Global icon-chevron-right Portugal icon-chevron-right Lisboa icon-chevron-right ‘A vida vai engolir-vos’ nesta maratona teatral entre o D. Maria II e o São Luiz
Tónan Quito
Fotografia: Filipe Ferreira Tónan Quito em A vida vai engolir-vos

‘A vida vai engolir-vos’ nesta maratona teatral entre o D. Maria II e o São Luiz

A rentrée do D. Maria II e do São Luiz faz-se com um espectáculo monumental, montado a partir de quatro peças de Anton Tchékhov. O encenador Tónan Quito levanta a cortina.

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Como será a humanidade no futuro? Esta questão, que em tempos de incerteza parece perseguir-nos, foi uma tormenta para Anton Tchékhov a vida toda. Além de escritor e dramaturgo, era também médico, pelo que o vulto da morte esteve sempre muito presente. No meio profissional, mas também familiar: o irmão Nikolay morreu de tuberculose, e ele próprio, que viveu a doença desde cedo, padeceu do mesmo mal. Apesar dessa sensação iminente de um futuro que poderia ficar por cumprir, Tchékhov nunca parou de pensar nele. Mais: de o questionar, de o escrever. Perseguiu-o como se não tivesse alternativa. Agora, o encenador Tónan Quito persegue-o de volta, ao futuro e a Tchékhov. Adaptado e montado a partir de quatro das mais importantes peças do autor russo – A Gaivota, O Tio Vânia, Três Irmãs e O Ginjal –, o espectáculo A vida vai engolir-vos marca a rentrée em dois actos, de quatro horas cada, no São Luiz Teatro Municipal e no Teatro Nacional D. Maria II, onde ficará em cena de 1 a 12 de Setembro.

No palco, não interessa qual (se não fosse um palco, poderia ser uma estepe, não faria diferença e Tchékhov provavelmente aprovaria a estepe), dissecam-se experiências humanas, o amor e as relações familiares, mas sobretudo os confrontos – do eu com o eu, do eu com os outros, do eu com o mundo. As personagens, insatisfeitas e impotentes, sempre a projectar o amanhã, o que há-de vir, o que gostavam que fosse, revelam-se incapazes de resolver o passado e de lidar com o presente, deixando-se engolir pela vida, que de repente é uma vidinha. Ou, pior, não é nada. Num “click, clack, bum” do revólver, três segundos, e já se foi. Os revólveres parecem ser uma constante, o encenador confirma. Às vezes, os pensamentos, os que moem, são também um revólver. Como os do professor, que se vê confinado a um estilo de vida que repudia, longe dos seus colegas letrados e ilustres, ou os do tio Vanya, que não sabe gerir a depressão e se permite colapsar.

“Tudo é tensão e conflito e uma das tensões claras é entre a casa e o jardim. Todas estas peças se passam numa propriedade rural, algures no campo, e há muitas cenas em que as personagens estão à janela, sempre a falar do que está lá fora”, revela Tónan, de máscara no rosto, depois de um ensaio relâmpago. “Quando estávamos a pensar nas duas cenografias, entrámos em pandemia. Portanto ficámos todos fechados, sempre a fazer reuniões por Zoom, a partir de diferentes casas, e achámos que fazia sentido termos um primeiro espaço interior, com muitas cadeiras e muitas mesas, e um segundo onde o exterior toma conta da casa, um bocadinho como durante o confinamento, em que olhávamos pela janela e víamos tudo a crescer, porque ninguém cortava as ervas. Nós estávamos em suspenso, mas a natureza continuava”, recorda.

Se a sensação de suspense – “o tédio”, reforça –, uma reclusão imposta pelo próprio indivíduo, que assiste impávido ao que o rodeia, é temática nuclear em todas as histórias, cruzadas por entre “os rios subterrâneos que estas personagens têm”; fazer nada é o modus operandi. Dúvidas houvesse e bastaria lembrar como ninguém tenta salvar o ginjal. Ou como, depois da morte do pai, tudo parece empurrar as três irmãs para fora da casa de família, mas elas, como se uma mão invisível as impedisse, nunca partem para Moscovo, um desejo tantas vezes suspirado. “Depois da fase das apresentações, começamos a sentir o agudizar e o problematizar das grandes questões de Tchékhov”, descreve Tónan. “Às tantas já não é importante quem faz o quê, quem é o quê: torna-se tudo um bolo, uma amálgama de ideias. É um puzzle muito complexo.” E intenso.

Caso já se tenha esquecido, são dois actos de quatro horas cada. A conta é fácil de fazer. Pode vê-los separadamente, mas, para os mais corajosos, é assistir a tudo de uma assentada. Nos dias 5 e 12 de Setembro, a proposta é exactamente essa: começar a ver o espectáculo às 19.00, no São Luiz, e terminar às 06.00 do dia seguinte, no D. Maria II. Jantar e pequeno-almoço incluído. “O terceiro acto é mesmo uma noite muito, muito agitada. Fazia todo o sentido terminar de madrugada”, diz. Mas afinal – recusamo-nos a ficar sem resposta – por que é que a vida nos vais engolir? “É [um título] ambíguo o suficiente. É como se a vida fosse grande demais, ou então não. Se calhar sou eu que a controlo”, provoca. “A morte é muito iminente. Está sempre ali à mão. Mas põe-nos num estado muito alerta. Estamos sempre à espera do ‘quando é que isto se vai resolver’.” Não sabemos, mas, hoje, esperamos que seja em breve.

Parte I, Teatro São Luiz: 1, 3, 8 e 10 de Setembro, Ter e Qui ds 19.00 às 00.00. Parte II, Teatro Nacional D. Maria II: 2, 4, 9 e 11 de Setembro, Qua e Sex das 19.00 às 00.00. Maratona: 5 e 12 de Setembro, Sáb 19.00-00.00 (Teatro São Luiz – parte I) e Dom 01.00-06.00 (Teatro Nacional D. Maria II – parte II). 15-25€.

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