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Filatelia A. Molder
Fotografia: Manuel Manso

A histórica Filatelia A. Molder volta a ter uma galeria de arte já este mês

A Filatelia A. Molder vai voltar a ter uma galeria. Falámos com a artista plástica Adriana Molder, neta do fundador desta loja histórica de Lisboa.

Por Renata Lima Lobo
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O apelido Molder não é estranho a muitos portugueses (e não só). Conhecem-no os seguidores do fotógrafo Jorge Molder, da artista plástica Adriana Molder e os filatélicos de todo o mundo que entram na histórica Filatelia A. Molder, localizada no n.º 101 da Rua 1.º de Dezembro, em Lisboa (Rossio), desde 1943.

Fundada por August Molder, pai do conhecido fotógrafo Jorge Molder, a filatelia, que integra hoje o programa municipal Lojas com História, chegou a ter um espaço de galeria até aos anos 60, uma ideia que agora foi recuperada por Adriana Molder, que há bem pouco tempo montou um ateliê nessa mesma sala. Na antiga e agora nova Galeria da Casa A. Molder, é inaugurada a 19 de Novembro a primeira exposição em décadas, desenvolvida pelo actor e artista plástico Gustavo Sumpta especificamente para aquele espaço “perdido no tempo, cheio de interferências, de ruído, de memórias e também um pouco de decadência”, descreve Adriana Molder à Time Out. Gustavo Sumpta irá apresentar "Luto", o título da escultura efémera feita com fitas de VHS, um material hoje obsoleto.

galeria da filatelia a. molder
©Adriana MolderA galeria ainda vazia

Adriana viveu 13 anos em Berlim e a partir de uma certa altura decidiu “passar cá uns invernos”, usando este espaço como ateliê durante cinco anos. Regressou de vez a Portugal há dois anos e acabou por encontrar ateliê no Centro de Artes Plásticas dos Coruchéus, atribuído pela Câmara Municipal de Lisboa. “Este espaço ia ficar vazio e achei que gostava muito de manter a arte aqui e trazer a arte contemporânea. Não é um projecto que vai fazer uma série de exposições numa antiga loja de filatelia. Não. O projecto só existe enquanto a loja existir, e a loja está aberta”, explica. Além dos artistas, a galeria irá ainda promover a coexistência de públicos diferentes, da filatelia e das artes, e a curiosidade de ambas as partes.

selos da filatelia a. molder
Fotografia: Manuel MansoTambém há selos em exposição na Filatelia A. Molder

A primeira selecção de Adriana inclui sete artistas, “uma escolha de artista”, sublinha, uma vez que não é curadora. Além de Gustavo Sumpta – que estará presente no dia da inauguração e cuja exposição fica patente até 8 de Janeiro de 2021 –, foram convidados Ana Catarina Fragoso, Bárbara Fonte, Francisco Tropa, João Belga, Maria Condado e Rui Chafes, “porque achei que este espaço tinha a ver com a maneira como eles trabalham”, diz Adriana. “A escolha dos artistas também tem a ver com este espaço de reclusão. Quando estava no ateliê, estava no centro da cidade com barulho à volta, uma loja aberta e sentia-me completamente fora do mundo. Acho que todos os artistas que aceitaram fazer este projecto até agora sentiram um bocado isso. E com o facto de a loja existir, embora muitas pessoas nem a conheçam.” Para este ciclo de exposições ficaram ainda em aberto três vagas para outros artistas “que viessem ver as exposições, gostassem muito do espaço e me propusessem qualquer coisa, dos novos artistas queria que essa confiança viesse pelo entusiasmo”.

A Galeria da Casa A. Molder não tem qualquer intuito comercial e não existe qualquer tipo de comissão, pelo contrário. “Nesta altura em que os artistas estão a sofrer tanto, tem de haver algum incentivo, a divulgação raramente justifica o trabalhar-se de graça”, defende Adriana, que concorreu ao Programa de Apoio a Projectos – Criação e Edição da Direcção-Geral das Artes, de forma a conseguir dar algum retorno financeiro para os artistas que desafiou a ocupar a Molder. A resposta, diz, deveria ter chegado em Outubro, mas decidiu avançar na mesma. “Se não conseguir, vou procurar o apoio de mecenas que possam ter interesse por este projecto.”

entrada pra a filatelia a. molder
©Time OutO velhinho letreiro da Molder mostra-lhe o caminho

Nas rédeas da Filatelia A. Molder estão Luís Santos e a Carmina Correia, a funcionária mais antiga da loja. Começou a trabalhar aqui em 1947, o ano de nascimento de Jorge Molder. “São eles que têm mantido esta loja, a loja é deles. O meu pai é artista, estudou Filosofia, a loja é mesmo uma coisa deles. Eu espero que isto também seja uma maneira de lhes trazer alguma coisa”, espera. As exposições estarão abertas durante a parte da tarde no horário da loja, entre as 15.30 e as 19.00 dos dias úteis, e aos fins-de-semana e feriados pode visitar a galeria com marcação. Como bónus terá a própria Adriana Molder a acompanhá-lo na visita. E quem diz feriados, diz 25 de Dezembro e 1 de Janeiro: “Há muitas pessoas que passam o Natal não em família e odeiam o facto de estar tudo fechado. E a minha ideia é que, se alguém quiser vir, eu estou disponível na mesma.” Afinal, para Adriana este espaço que já foi seu, não é seu. “É da loja, é da cidade.” De resto, já conhece o procedimento: máscara, gel desinfectante e, neste caso, amor pela arte. E também por Lisboa.

Uma Molder no palacete
Na edição deste ano da Arte em São Bento, na residência oficial do primeiro-ministro no Palacete de São Bento, está em exposição a Coleção Figueiredo Ribeiro, que inclui um desenho de Adriana Molder. A exposição abre ao público no primeiro domingo de cada mês.

Galeria A. Molder. Rua 1º de Dezembro, 101. 3º andar. Seg-Sex 15.30-19.00, Sáb, Dom e feriados por marcação. Entrada livre. www.galeriadacasaamolder.com

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