Global icon-chevron-right Portugal icon-chevron-right Lisboa icon-chevron-right A Colina: novo festival leva Panda Bear a Setúbal
Notícias / Música

A Colina: novo festival leva Panda Bear a Setúbal

Panda Bear
Inês Félix Panda Bear no Príncipe Real

De ano para ano, o número de festivais parece crescer. O último chama-se A Colina e realiza-se pela primeira vez entre quinta-feira e sábado em vários locais de Setúbal. Panda Bear é o nome que mais se destaca num cartaz que cruza música com artes plásticas e visuais.

Antes do festival, havia o Coletivo Colinas. “Começámos a fazer música e arte em 2013/2014 e sempre tivemos um espírito de interajuda, por isso criar um colectivo – uma coisa muito vaga, quase só um nome que fica lá em rodapé – foi uma solução quase orgânica. E assim permaneceu durante cerca de três ou quatro anos”, explica Luan Bellussi, um dos fundadores. “Até que surgiu a oportunidade de dinamizar este evento com uma escala maior.”

Luan nasceu no Brasil há 25 anos e mudou-se para Setúbal com oito. Hoje vive em Lisboa e faz música como trash CAN (a solo) e como Império Pacífico (em duo). Pedro Tavares, de 22 anos, mais conhecido como funcionário, é a outra metade deste Império Pacífico e o co-fundador do Coletivo Colinas. Editaram ambos pela Rotten \ Fresh, mas entretanto parecem ter-se afastado da editora.

“O festival nasce de uma necessidade de devolvermos à cidade aquilo que aprendemos lá. Crescemos em Setúbal e sentíamos que havia poucas oportunidades para fazer lá o tipo de eventos que nos interessavam”, sumariza Pedro Tavares. Erguer A Colina, com o apoio da Câmara de Setúbal, foi uma tentativa de mudar este panorama. “A ideia é que se torne um acontecimento anual. Mas dificilmente vai ser na mesma altura”, diz Luan. “Até pode não ser nos mesmos espaços”, completa Pedro. “É uma edição zero por isso.” A única coisa que não vai mudar é Setúbal. “A cidade está no centro do festival e queremos sempre incluí-la. E às pessoas.”

Ouvir e ver as margens

É difícil reduzir o festival a uma palavra, uma ideia. O Coletivo Colinas ainda tenta, mas não dá. "A programação é intuitiva. Não dá para materializar em palavras", assume Luan. "É uma mistura do nosso gosto e daquilo que, no nosso entender, a cidade e as pessoas precisam. Quisemos reflectir uma certa diversidade", arrisca Pedro. Ambos fazem questão de enfatizar, no entanto, que não há cabeças de cartaz: "Para nós é tão importante termos o Ne Jah como DJ Music, como o Panda Bear ou a Malibu.”

A programação arranca pelas 21.00 de quinta-feira na Casa da Cultura de Setúbal. Primeiro, será exibido o filme Décors, de Miguel Tavares, musicado ao vivo por trash CAN. “É um trabalho que mostra os quartos de pessoas quando elas não estão lá. São streams que elas fazem na internet e o Miguel começa a gravar quando saem do quarto. Dura mais ou menos 20 minutos, meia-hora”, explica o irmão Pedro.

 

Mais tarde, há um concerto de Ben Yosei, novo moniker de Rafael Trindade. Também conhecido como Sanatur A Deo, é cantor e compositor de música ocasionalmente instrumental, mas muitas vezes de lírica afiada e honesta, num misto de folk marginal e peças de electrónica experimental.

Sexta-feira, os concertos começam no Capricho Setubalense pelas 22.30. Primeiro bate Tradição, duo de hip-hop experimental de Santo António dos Cavaleiros com rimas cruas e instrumentais ríspidos e sujos. Depois ouve-se o rap crioulo de Ne Jah. Por fim, às 00.30, há DJ Music, ou seja Leonardo Bindillati, metade de Iguanas e baterista de Putas Bêbadas, a passar música de dança das ruas, do baile funk ao footwork de Chicago.

A festa segue depois para o Beats Club e prolonga-se pela noite dentro, com um set do britânico Proc Fiskal no centro das atenções (vídeo acima). O produtor de grime instrumental e hiper-referencial lançou em Setembro o EP Shleekit Doss pela venerável Hyperdub, e estará ensanduichado entre DJ N.K., que inaugura a pista com a sua selecção de kuduro e batidas dos guetos da Grande Lisboa, e Luar Domatrix, ou Rudi Brito, que conhecemos há uns anos como metade dos hipnagógicos Yong Yong.

No sábado, as portas do Forte de Papel – “os antigos Armazéns Papéis do Sado, meio abandonados há vários anos” – abrem às três da tarde. É um espaço amplo onde estarão expostas obras de Alexandre Estrela, Elisa Azevedo, Miguel Soares, Pedro Tavares (do Coletivo Colinas) e Rudi Brito.

Os concertos começam às cinco, com uma performance colectiva de Maria Reis, Gabriel Ferrandini, Pedro Sousa, Luar Domatrix e André Cepeda. Segundo a organização, será uma extensão do trabalho que Ferrandini, Reis e Cepeda têm vindo a desenvolver em conjunto, e foi documentado em Live Performance, 2018, editado este ano pela Trás-Os-Montes Records.

“Eles podem fazer o que quiserem”, diz Pedro Tavares. “Isto é das cinco até às oito. Mas não é linear, os músicos e o artista visual começam e acabam quando entenderem. Demos-lhes total liberdade”. Luan completa: “É uma sessão de improviso que vai percorrer todo o espaço.”

A música volta a ouvir-se às dez da noite, pelas mãos de Malibu, produtora e compositora francesa de música etérea e vaporosa que acaba de editar o álbum One Life pela Joyful Noise. Segue-se Simão Simões, produtor português de electrónica da era digital, com música lançada pela Rotten \ Fresh. Por fim, à meia-noite, toca Panda Bear. O lisboeta adoptivo, partilhou há um mês o single “playing the long game” (vídeo acima), mas continua a apresentar Buoys, disco de uma pop oceânica e beatífica lançado no início do ano. Ouvi-lo é sempre um privilégio. E um prazer.

+ Os melhores concertos em Lisboa esta semana

Publicidade
Publicidade