Woody Allen em concerto, ou o músico escondido atrás do cineasta

Quando Woody Allen, o seu clarinete e a New Orleans Jazz Band, com quem toca há décadas, subirem ao palco do Coliseu de Lisboa, estaremos a ver um diletante com prática ou um músico amador, realizador de profissão, com uma paixão por jazz?
Woody Allen
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Por Rui Monteiro |
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Seja qual for a resposta, o músico por detrás do cineasta com uma queda por jazz, nas bandas sonoras dos seus filmes, tem-se mostrado um melómano conhecedor. E um propagandista, por assim dizer, de uma música que corresponde também a uma banda sonora de Nova Iorque, melhor, da Manhattan da sua imaginação. Dez exemplos já a seguir.

 

Woody Allen & his New Orleans Jazz Band tocam no Coliseu de Lisboa dia 4 de Julho

Woody Allen em concerto, ou o músico escondido atrás do cineasta

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Quiero La Noche – Marvin Hamlisch (Bananas, 1971)

O tema principal de Bananas tinha naturalmente de ter alguma coisa a ver com a América Latina, já que é por ali que se passa, num tempo em que os golpes de estado e as revoluções de pacotilha eram o pão nosso de cada dia. Uma canção tonta, carregada de lugares comuns musicais e arranjos para metais em luta com uma guitarra eloquente é completamente apropriado ao ambiente do filme – e uma excepção nas suas bandas sonoras, quando ainda nem existia uma regra.

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Alexander Nevsky – Serguei Prokofiev (Nem Guerra, Nem Paz, 1975)

Outra excepção, também do tempo em que não havia regra, é a introdução de extractos de Alexander Nevsky e de outras obras do compositor russo Serguei Prokofiev na banda sonora de Nem Guerra, Nem Paz. O que faz todo o sentido, pois a película é uma variação, ou uma paródia, se preferido, do romance de Tolstoi, em que Allen faz de professor obrigado a juntar-se ao exército.

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Rhapsody In Blue – George Gershwin (Manhattan, 1979)

Retrospectivamente, Manhattan, para lá das suas qualidades cinematográficas, é tanto uma homenagem à cidade de Nova Iorque como à música de Gershwin, que ecoa, majestosa, sobre as complicações amorosas do protagonista registadas em nostálgico preto e branco.

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Stardust – Louis Armstrong (Recordações, 1980)

Se outrora havia sido a literatura russa clássica a inspirar filmes, agora é o cinema (o que, aliás, acontece frequentemente no trabalho de Allen, e começou a tornar-se evidente, dois anos antes, em Interiores, uma homenagem, ou uma película à maneira de Ingmar Bergman, a escolha é individual), através desta inteligente abordagem a Fellini 8½. A música de Louis Armstrong, um dos fundadores do jazz de Nova Orleães, é um take alternativo da canção onde a palavra “melody” é substituída por “memory” – o que não podia calhar melhor em filme sobre a memória.

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The Chameleon – Dick Hyman (Zelig, 1983)

Apesar de um dos mais ignorados filmes do realizador, Zelig é também uma das mais extraordinárias e peculiares obras de Allen, ainda por cima servida por grande prodígio técnico para a época e por um subtil comentário social. O que interessa pouco, agora, altura em que importa, sim, referir a completa adequação do tema principal, composto e interpretado pelo experiente maestro Dick Hyman, à vida camaleónica do fantástico Leonard Zelig.

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Agita – Lou Canova (O Agente da Broadway, 1984)

Mais ou menos da mesma maneira que ninguém sabia quem era Danny Rose na Broadway, e os que sabiam tratavam-no como uma anedota, a música de Lou Canova (interpretado por Nick Apollo Forte) sobre indigestão foi um êxito (ficcional, claro) em que, apesar da fé no seu cantor, nem o agente mais gozado e mais falhado, porém o mais dedicado aos seus artistas, acreditara. Por outro lado, a criteriosa escolha do resto do alinhamento sonoro (com canções e músicas verdadeiras) mostra como apesar das suas inclinações Allen não deixa de ter um conhecimento musical ecléctico.

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In The Mood – Glen Miller (Os Dias da Rádio, 1987)

Esta banda sonora é como um máquina de distribuição do cancioneiro clássico norte-americano. O que faz o seu sentido, pois a acção passa-se durante a Grande Depressão, era em que, menos ironicamente do que parece, se compuseram excelentes e ainda vigorosas canções. E não é só Miller o compositor escolhido, pois aqui também se encontram memórias e raridades, como o orquestral Flight of the Bumblebee, do compositor russo Rimsky-Korsakov, na versão da orquestra de Harry James.

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I'm Thru With Love – Goldie Hawn (Toda a Gente Diz Que Te Amo, 1996)

Quem viu sabe como Toda a Gente Diz que Te Amo é, ao mesmo tempo, um fantástico e um terrível musical. Fantástico pela incrível escolha de canções e temas musicais (e pela presença de um coro, à teatro grego, que só diz disparates, mas que, no entanto, é a mais assisada das personagens). Terrível por o realizador usar como cantores as vozes não treinadas dos seus actores. O que acaba por ter um efeito deliciosamente cómico, como acontece no dueto entre Edward Norton e Natalie Portman, por exemplo. Goldie Hawn, pode-se dizer, saiu-se até muito bem interpretando I'm Thru With Love na margem do Sena.

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Limehouse Blues – Emmet Ray (Através da Noite, 1999)

Mais jazz e mais um exemplo do variado gosto e conhecimento musical de Woody Allen, além de um fraquinho por guitarras, que estão presentes em quase todos os seus filmes, e, principalmente, neste em que Sean Penn interpreta o confiante guitarrista, embora um pouco trapalhão, Emmet Ray, uma espécie de émulo de Django Reindhart, que simultaneamente admirava e odiava. Toda a música do filme tem arranjos de Dick Hyman, e os solos de guitarra são da responsabilidade de Howard Alden, que ainda treinou Penn para o actor não fazer má figura a dedilhar as cordas.

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Blue Moon – Rodgers and Hart’s (Blue Jasmine, 2013)  

Blue Jasmine, apesar de Cate Blanchett, é, como mais ou menos vem a acontecer há uns 20 anos, uma película bastante preguiçosa, onde o cineasta se vai repetindo sem grande entusiasmo, de certo modo como quem está farto, ou pelo menos criativamente esgotado. Porém, a banda sonora… Enfim, a banda sonora é uma das mais perfeitas alguma vez alinhadas num filme do autor. O que muito se deve à mestria de Christopher Lennertz, que escolheu um alinhamento em que Rodgers e Hart têm um papel central.

 

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