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Casa Fernando Pessoa
Gabriell Vieira

A Casa Fernando Pessoa é para todos, agora com nova exposição e biblioteca renovada

A casa terá entrada gratuita ao longo do mês de Setembro e as novas regras exigem que faça marcação para visitar o espaço.

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São novas as portas que dão agora acesso à Casa Fernando Pessoa, em Campo de Ourique. Portas essas que estiveram fechadas mais de um ano para, a partir de 29 de Agosto, voltarem a receber os curiosos pelo legado do poeta naquela que foi a última morada, agora de cara lavada e com acessibilidades melhoradas, uma nova exposição permanente e uma biblioteca renovada. 

O número 16, por onde antes se entrava, lá continua, mas os novos acessos reencaminham os visitantes para o número 18, a nova entrada principal da Casa. Agora, não há escadas que impeçam ninguém de entrar, apenas uma rampa e um corredor negro que o conduzem para a entrada. A intervenção no edifício, fechado desde Março de 2019, permitiu melhorar as acessibilidades e a mobilidade no espaço com o apoio do Turismo de Portugal através da Linha Turismo Acessível.

 

Casa Fernando Pessoa

 

Gabriell Vieira

 

“Com a importância que este equipamento tem na cidade e na história da literatura, era importante que ele fosse mais acessível a todos”, conta Clara Riso, directora da Casa Fernando Pessoa, equipamento da EGEAC. “Aqui é realmente a morada do poeta, ele viveu aqui, e por isso há uma grande carga histórica e simbólica, é poder chegar à rua e olhar à volta, ver a vizinhança e perceber que há coisas que não mudaram”.

Mas a Casa Fernando Pessoa mudou. Mudou e fez crescer a área expositiva que agora se divide por três pisos, cada um dedicado a um núcleo distinto, sendo que o percurso é descendente – do terceiro para o primeiro andar. 

No último piso, que é também o primeiro desta nova empreitada, a exposição é dedicada aos heterónimos de Pessoa. A sua máquina de escrever é o mote para o visitante partir à descoberta dos muitos “eus” que o poeta assumiu desde cedo na sua vida, desde um exemplar d’O Palrador, o primeiro jornal elaborado por Fernando Pessoa, a um manuscrito da ode de Ricardo Reis, Vivem em nós inúmeros, emprestado pela Biblioteca Nacional. Ao longo desse núcleo é possível acompanhar a evolução e o desmembramento do poeta nos seus heterónimos através de alguns livros e exemplares da biblioteca pessoal do escritor, onde é visível a marginalia, ou seja, as anotações que o autor fazia nos livros. 

Casa Fernando Pessoa

 

Gabriell Vieira

 

 

“Tentámos não cair na tentação de contar as histórias todas até porque esperamos que o público interaja com os silêncios e as dúvidas do próprio poeta. É um sistema de heterónimos complexo e perceber como é que as figuras estabelecem ligações entre si, e os livros da biblioteca particular ajudam a decifrar coisas ao longo de toda a exposição”, diz Clara. 

É ainda nesse piso que volta a estar em grande destaque o retrato de Pessoa por Almada Negreiros, agora numa parede negra e mesmo em frente aos esboços do poeta por Júlio Pomar, que podem ser vistos em azulejo na estação de metro do Alto dos Moinhos. 

 

Casa Fernando Pessoa

 

Gabriell Vieira

 

É ainda possível explorar detalhadamente os heterónimos Bernardo Soares, Alberto Caeiro, Álvaro de Campos, Ricardo Reis e o próprio Fernando Pessoa – existem bancos de escuta para ouvir poemas e textos dos diferentes heterónimos lidos por actores. E antes de descer há uma sala de espelhos, “que convida as pessoas a entrar num universo imersivo e naquela ideia de várias caras, vários perfis”, explica Clara. 

O segundo piso é também o segundo momento da exposição, agora dedicado à biblioteca pessoal de Pessoa, onde é possível, com a estante que lhe pertenceu a ocupar uma das paredes, percorrer as lombadas de dezenas de referências literárias que o poeta lia e anotava – mais uma vez, é notória a importância da marginalia. Logo ao lado há uma sala de leitura, não para aceder aos livros da colecção particular mas sim àqueles que unem as peças que Pessoa deixou em vida e que hoje elevam a literatura portuguesa a outro patamar. 

“Aqui a pessoa pode sentar-se e tomar o seu tempo, é um momento de fruição. Até porque a leitura leva tempo e esta exposição é um lugar para descobrir o poeta”, afirma. Ainda nesse piso, parte da sala será dedicada a exposições temporárias e a primeira será composta pela curta-metragem O Passageiro, de Luís Alves de Matos. 

Casa Fernando Pessoa

 

Gabriell Vieira

 

O primeiro piso, e último, foi virado do avesso para agora se apresentar como uma réplica do apartamento do poeta, que ficava exactamente naquele espaço há mais de 100 anos. Este último núcleo expositivo recria a planta da casa com as respectivas divisões e onde, em cada uma, há elementos biográficos que contam o percurso de Fernando Pessoa – da colher de infância aos livros da sua juventude em Durban, na África do Sul, do contrato daquela casa, que data de 1920, ao mapa das 16 moradas que teve em Lisboa. 

E se até agora a exposição ia sendo acompanhada por textos de parede e informações adicionais, da última sala quer-se o efeito contrário. Folhas escritas cobrem o tecto e uma das paredes, rodeando uma cómoda que pertenceu a Pessoa, tudo para “passar a ideia de tumulto e de criação literária”. A exposição termina da mesma maneira que terminou a vida de Fernando Pessoa – com um manuscrito da última frase que o poeta escreveu, um dia antes de morrer a 30 de Novembro de 1935, onde se lê “I know not what tomorrow will bring” (“Não sei o que amanhã trará”). 

Casa Fernando Pessoa

 

Gabriell Vieira

 

“Esta nova exposição permanente pede algum tempo, mas o que torna as coisas mais interessantes é que a Casa Fernando Pessoa tornou-se num sítio onde é possível voltar e descobrir sempre alguma coisa nova”, refere Clara. “Foi um poeta que nos deixou muito, e esse sentimento de descoberta constante torna esta casa ainda mais atractiva”. 

Terminada a exposição, no piso térreo está agora o auditório da Casa Fernando Pessoa e a biblioteca dedicada ao poeta e à poesia, agora renovada e onde é possível fazer consulta e estudo dos livros em questão. 

Visitar agora o edifício pressupõe marcação prévia, para que possa ser controlado o número de visitantes dentro do espaço de forma a manter todas as regras de segurança e higiene exigidas pelas autoridades de saúde. As marcações são feitas por e-mail (vistas@casafernandopessoa.pt) e as visitas decorrem dentro do horário da Casa que estará aberta de terça a domingo, entre as 11.00 e as 16.00. A entrada será gratuita até ao final do mês de Setembro. 

A resistência no meio da tempestade

A reabertura do equipamento é, no entanto, uma responsabilidade acrescida. Durante o período que esteve de portas fechadas, a Casa Fernando Pessoa levou alguma da sua programação a outros equipamentos e, durante o confinamento, leu poemas ao ouvido de quem se sentia mais só. Agora, o recomeço é cauteloso. 

“O projecto para a Casa Fernando Pessoa está em cima da mesa há já alguns anos, e o espaço foi pensado para ser intimista, para ser tocado e agora há coisas que têm de ser adaptadas a esta nova normalidade”, explica Joana Gomes Cardoso, presidente da EGEAC, que gere o espaço dedicado ao poeta. “Fizemos as obras e depois levámos com um balde de água fria quando entrámos em quarentena, que foi quando nos preparávamos para abrir. Mas agora, mais do que nunca, é fundamental entregarmos a casa de novo à cidade”.

O lema do espaço passou a ser, aliás, “Sinta-se em casa”, um convite a todo o tipo de pessoas  a sentirem-se em casa na casa de Fernando Pessoa. “Reabrir nesta altura é crucial porque estamos a trabalhar a confiança do público, é darmos-lhe razões para continuar a viver a cidade em segurança e a não desistir da cultura”, afirma Joana. 

Casa Fernando Pessoa

 

Gabriell Vieira

 

A programação regular da Casa está a ser pensada e adaptada aos novos espaços do edifício e às novas regras de segurança e higiene para que possa voltar a ser acolhida ali. “Abrir a Casa é um sinal de resistência no meio do cenário que vivemos agora. Reabrimos os espaços EGEAC em Junho porque queríamos pôr os artistas a trabalhar, mas queríamos também regressar para as pessoas”, remata Joana. "O digital foi fundamental, mas não há nada como a experiência presencial. Temos de ter uma presença responsável, para responder a um público que tem sido exemplar".

Rua Coelho da Rocha, 16-18. Ter-Dom 11.00-16.00. Entrada livre no mês de Setembro.

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