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‘Aurora de Areia’, nova criação de Aurora Pinho, estreia quinta-feira nas Gaivotas

Por Miguel Branco
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Em Aurora de Areia, performance-instalação-concerto-tudo-o-que-se-quiser-que-seja, a performer portuguesa une pedaços de todos os seus trabalhos e episódios da sua vida pessoal para se revelar por inteiro. É de uma intimidade profundamente perturbadora. De quinta a sábado na ruadasgaivotas6.  

Um monte de areia deixa antever uma cabeça e uma série de fotografias polaroids. Pendurados no tecto estão desenhos meio mórbidos e um emaranhado de cabelo, na parede projectam-se slides consecutivos de pénis erectos. Há também um minipalco que serve uma electrónica de protesto, um techno com biqueira de aço. É este aglomerado de outros tempos, espectáculos e pedaços da sua vida pessoal, é esta colagem que sustenta a nova criação de Aurora Pinho: Aurora de Areia, para ver de quinta a sábado na ruadasgaivotas6. 

Natural de Santa Maria da Feira, e com um crescimento ligado à dança (do rancho ao hip-hop), a artista acabaria por ingressar no Balleteatro, para tirar um curso de performance, que a colocaria no circuito.  Já dançava, escrevia poemas e pintava, quando aparece a produção musical como meio de dar som às suas criações: “Comecei a trazer todas essas minhas divergências ocultadas para cena, sempre em torno do auto-retrato”, conta Aurora, como que confessando que trabalhar era uma forma de se trabalhar, de combate à estagnação corporal e emocional que sentia. 

Em 2016, apresentou Velvet N’Goldmine também aqui na ruadasgaivotas6, e estabeleceu-se como artista recorrente da programação de festivais de dança e performance e não só. “Foi aí que começaram a conhecer a Aurora, que na altura era Flávio. Usava figurinos ousados, maquilhagem, salto alto e na altura olhavam para mim como um artista queer, porque não sabiam o que se estava a passar comigo”, conta. 

Voltando a  Aurora de Areia – que é no fundo uma performance-instalação dividida por ilhas e momentos numa linguagem  profundamente sexual, a piscar o olho ao desconforto e que pretende romper com o estabelecido nas artes performativas, como a ausência de plateia, com o público a transitar livremente na sala – há um momento essencial: um vídeo caseiro de Aurora (ainda antes da mudança de sexo) a rapar o seu enorme cabelo, coisa profundamente perturbadora. “Aquele momento era de depressão máxima, com tentativas de suicídio e tudo mais. Sabia qual era o problema, mas não sabia como fazer e como encarar as pessoas à minha volta, sentia que não tinha força para começar o processo de mudança de sexo e de disforia de género”, confessa. 

São todos esses materiais arenosos – dos seus diários às tais polaroids, que retratam uma depressão que ia sendo fatal – que vão estar nas mãos de quem os quiser agarrar. Agarremos é Aurora, mulher-exemplo e artista subversivamente essencial.

ruadasgaivotas6. Qui-Sáb 21.00. 5-7,5€. 

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