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José Frade/EGEAC

A censura sobre tudo, a todo o tempo. “Proibido por Inconveniente” mostra Portugal amordaçado

“Vai além da política”, diz Pacheco Pereira sobre a exposição que inaugura esta quinta-feira, dia 7 de Abril, no antigo edifício do Diário de Notícias. Para ver até 27 de Abril.

Escrito por
Joana Moreira
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O país que não podia vir a público, o discurso que desafiava a autoridade e os bons costumes. Os livros, filmes, discos, jornais, anúncios publicitários que ousavam contrariar o discurso do Estado Novo. Está tudo presente em "Proibido por inconveniente. Materiais das Censuras no Arquivo Ephemera", a exposição que inaugura esta quinta-feira, 7, no primeiro piso do antigo edifício do Diário de Notícias, no Marquês de Pombal. 

"A maioria são inéditos", diz Pacheco Pereira, à Time Out. A exposição integrada no programa "Abril em Lisboa", da EGEAC, pretende revelar os vários lados da censura, com seis tabuleiros e 88 gavetas com materiais diversos que não alinhavam com os padrões do regime. A mostra, comissariada por Júlia Leitão de Barros e Carlos Nuno, inclui objectos que foram alvo do crivo da PIDE entre 1926 e 1974 e provêm  do Arquivo Ephemera biblioteca e arquivo de José Pacheco Pereira. 

"[Há] alvos da censura que têm evidentemente uma componente política, mas vai para além da politica", garante Pacheco Pereira. "As mulheres, a sexualidade feminina, a voz das mulheres. Não era só a questão da sexualidade, mas que as mulheres falassem sobre si próprias. É o caso das Novas Cartas Portuguesas. Os livros da Simone de Beauvoir também eram proibidos, a Maria Archer tem uma série de livros proibidos", continua.

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DR

No tabuleiro sobre as obras escritas por mulheres durante este período está, por exemplo, o despacho relativo à obra de Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa. "Algumas passagens são francamente chocantes por imorais, constituindo uma ofensa aos costumes e à moral vigente no país", escreve o censor sobre o título que "preconiza sempre a emancipação da mulher em todos os seus aspectos, através de histórias e reflexões". Concluindo: "sou do parecer que se proíba a circulação". 

Se Salazar dizia que “só existe aquilo que o público sabe que existe”, certo é que havia muito para cortar e rasurar nesse tempo. No caso da literatura, "a maior parte das obras proibidas era particularmente apreciada do ponto de vista literário", explica o antropólogo Carlos Nuno, um dos curadores. José Vilhena, Vergílio Ferreira ou Orlando Costa são alguns dos autores cujas obras foram apreendidas e que ali estão expostas. "Temos por vezes os censores a dizer 'isto de facto é de proibir, porque o tema e as intenções são subversivas, mas escreve tão bem, são tão bem ilustradas as cenas, por mais degradantes que sejam'", acrescenta Nuno.

Além de evidenciar a limitação da circulação de obras, seja pela sua apreensão pós-publicação, seja pela censura prévia, a exposição, patente até 27 de Abril, procura também lembrar como o policiamento da moral e bons costumes não estava centralizado num único organismo. "A censura vivia de vários ministérios, até da iniciativa individual, de gente que diz 'na livraria tal está um livro que não é adequado aos princípios do regime'", recorda a curadora Júlia Leitão de Barros, que no final do mês lança o livro Censura, a construção de uma arma política do Estado Novo (Tinta-da-China).

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DR

E depois da censura? 

O programa paralelo à mostra "Proibido por inconveniente" inclui também conversas, numa sala anexa à galeria, sobre "O que nem se podia ver" (9 de Abril, 17.00), "O que nem se podia ouvir" (21 de Abril, 18.00) ou "O que nem se podia pensar" (27 de Abril, 18.30).

Diálogos que urgem continuar, já que há efeitos da censura que se sentem até hoje, crê Pacheco Pereira: "O que nós herdámos de 48 anos de censura, e que é válido para as pessoas novas que nunca viram um dia de censura, foi a diminuição do valor da política, a diminuição do valor da democracia, a ideia de que a democracia é um regime da corrupção e a ditadura não era. A ideia de que os partidos políticos são uma coisa menor, a partidarização é uma coisa menor. A ideia de que o que é bom é o consenso e não a diferença, a ideia de que o conflito é mau pela sua própria natureza e que o que é bom é o consenso. Tudo isso, que são ideias que estão no inconsciente e que estão na cabeça das pessoas sem as pessoas saberem a sua autoria e como é que elas cá chegaram. Foi aquilo que fez durante 48 anos a censura" 

Av. da Liberdade, 266 (Marquês do Pombal). 7-27 Abr. Seg-Dom. 11.00-18.00. Entrada livre

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