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Amor negro em doses curtas e servidas por um coro de assassinos

Curtas de Papel, Osso e Fel
José Caldeira

Curtas de Papel, Osso e Fel é a mais recente criação d’A Tarumba, que se estreia esta quarta-feira no Teatro do Bairro. Papel e baladas românticas que acabam em sangue. Antes assim.

A morfina tem as suas questões. Que o digam Luís Vieira e Rute Ribeiro, dupla de artistas que há 25 anos fundou A Tarumba, estrutura por detrás do FIMFA (Festival Internacional de Marionetas e Formas Animadas). Em 1998 descobriram uma canção dos Morphine chamada “Virgin Bride”, que narra a triste história de um casal que se apaixona no Verão, e que logo decide casar, porque a mulher queria esperar para casar para se iniciar nas relações sexuais com o homem. Quando o decidem fazer, logo após o casamento, ele morre porque bate alarvemente com a cabeça no secador. Esta é uma das Curtas de Papel, Osso e Fel, que se estreia esta quarta-feira no Teatro do Bairro.

Embalados pela banda norte-americana e por esta ideia de história de amor aparentemente romântica que acaba em sangue, a Tarumba foi atrás de outras narrativas deste género. Embateram nas ilustrações de Edward Gorey, no surrealismo poético e macabro de Mário Henrique Leiria e nos Crimes Exemplares, de Max Aub. A isto – porque sempre assim foi, sempre tiveram na música uma das suas grandes fontes primárias e inspirações – juntaram o conceito de murder ballads, muito exploradas por gente como Johnny Cash, Elvis Presley ou ainda Nick Cave, que tem um disco com esse nome. Depois do embate, já não havia volta a dar, sabiam que o espectáculo ia ser isto: “Um belo exemplo é grande hit 'Delilah', do Tom Jones. Ninguém pensa no que ele está a contar, que, no fundo, é um tipo que está apaixonado por uma mulher, ela engana-o, e ele fica à espera para os apanhar em casa. Quando abre a porta ela ri-se, e ele depois diz ‘agarrei na faca e não te riste mais’. E isto é das músicas mais tocadas em casamentos na Escócia e nos jogos de râguebi, algo que achamos genial. No fundo, a partir desse contra-senso brincar um bocado com este humor negro, sem qualquer tipo de moral, claro”, conta Rute Ribeiro.

Tudo isto enquadrado na sua linguagem, claro. Praticamente todos os objectos que manipulam são feitos de papel, cartão e PVC, “é por isso que são curtas de papel, mas vão até ao osso e fel, porque algumas das histórias são intensas, amor-ódio no fio da navalha”, enquadra Luís Vieira. Mas há mais, até porque teatro será sempre teatro e isso, muitas vezes, requer essa tradição grega do coro. Aqui, o coro foi feito com ajuda de Pierre Imans, um artista francês que nos anos 40 e 50 criava manequins de cera hiper-realistas. O que Luís e Rute fizeram foi imprimir imagens dessas figuras e dar-lhes uma nova morte, um outro sorriso, uns olhos que não lhes pertencem. Assim ficou criado o coro de assassinos que vai intervalando estas curtas e dizendo frases soltas roubadas e Max Aub e a Mário Henrique Leiria, uma espécie de reflexões de um bando de serial killers. Assim, sim. Como em qualquer história séria, no final morremos todos.

Encenação, construção e actores-manipuladores Luís Vieira e Rute Ribeiro
Sonoplastia Miguel Lucas Mendes

Teatro do Bairro. Qua-Sáb 21.30, Dom 17.30. 10€.

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