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A Madragoa ganhou uma livraria, galeria e café onde o desenho é rei

Tinta nos Nervos
Fotografia: Duarte Drago

“Ler é para toda a gente e ver bonecos também”. A premissa é da Tinta nos Nervos e é Ana Ruivo, uma das responsáveis pelo projecto, quem lhe dá voz. É um espaço três em um, daqueles que não são só aquilo que parecem: de um lado galeria, do outro livraria e ao fundo café. Abriu na Madragoa e é o primeiro sítio do género dedicado ao desenho em todas as suas vertentes.

“Podíamos ter feito só uma galeria, ou só uma livraria, mas sentimos que estava a faltar um espaço em que as artes se combinassem e especialmente onde não houvesse fronteiras teóricas muito vincadas”, explica Ana. “Isto é um espaço sobretudo dedicado ao desenho, o desenho como gesto criativo – quer como elemento de recepção e muito relacionado com o objecto livro. Ainda que não seja necessário, porque o desenho vive autonomamente de uma narrativa”.

Aqui é fácil tropeçar num desenho, é, aliás, esse o objectivo: mostrar que enquanto expressão artística ele está presente no nosso dia-a-dia, sem sequer darmos conta. “Queremos incentivar o olhar a prender-se nos objectos que nos circundam e a estarmos atentos a objectos do quotidiano que acabam por ser uma obra de arte sem repararmos nela”, explica.

Na livraria há edições portuguesas e estrangeiras, várias prateleiras com banda desenhada – “ainda que não seja numa vertente tão comercial”, admite Ana –, livros dedicados às artes gráficas e visuais, ilustração, e uma secção de manga. A dourar as prateleiras estão autores como Philipe Guston, Lorenzo Mattotti, Robert Crumb, Charles Burns, Bruno Munari, Hector de la Valle, Maria João Worm, Dinis Connefrey, Filipe Abranches, André Ruivo ou Ema Gaspar.

Duarte Drago

A par das páginas e lombadas, há cartazes e posters para decorar as paredes lá de casa, da Oficina Arara, Oficina do Cego ou d’O Homem do Saco , e todo um universo de objectos que potenciam a temática do projecto: chocolates da marca Le chocolat des Français, cujas embalagens são feitas por ilustradores; ou as tatuagens temporárias Tattly, também elas criadas por ilustradores. 

No lado da galeria, a exposição inaugural “Fio da Navalha” é colectiva e tem o cunho das criações de fanzine de Ema Gaspar, os monstros de plasticina de José Cardoso, a banda desenhada de Pedro Proença – que lançou também um livro em exclusivo para a Tinta nos Nervos – e o artista internacional William Kentridge, que cedeu vídeo-instalações. Tudo para ver até 30 de Agosto. Para se manter a par do que vai acontecendo ali, há um jornal de artes que é lançado sempre que há novidades na ala expositiva.

Duarte Drago

O espaço que tinha como destino ser mais um Airbnb de um bairro cada vez mais gentrificado, acabou nas mãos de um grupo de pessoas ligadas às artes e ao mercado livreiro. “O bairro cresceu muito desde que começámos as obras aqui, e queremos manter aquela vida de bairro que ainda se sente, mesmo que seja com novos negócios que vieram revitalizar certas zonas de Lisboa”, afirma Ana, a porta-voz da uma grupeta.

A Tinta nos Nervos é amassada a várias mãos, uma receita vencedora para que o espaço pudesse estender os seus tentáculos a tantas áreas dentro da sua bandeira maior que é o desenho. Ana Ruivo, com formação em História de Arte, juntou-se a Pedro Vieira Moura, académico na área da banda desenhada, professor na Ar.Co e membro da Oficina do Cego, e a Frederico Duarte, livreiro e dono da Nouvelle Librarie Française. Pelo caminho juntaram-se outras forças de trabalho que deram alento à Tinta nos Nervos: Anabela Almeida, braço direito de Frederico na livraria, Luís Azeredo, responsável pelas tecnologias e produção, e Vanessa Alfaro, que fazia produção na Casa das Histórias de Paula Rego e aqui trata do mercado e das encomendas.

“Somos muitos e o que se podia tornar numa confusão, acaba por ser benéfico em todos os sentidos. Toda a gente aqui dentro tem a sua área de trabalho e a força do projecto nasce dessa convulsão de interesses de áreas todas diferentes”, explica.

Duarte Drago

O espaço ao fundo da Tinta nos Nervos é por onde entram os raios de luz natural, vindos das vidraças que separam o café da pequena esplanada interior. Este é um espaço para se sentar a ler com a calma que a cidade não permite, com café vindo directamente dos vizinhos Flor da Selva, com quem até já andam a magicar uns rótulos em parceria com ilustradores da casa. E ainda há uns petiscos com pão da Gleba.

Será na área do café que a Tinta nos Nervos vai albergar uma programação vitaminada de palestras, conversas e workshops – da gravura à aguarela –, isto para não falar da projecção de filmes já pensada para a grande parede branca na esplanada. “Queremos que isto seja um espaço para estar e esta sala multiusos tornou-se apetecível porque é mega sossegada e a programação vai ao encontro do que é o nosso ADN”, confessa Ana.

Rua da Esperança, 39 (Madragoa). 

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