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A história do bailarino homossexual perseguido pelo Estado Novo, para ver no São Jorge

Mário
D.R.

Mário é um espectáculo e texto de Fernando Heitor que fala sobre um bailarino homossexual perseguido pelo Estado Novo, levemente baseado na história de Valentim de Barros. É para ver a partir de quinta-feira, no Cinema São Jorge.

Fernando Heitor – actor, encenador e dramaturgo português com longa história ligada ao teatro e à televisão, tendo escrito, entre outros, muitos dos episódios de Conta-me Como Foi – conheceu a história de Valentim de Barros através do jornal Público. Falamos de um bailarino que foi perseguido durante o Estado Novo pela sua homossexualidade e por gostar de se travestir. Biografia que tem sido desvendada ao longo dos últimos anos quer pela comunicação social quer por investigadores e autores – e que serve de base para Mário, espectáculo que estreia esta quinta-feira no Cinema São Jorge e que conta com Flávio Gil na interpretação.

É um monólogo musical que parte do bailarino português, mas vai muito além dele. “A São José Lapa convidou-me para escrever um texto sobre o Valentim de Barros, que ela queria fazer. Respondi logo que não queria escrever sobre o Valentim de Barros, queria ficcionar, queria criar uma personagem a partir da sua história, onde mantenho que o final é ele ser internado num hospital psiquiátrico para se curar da homossexualidade. Entretanto a São José não teve dinheiro para fazer o espectáculo e eu fiquei com o texto. Depois disso conheci o Flávio, falei-lhe deste texto, ele gostou e decidimos fazer isto sem dinheiro”, explica Heitor.

Mas há mais: há também a ideia de andar pelo estrangeiro a dançar em diversos teatros, isso tanto fez Valentim como Mário. Pouco mais em comum, na verdade. Mário é, ao contrário de Valentim, pobre, ao ponto de fugir de casa dos pais na Cruz de Pau por ser maltratado e discriminado; vemo-lo passar por Cacilhas, essa zona de aprendizagem, onde começou a roubar e a fazer o que tinha que fazer para sobreviver.

Chegou, finalmente, a Lisboa, onde foi viver debaixo de uma carroça no Parque Mayer. Quando se dá o final da Primeira República é salvo por um padre, que se torna o seu líder espiritual, mas que no final vai abusar dele e ficar-lhe com os bens. Sim, sempre pareceu esta a história de Mário, dão-lhe com uma mão e tiram-lhe com outra: conheceu um general de quem se tornou escravo sexual, mas que quando morreu lhe deu um prédio de seis andares na Avenida da Liberdade; tanto estava a dançar e a beber, numa vida boémia e livre, como era arrastado para celas por polícias com quem já tinha estado sexualmente. Mário andou sempre neste limbo, sempre a perguntar que mal tinha feito ele para voltar da América do Sul – para onde tinha fugido com um amante – e ser imediatamente abordado pela PIDE. A ideia de Portugal como estagnação, uma casa que é nossa mas que está sempre na mesma, que não nos deixa ser: está lá isto tudo, num espectáculo que se aproxima do musical, mas que deixa respiração para teatro mais clássico, tudo isto suportado por um cenário básico, com um biombo e uma cadeira de hospital.

“Isto é ele a brincar, a relembrar a vida, um bocado como aquela ideia de a vida lhe passar à frente dos olhos, como se estivesse no hospital psiquiátrico a fazer um teatro da sua vida. Interessou-me mostrar o que era viver no século XX como homossexual, sobretudo isso”, conta Fernando Heitor. Precisamos de falar sobre Mário. Precisamos de falar sobre Valentim de Barros.

Cinema São Jorge. Qui-Dom 19.00. Sáb 22.00. 7,5-10€.

Texto e Encenação Fernando Heitor
Direcção Musical João Paulo Soares
Desenho de Luz José Álvaro Correia
Apoio Coreográfico Carlos Prado
Interpretação Flávio Gil

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