei quase como uma encomenda do Pedro e da Rita, para me distanciar. E acho que isso funcionou muito bem. A banda sonora é mais pesada, mais negra e mais electrónica, exactamente porque o Pedro e a Rita têm outras referências. E sim, haverá uma edição em vinil dessa banda sonora mais perto do final do ano.

Sei que a autoria do filme é partilhada pelos três, mas como foi a separação de trabalho real?

Houve um período ainda longo, uns cinco ou seis meses de planeamento e de escrita e definição da própria viagem: por onde íamos, onde íamos parar, sobre o que ia o filme falar, quem era este personagem, este Misfit. Coisas que fizemos de uma maneira tripartida. Mas a partir do momento em que chegámos à América a coisa mudou de figura. Eu fiquei praticamente com dois papéis: o de personificar o Misfit e escrever as entradas do diário que dariam corpo ao filme. Depois, durante a rodagem, o Pedro e a Rita tomaram mais a direcção da realização. E a Rita também fez a direcção de actor comigo. Foi um processo muito intuitivo.

Tens um sotaque muito cerrado no filme, uma pronúncia muito aportuguesada. Não te passou pela cabeça ter outra pessoa a ler os teus textos, dado que era tudo em off?

Passou. E tivemos um actor americano incrível e muito talentoso que se disponibilizou para isso. Mas... É uma belíssima questão que levantas. Porque primeiro pensei em escrever em português, só que depois percebemos que isso limitava e definia demasiado a personagem que queríamos que fosse mais vaga, um europeu perdido na América. E eu até gosto da pronúncia. Podia ter feito algo mais próximo da pronúncia americana mas não me pareceu o ideal. Tinha de ser claro que [o Misfit] não é um americano, que é um europeu que está na América. Isso era importante no filme. Por outro lado, também era importante que fosse a minha voz, era mais pessoal.

Mais música

  • Música

2018 ainda agora começou e a agenda de concertos em Lisboa já está a rebentar pelas costuras. Portanto, tem de se organizar. Não faz contas para as suas contas? Não cria tópicos e lembretes telefónicos para bater tudo certo e o orçamento esticar até ao final de cada mês? É encarar os concertos como o IMI ou o IUC e escolher ao que vai.

  • Música

Os britânicos The Horrors souberam crescer com o passar dos anos e o seu som nunca parou de mudar. Começaram por fazer um garage rock negro e sujo, viraram-se para o shoegaze, abraçaram um psicadelismo carregado de cor e hoje são um banda maior, sem medo da pop, mas cujas canções flirtam com a new wave e música industrial. 

Publicidade
Spoon: “Quisemos fazer um disco que soasse ao futuro”
  • Música

Os Spoon marcaram e influenciaram a música indie americana desde o primeiro disco, em 1996. E, indiferentes às modas, nunca pararam de refinar o seu som. Com o álbum Hot Thoughts, deste ano, provam que ainda são capazes de baralhar e introduzir novas ideias numa fórmula que parecia cristalizada. 

Recomendado
    Também poderá gostar
      Publicidade