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Agora já não quero: “Passevite” é a história de um espectáculo morto

Por Miguel Branco
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Não é amuo, é dedo do meio, é o tempo que nos muda. Passevite, a nova criação da Plataforma285, que se estreia quinta-feira na Appleton – Associação Cultural, é um espectáculo sobre outro que não chegou a ser.

Há uma cadeira inutilizável, demasiado alta, onde ninguém se consegue sentar. Há legendagem de um espectáculo que não chegou a existir. Há uma festa para a qual não temos guest. Há uma piscina para miúdos onde não cabe todo o elenco. É tudo assim: fora de tempo, de lugar.

Passevite – o novo espectáculo da Plataforma285, estrutura criada em 2011 por Cecília Henriques e Raimundo Cosme – não é daqui, não pertence à Box da galeria Appleton – Associação Cultural, e ainda assim vai lá estar de quinta-feira a domingo.

E se a coisa não bate certo, se há cenas displicentes e erradas e que não funcionam no espaço, não é por acaso. Em 2016, depois de apresentarem Loveable na Culturgest, pensaram num espectáculo que se chamaria Happy Ending e que seria uma festa da espuma. Fecharam-se em casa a concluir várias co-produções, várias possibilidades de espaço para levar a ideia à cena. Quando algumas delas não se concretizaram, a angústia começou a instalar-se e os elementos da Plataforma285 deram por si a considerar fazer um espectáculo que falasse sobre esse sentimento, e sobre o dinheiro que já não existia. “Pensámos em fazer uma versão reduzida, em vez de fazermos uma festa da espuma devíamos fazer um banho de espuma, visto que isto encolheu”, recorda Raimundo Cosme. Mas mesmo esse, pelos meses que foram passando, pelo efeito que esse arrastamento tem nas pessoas, foi perdendo gás. Chamava-se Glorius Holy Bath e foi vítima das férias: “Fui de férias. Quando voltei, íamos começar este projecto e eu já não o queria fazer, já tinha passado imenso tempo, já não havia propósito, já não me apetecia, e comecei a pensar sobre isso: entre o momento em que tens a ideia e o momento em que arranjas forma de o fazer, há um delay gigante. Quando chegas ao momento de concretizar, não queres, já tens outros propósitos, és outra pessoa”, diz Raimundo.

Ele que em Passevite, além de partilhar palco com a companheira de sempre, Cecília Henriques, convocou também Vaiapraia, um dos músicos mais interessantes do panorama musical português. O título do espectáculo é bastante perceptível depois de percebermos que esta criação podiam ter sido outras duas, que é um redux cómico e desconectado, que triturou tanto do que podia ter sido. O electrodoméstico tantas vezes necessário virou o conceito certo. E a ideia do atraso, do timing falhado: “Este é um espectáculo sobre o propósito que desaparece no momento em que, finalmente, tens oportunidade. Fazer um espectáculo em cima de um espectáculo morto. Do espectáculo antigo ficou a memória, a equipa e pouco mais; este espectáculo tem um cenário que não lhe pertence. O novo espectáculo é sobre o risco, sobre isto não funcionar, cenas que precisavam de um palco”, sublinha Raimundo Cosme. Cecília Henriques acrescenta: “É sobre coragem, resiliência, manter o interesse”.

E isso é bastante importante. Manter o interesse. Isto é, aqueles momentos em que se testam os limites do público, em que se levam certas cenas a um nível que não sabemos se é incrível ou se é exagerado. A Plataforma285 joga nesse sítio. Mas sempre jogou.

Não é de agora. Aqui só falam mais directamente da violência desta profissão, de ter que parar de fazer figurinos para responder a dois e-mails, de ter que abandonar o ensaio para ir a uma reunião que provavelmente não vai dar em nada, sobre se ter que falar de certos assuntos se se quer chegar a certos espaços e programadores: “Não queremos fechar este espectáculo em nós. Isto é sobre uma geração inteira, sobre um tipo de trabalho, e como não está organizado no sentido do risco, quem tenta correr o risco tem que o correr de forma controlada. Se não vais atrás das coisas que são faladas já estás a correr um risco. Se aquilo que tentas fazer é uma coisa tua e estás à procura da tua concepção, isso acarreta um risco, mas isso é arte, nós também não fazemos operações, ninguém morre. Percebes?”, pergunta Raimundo.

Então não percebemos. A festa não é para todos. Nem sequer a espuma.

Appleton – Associação Cultural. Qui-Sáb 21.30. Dom 17.30. 5-7,5€.

Direcção artística, interpretação e texto Cecília Henriques e Raimundo Cosme
Co-criação, sonoplastia, texto e interpretação Vaiapraia
Espaço Cénico e co-criação Bruno José Silva
Figurinos Marta Passadeiras

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