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Televisão, Séries,  Acção, Drama, Superman & Lois (2021)
©DRSuperman & Lois

A paternidade é o maior desafio do Super-Homem na nova série da DC

‘Superman & Lois’, a estrear-se no TVCine Action, é uma série de super-heróis e um drama familiar. Vimos o piloto e ficámos a fazer contas a hipotecas inversas.

Por
Hugo Torres
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O Super-Homem é uma seca. A frase pode vir com ou sem aspas. Mesmo que não o tenha dito em voz alta, a maioria de nós já pensou assim uma ou outra vez. Um ser indestrutível de bondade inabalável? Bah!... Nos anos 1970, no pico da popularidade deste protagonista central da DC Comics, criado por Jerry Siegel e Joe Shuster, qualquer fã de comics levaria imediatamente as mãos à cabeça mal intuísse o rumo de tão destrambelhada declaração. Vamos lá ver: este é o super-herói que, perante a morte da sua amada, consegue inverter a rotação da Terra e assim fazer o tempo voltar para trás, devolvendo Lois Lane à vida (eterna saudade, Christopher Reeve; olha bem para isto, Wanda Maximoff). Por outro lado, esse é exactamente o tipo de solução que exasperaria um espectador contemporâneo. “O quê?! Que absurdo de viagem no tempo é essa?” Certo. O Super-Homem não envelheceu tão bem quanto gostaríamos, nem é fácil a produtores e argumentistas desencantar um ângulo novo para uma personagem cujos superpoderes só são postos em causa por uma – uma só – substância raríssima (kryptonite). É raríssima, mas está sempre a aparecer? Não. Por isso é que é tão sedutora a ideia de nos centrarmos nos desafios humanos deste extraterrestre.

A estrear-se esta quarta-feira, às 22.10, no TVCine Action, Superman & Lois opta por esse caminho. “O Super-Homem é uma seca”, com aspas, é uma frase do primeiro episódio e é proferida pelo filho adolescente de Clark Kent (Tyler Hoechlin) e Lois Lane (Elizabeth Tulloch), enquanto desanca no invectivado super-herói num videojogo. Aliás, por um dos dois filhos do casal, um par de gémeos que dificilmente poderiam ser mais diferentes: Jonathan (Jordan Elsass), um desportista de bom coração, feliz e sociável; e Jordan (Alex Garfin), um inadaptado que se sente desconfortável na própria pele e que, padecendo de um grave transtorno de ansiedade, se isola do mundo. O desprezo pelo super-herói é deste último, que não sabe que o pai é o Super-Homem. Nenhum dos dois sabe, mas Jordan é quem mais sofre com as constantes e misteriosas ausências de Clark, que apesar de tudo não tem o superpoder da ubiquidade: ou está a salvar a humanidade, ou está presente nas sessões de terapia do filho. Clark equilibra com grande dificuldade a vida familiar e a vida profissional (enquanto super-herói e também como jornalista do The Daily Planet), uma gestão com que os adultos, que são há muito o público-alvo das adaptações destes comics ao cinema e à televisão, se conseguem identificar sem esforço. Mesmo com a função mais relevante do planeta, o Super-Homem passa pelas exactas aflições que qualquer outro pai.

Superman & Lois surge na senda de outras séries que, ao longo de 30 anos, têm explorado a história de Clark Kent para lá das proezas de semideus. Primeiro em Superboy (1988-1992), mostrando-o como um estudante de jornalismo no início da vida adulta; depois, em Lois & Clark: As Novas Aventuras do Super-Homem (1993-1997), uma produção com menos acção e mais focada no romance entre os dois pombinhos (que Lois achava serem três, a marota); e por fim Smallville (2001-2011), sobre um jovem a tentar manter um segredo extraordinário numa pequena cidade da América rural. Nesta nova incursão, Clark já deixou Smallville, já estudou o que tinha a estudar, já conquistou Lois, já casou, já teve filhos, e até já está na lista de despedimentos de um The Daily Planet em reestruturação. É um tipo de meia idade – que é obrigado a voltar a Smallville devido a uma daquelas tragédias que os tipos de meia idade vivem, levando com ele a família. Incluindo uma serena Lois Lane, claro, apresentada como “a jornalista mais famosa do mundo” (uma daquelas coisas que os americanos gostam de dizer, apesar de serem perfeitamente desprovidas de sentido). E aqui residem os alvos das principais críticas que têm sido feitas à série, que nos EUA vai no quinto episódio: apesar de o título sugerir que está em pé de igualdade com Clark, o protagonismo de Lois é subalterno; acresce que a decisão de deixar Metropolis não gera o mais residual atrito doméstico, o que é peculiar para um drama familiar.

Os criadores Greg Berlanti e Todd Helbing alinhavaram 15 episódios para esta primeira temporada. É muito, embora talvez não seja suficiente para tudo o que pretendem tratar – o que pode ajudar a explicar as debilidades descritas acima. Superman & Lois trata da família, do crescimento, das concessões, de doenças como a ansiedade e a depressão, do suicídio, da morte de entes queridos, do declínio da América rural, do êxodo para as grandes cidades e do sentimento de abandono de quem fica, dos reencontros (com Lana Lang, o interesse romântico de Clark na adolescência, aqui corporizada por Emmanuelle Chriqui), do desespero que leva gente comum a produzir metanfetaminas para ter o que comer, da polarização política, dos milionários com práticas predatórias, de hipotecas inversas, da crise da imprensa e, inevitavelmente, da urgência de salvar o mundo – no caso, o Super-Homem vê-se a braços com um obstinado antagonista (Wolé Parks) que o atrai provocando acidentes em centrais nucleares. As cenas de voo na estratosfera e de exibição de superforça (lá vai um glaciar pelo ar) não poderiam faltar a uma série sobre o Homem de Aço, com espectacularidade q.b. – e não faltam. Sendo possível que Clark não seja o único com superpoderes na família, visto que um dos filhos começa a experimentar uns episódios pouco... contidos. Não basta? Há mais: Superman & Lois está integrado no “Arrowverse” da estação americana The CW, que inclui séries como The Flash, Batwoman, Lendas do Futuro ou Supergirl, na qual Tyler Hoechlin e Elizabeth Tulloch se estrearam como Clark Kent e Lois Lane. E não é de estranhar que as histórias se cruzem.

TVCine Action. Qua 22.10 (Estreia T1)

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