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Procópio
Mariana Valle LimaAlice e as filhas, Maria João (à esquerda) e Sofia (à direita)

50 anos de Procópio. São elas que estão à frente do mítico bar lisboeta

Local de segredos, conspirações, histórias e notícias sabidas antes de o serem, o Procópio abriu há 50 anos. Três mulheres resistem no bar junto ao Largo do Rato.

Escrito por
Joana Moreira
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A frequência desmedida com que se usa a expressão “se estas paredes falassem” não lhe retira a força. Não quando se trata do Procópio. O histórico bar junto ao Jardim das Amoreiras abriu a 5 de Maio de 1972 e desde então tem escrito a sua história a meias com a da cidade. Nasceu pela mão de Alice e Luís Pinto Coelho, que acabaria por abrir também A Paródia, o Foxtrot e o Pavilhão Chinês. Quando se separaram, dois anos depois, o decorador e gestor deixou o bar a Alice, que de forma consensual é vista até hoje como a alma do espaço.

Com ela fugimos ao cliché de nos sentarmos para uma conversa na famosa “mesa dois”, lugar eleito por políticos de vários quadrantes, artistas e escritores a cuja história chegaremos. Em vez disso, assumimos um poiso adjacente, próprio de quem orbitava a mesa com a destreza de uma perfeita anfitriã, gerindo a presença e acautelando sensibilidades. “Não toca nos copos mas aconchega as nossas emoções, ampara cuidadosamente as nossas amarguras, aplaude as nossas carências e, com raro sentido de humor, ajuda à festa”, escreveu sobre ela Raul Solnado no livro comemorativo dos 35 anos do Procópio – e que é vendido no local, sob pedido. 

“Em 1972, nunca tinha uma mãe de família aberto um bar!”, atenta Alice, de pérolas ao pescoço e cigarro entre os dedos. “Naquela época só havia bares para alternar e eu não queria de maneira nenhuma que isso acontecesse. Fiz muita força por isso. Pus muita gente na rua”, recorda. “Eles ficavam muito admirados por ser uma senhora a pô-los na rua. Diziam ‘quero falar com o gerente’, e eu dizia ‘sou eu’”. Hoje com 84 anos, partilha o leme do bar com as filhas, Maria João e Sofia Pinto Coelho. “Vou largando devagarinho…”, diz. “Vai largando as partes chatas”, interrompe Sofia, em tom provocatório. “Fi-lo durante muito tempo sozinha”, objecta a mãe. 

São elas, Sofia e Maria João, que diariamente orquestram os bastidores, gerem uma equipa familiar e lidam com quaisquer vicissitudes, do vizinho incomodado com o ruído (“No dia da festa [do 50.º aniversário] ele chamou a polícia”, queixa-se Alice. “É demais.”) até uma pandemia que as obriga a repensar a oferta. “Fomos ver alternativas, três mulheres a pensar... os pensamentos e a imaginação fervilha! Estamos habituadas. Somos um bocado mulheres lutadoras”, diz Sofia. 

A esplanada foi uma das grandes lutas recentes, impulsionada pelo primeiro-ministro, que frequentava o bar a dois passos da sede do Partido Socialista. “Ele disse-me: ‘Alice, isto precisa é de uma esplanada’. E eu disse-lhe: ‘Pois é, mas sempre que peço inventam coisas para não dar’. Fui ter com ele ao município, na altura ele era presidente da Câmara [de Lisboa], e lá fomos falar. Com as ordens do António Costa lá arranjei a esplanada, que era uma luta em que eu estava há anos sem fim”, conta. Antes de ser uma das palavras do ano, já Alice Pinto Coelho conhecia bem o termo “resiliência”. O meio século da casa nocturna é o seu maior argumento. “[O Procópio] resistiu porque eu nunca desisti dele. Nos anos 80 começaram a abrir os grandes espaços na 24 de Julho, mas depois voltaram as pessoas fartas dos grandes espaços e cá estávamos nós, à espera.”

Rematada a conversa com a Time Out, a proprietária relembra uma viagem a Cuba e pede um mojito a José Barros, chefe do bar. É uma das novidades da segunda geração do Procópio: uma renovada carta de cocktails. Permanecem os clássicos, mas juntam-se criações de autor, como o Alice, com vodka, licor de banana, sumo de laranja e granadina. 

Troquem-se copos e licores na esperança de alcançar um novo público, o ambiente é para manter. “É a alma do sítio [que as faz vir]”, diz Sofia. “Toda a gente que aqui vem fica encantada, seja estrangeiro seja português”, garante Maria João. “Cadeiras de veludo, reflexos de Art Déco, relógio cavalinho e e candeeiros de Guimard, num arranjo de burguesia particular”, descreveu-o José Cardoso Pires (Livro de Bordo – vozes, olhares, memorações, Dom Quixote, 1997). 

Cinquenta anos depois, não há Mário Cesariny ao piano. Mas há uma enchente para celebrar o aniversário daquele que foi o palco do xadrez político do país. A actriz Maria do Céu Guerra, 79, é uma das resistentes desse tempo. “Continuamos a ser amigos todos. Embora o Procópio tenha mudado muito, foi-se renovando, nós continuamos a ter uma grande ligação à Alice, aos empregados, às filhas. Isto é uma família”, diz à Time Out, na festa de meio século do espaço, a que não podia faltar para recordar “os amigos da mesa dois e as conversas da mesa dois”. “Há uma relação afectiva e amorosa ligada à mesa dois. É muito agradável que haja um sítio assim, oxalá, para cada uma das pessoas." 

Esse sítio, uma mesa ao fundo, à esquerda, com vista privilegiada sobre o bar e o espaço, começaria a ganhar fama com a frequência de políticos, diplomatas, cineastas, publicitários e artistas. “Antes do 25 de Abril era onde se juntavam as pessoas todas contra o regime. Depois do 25 de Abril começaram a juntar-se todos os políticos. Os jornalistas vinham para as outras mesas ver se ouviam coisas”, conta Teresa Trigo de Sousa, publicitária que trabalhou durante anos a fio na Assembleia da República enquanto secretária de figuras como Ferro Rodrigues ou Vera Jardim. “Mesmo que o bar estivesse cheio, a mesa dois estava sempre reservada, aquela mesa é nossa”, frisa, lembrando que “chegava a ter banquinhos à volta da mesa porque não cabíamos”. Teresa tinha “a mania da fotografia” e fotografava em qualquer oportunidade. Tem álbuns inteiros catalogados com figuras que passaram pelo Procópio. 

Procópio
Mariana Valle LimaA mesa dois

Nesses álbuns de memórias figura não raras vezes João Paulo Bessa, também ele um habitué da mesa dois. “Éramos todos do contra-poder, havia sempre grandes conversas sobre as questões que estavam em jogo na altura. Tudo o que se passava de político no país passava na mesa dois”, recorda o arquitecto à Time Out. “Houve conhecimentos e avanços em relação ao que se passava depois na sociedade portuguesa. Não foi uma coisa simples nem fácil. Havia aqui coisas que se sabiam antes de elas acontecerem. Foram anos muito divertidos.” Era possível estar sentado à mesa dois sem se ser politizado ou, pelo menos, sem se falar de política? “Acho que não. Tinha de se dizer umas coisas políticas”, ri-se.

“Era a mesa em que se conseguia reunir mais gente. É só por causa disso”, explica Teresa sobre a predilecção pelo lugar, sempre reservado para o grupo que havia de chegar. 

Há muito que a mesa dois não está reservada, mas ainda há arte e política a deambular por ali e a fazer a nova vida do Procópio, não sendo impossível tropeçar em nomes reconhecidos da nossa praça. Mas isso só os clientes fiéis sabem. 

Procópio. Alto de São Francisco, 21 A (Rato). Seg-Sex 18.00-02.00, Sáb 21.00-02.00

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