Lojas históricas em Lisboa: velhas, mas boas

Lisboa sabe o que é o charme da terceira idade. Por isso mesmo fomos bater à porta de algumas das casas mais antigas da cidade. São as lojas históricas em Lisboa

© Artur Lourenço/CMLPríncipe Real Enxovais

São espaços centenários, com histórias para contar e muitos tesouros para descobrir. Conhecer a cidade é também conhecer as lojas históricas em Lisboa.

 

Lojas históricas em Lisboa: velhas, mas boas

Casa Xangai (1953)

Casa Xangai (1953)

A Casa Xangai anda na mesma família há várias gerações. Três, para sermos precisos. O que coincide com outras tantas gerações de clientes. Se entrar neste paraíso de roupas para bebé e criança, é provável que trave conhecimento com Rita Mega, filha do actual gerente, Manoel Mega, que à pergunta “quantos anos tem de casa”, nos responde com naturalidade: “estou aqui desde os seis anos”. Ninguém melhor do que ela, então, para lhe fazer um tour pelos artigos da casa, caso nunca aqui tenha entrado. Os enxovais para bebés, os vestidos para baptizados ou as roupas de cerimónia para crianças são capazes de derreter corações de pedra. E são os artigos mais vendidos, a par dos lenços de assoar e da roupa interior para senhora. Mas se não estiver a precisar de nada disto, entre para outras compras: aqui também há conjuntos de mesa com bordados de Viana ou da Madeira. A loja está localizada num dos edifícios das Avenidas Novas que sobreviveram à razia arquitectónica das décadas de 70 e 80, projectado pelo arquitecto Norte Júnior – vencedor de quatro Prémios Valmor, o primeiro deles pela moradia do pintor José Malhoa, a actual Casa-Museu Dr. Anastácio Gonçalves.

Avenida da República, 19. 21 354 0857. Seg-Sex 09.00-18.00, Sáb 09.00-13.00

Conserveira de Lisboa (1930)

Conserveira de Lisboa (1930)

Atire-se à variedade conserveira desta loja que vive na Rua dos Bacalhoeiros há anos e está, ela própria, muito bem conservada (a piada impunha-se). As prateleiras de madeira forradas a coloridas latas de conservas convidam à compra das marcas exclusivas da casa, a Tricana, a Prata do Mar e a Minor, e há um banco de madeira que promove o convívio entre clientes e moradores. Tiago Ferreira, neto do fundador, trabalha aqui desde “muito miúdo” conta, altura em que ajudava o avô e o pai na loja, durante  dias nas férias de Verão. “Parece exploração infantil”, confidencia entre risadas. A experiência preparou-o para oficialmente assumir o negócio a tempo inteiro há cerca de cinco anos. Na Conserveira de Lisboa vendem-se as latas a clientes, a grossistas escolhidos a dedo e a negócios mais pequenos, como mercearias e outras lojas, que permitem manter a qualidade dos produtos. Nos anos , fizeram uma experiência de redesign que não correu bem, por alguns clientes acharem que não era o mesmo produto – “o design passou para a boca”, explica Tiago, adiantando que hoje o redesign mantém a identidade do passado, com uma imagem inspirada nas décadas antigas. E como estamos de senhorios? “O senhorio está em processo de venda do prédio, não sei o que vai acontecer daqui para a frente. Muitas das lojas seriam sustentáveis se tivessem rendas mais ajustadas à realidade.”

Rua dos Bacalhoeiros, 34. 21 886 4009. Seg-Sáb 09.00-19.00

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Caza das Vellas (1789)

Caza das Vellas (1789)

Esta oficina é tão velhinha, tão velhinha que o nome sobreviveu a quase todos os acordos ortográficos. Anterior à chegada da electricidade a Lisboa, vai na sexta geração de família Sá Pereira. O alvará para a sua abertura exigia que a loja tivesse duas tochas acesas à noite para iluminar a rua, numa altura em que a cidade era bem mais escura quando o sol se punha. Nesses tempos, as velas eram de sebo, o que emanava um cheiro pouco simpático. De França, o fundador Domingos Sá Pereira trouxe a técnica de fabricar velas com cera de abelha, ainda hoje o ex-líbris da casa, perdão, caza. Há velas para todos os gostos e orçamentos, mas nem só de cera vive o negócio. Aqui ainda se fazem pavios para lamparinas de azeite (1,80€ a caixa). “Usamos o que é do passado para o que é o presente e o futuro”, defende Maria Sá Pereira, a mulher à frente do negócio, que embora tenha uma boa relação com o senhorio não poupa as críticas à actual situação do mercado. “O problema é que existe má fé. A instabilidade causada pela lei não foi devidamente acautelada”, desabafa referindo-se à Lei do Arrendamento aprovada na anterior legislatura.

Rua do Loreto, 53-55. 21 342 5387. Seg-Sex 09.00-19.00, Sáb 09.00-13.00

Barbearia Campos (1886)

Barbearia Campos (1886)

O último Verão ficou marcado por uma alegre notícia. A barbearia mais emblemática de Lisboa reabriu portas no Chiado e toda recauchutada. Obras que, primeiro, espreitaram em tom de ameaça. Os novos senhorios queriam transformar a Barbearia Campos num lobby para os apartamentos turísticos novinhos em folha. Felizmente, a Câmara meteu-se ao barulho e tudo acabou da melhor forma. Além de continuar a funcionar, a casa recuperou o brilho de outros tempos. Tempos em que cada cavalheiro tinha os seus próprios utensílios de barbear, em que se atendia realeza de toda a parte e intelectuais de excepção, como Fernando Pessoa e Ramalho Ortigão. A bancada de mármore até reluz de outra maneira, ao lado de verdadeiras peças de museu. Nas paredes, há vestígios do tempo em que tudo funcionava a gás, mas também um quadro de memórias. É lá que encontramos a apólice de seguros de 1886 e, na falta de certezas sobre o ano de fundação da casa, prevalece o documento mais antigo. A clientela, essa, é de todas as idades. Do freguês de há décadas aos rapazolas, portugueses ou camones, tudo vem aqui parar. Percebe-se, com o corte simples a 14,50€. Apesar do charme de outros tempos, há barbeiros para todos os gostos e modas.

Largo do Chiado, 4. 21 342 8476. Seg-Sáb 10.00-19.00

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Paris em Lisboa (1888)

Paris em Lisboa (1888)

Podemos dizer que esta loja está para o Chiado como as pirâmides estão para o Egipto. A Paris em Lisboa é o reduto de um Chiado que já não existe, viveu ainda na era de sua majestade, assistiu às duas grandes guerras e à revolução, viu o fogo ao fundo da rua e foi-se moldando à passagem do tempo. No início, era loja e confecção, recheada das mais luxuosas importações parisienses, tinha 60 costureiras, uma modista francesa e uma freguesia que abarcava toda a nobreza da época, incluindo a própria rainha D. Amélia. A cidade e o país levaram uma reviravolta e a Paris em Lisboa especializou-se no tecido a metro até ao final dos anos 70, altura em que a chamada secção dos brancos passou para a linha da frente. Os lençóis e as toalhas mantêm-se até hoje. “Não podemos deixar que estas lojas se mantenham como museus”, afirma José Carlos Sousa Gomes, proprietário da casa que já vai na quarta geração. Ao mesmo tempo, atesta a boa saúde do negócio. Os turistas são quem mais vibra da porta para dentro (afinal, todo o mobiliário da loja continua a ser o original), se bem que os lisboetas fiéis à casa continuam a aparecer. Ao balcão, quase todos são tratados pelo nome.

Rua Garrett, 77. 21 342 4329. Seg-Sáb 10.00-19.00

Latoaria Maciel (1810)

Latoaria Maciel (1810)

Sabe o que se faz numa latoaria? Entre nesta e saia com a lição toda estudada. História não lhe falta. Há dois anos, fechavam-se as portas da famosa Casa Maciel na Rua da Misericórdia. Margarida Gamito, da sétima geração de proprietários, tinha dois caminhos: conformar-se com o fim de mais de dois séculos de história ou dar novo fôlego à casa que o pai lhe tinha confiado. Prevaleceu a segunda opção, claro. Até porque, não havia como resistir a ser a primeira mulher à frente do negócio. Um ano e meio depois e com um empurrãozinho de Catarina Portas, a Maciel reabriu portas no Cais do Sodré e recuperou o nome original. O espaço é camarário e incomparavelmente mais pequeno (o anterior ocupava o piso térreo de dois prédios), por isso, muita coisa ficou de fora. Registos de antigas encomendas e doações (entre elas, taças de comida para os animais do Jardim Zoológico), lanternas quase tão antigas como a própria loja e moldes que nunca mais acabam. Hoje, Margarida e Rui, o marido, contam apenas com a ajuda do mestre Rufino, de 84 anos, se bem que formar novos latoeiros é prática que querem retomar. Talvez no novo espaço. Sim, porque daqui a um ano, tudo indica que a Latoaria Maciel vai estar instalada no Mercado do Bairro Alto, num projecto para juntar vários ofícios lisboetas.

Rua da Boavista, 6. 93 694 7825. Seg-Sex 10.00-19.00, Sáb 10.00-13.00

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Filatelia A. Molder (1939)

Filatelia A. Molder (1939)

O selo está longe de ser um bem de primeira necessidade, mas esta loja, além de histórica, está na primeira fila das que tem de conhecer. Fundada por Augusto Molder, pai do conhecido fotógrafo Jorge Molder, deve hoje as portas abertas à paixão de Luís Santos e de Cármina Correia pelos quadradinhos de papel. Ele, colaborador há mais de 40 anos. Ela, recordista de anos de casa, há 69 atrás deste balcão. Inevitavelmente, a vida de Cármina confunde-se com a da própria Filatelia A. Molder. Aqui foi cortejada pelo marido, enviuvou e participou na última edição do Teatro das Compras. E aqui continua, mesmo depois da reforma. O ritmo a que a clientela entra já não é o de antigamente. Num dia bom, podem chegar a uma dúzia. Em dias menos convidativos, não passam dos três. Mas a casa também se ajustou ao ritmo dos novos tempos. Deixou de ter moedas e obras de arte, como no início, foi dispensando os mais de 20 empregados e desistiu de acompanhar as grandes edições internacionais. Vão chegando as novidades dos CTT, fora o espólio de milhões de selos distribuído por várias salas. Para Cármina, que conhece cada classificador (álbum de selos) de cor, só há uma certeza para o futuro: a loja ainda vai virar museu.

R 1º de Dezembro, 101, 3º. 21 342 1514. Seg-Sex 10.00-13.00/ 15.00-19.00

Drogaria Oriental (1893)

Drogaria Oriental (1893)

Quem diria que a loja que vende as famosas toucas às flores já tem 124 anos? Nada mal. Ao contrário dos velhos negócios familiares que passam de pais para filhos, entre os três proprietários que a Drogaria Oriental já teve, não há qualquer parentesco. Nas prateleiras mantêm-se as especialidades da casa e não há grande superfície que lhes faça sombra. São escovas de fios de seda, sabonetes Ach. Brito, cremes Benamôr, perfumaria avulsa (ainda com os frascos antigos) e, claro, as toucas que um dia Cristina Ferreira descobriu e que, depois disso, começaram a sair que nem pão quente para todos os pontos do país. O balcão é o original e atrás dele, Teresa Fernandes, na casa há 25 anos, faz as vezes do patrão, a quem a saúde não tem estado a ajudar. Se, por um lado, ter um projecto de um hotel a bater-lhes à porta é a modos que inevitável, por outro, tudo continua pacato no número 238 da Rua dos Fanqueiros, embora o prédio pombalino não esteja lá muito católico. Por cima, o primeiro andar está vazio. O resto continua ocupado com escritórios e habitações.

Rua dos Fanqueiros, 238. 21 887 3869. Seg-Sex 09.00-19.00, Sáb 09.00-13.00

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Pequeno Jardim (1922)

Pequeno Jardim (1922)

De vão de escada, esta loja só tem mesmo a condição física. O jardim pode ser pequeno, mas as flores nunca acabam e nisto já Vasco Santana reparava. O actor não era o único artista a entrar no Pequeno Jardim quase todos os dias. Artur Semedo, Beatriz Costa e Lucien Donnat também não passavam sem ela.

Rua Garrett, 61. 21 342 2426. Seg-Sex 09.00-20.00, Sáb 10.00-20.00, Dom 10.00-18.00

Ourivesaria Sarmento (1870)

Ourivesaria Sarmento (1870)

Seis gerações, duas remodelações, uma delas projectada por Cassiano Branco, e muitos diamantes pelo caminho. Esta ourivesaria tem história que não acaba, a par de peças e serviços que já são raros nos dias que correm. Há sempre um avaliador na loja e uma notável colecção de móveis-faqueiro.

Rua do Ouro, 251. 21 342 6774. Seg-Sex 10.00-19.00, Sáb 10.00-13.30

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