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‘Black Bird’. Crime e recompensa

Inspirada numa história real, a nova série da Apple TV+ segue a delicada – e interessada – amizade entre um traficante e um assassino em série.

Hugo Torres
Escrito por
Hugo Torres
Director-adjunto, Time Out Portugal
Black Bird
DR
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Larry Hall nasceu em 1962, logo em desvantagem. A família habitava o cemitério na insignificante cidade de Wabash, no Indiana, onde o pai servia como coveiro e profanava cadáveres pela calada da noite, para lhes retirar os objectos de valor com que tivessem sido enterrados. Larry ajudava. Black Bird faz questão de se demorar nessa história de infância, em particular num episódio em que Larry, criança ainda, é forçado pelo pai a cortar com um alicate o dedo a um desses corpos desenterrados que, inchado, impedia que lhe fosse retirado o anel. O irmão ficava em casa. Eram gémeos, mas Gary tinha vampirizado Larry ainda no útero materno, impedindo o seu desenvolvimento total. Apesar de idênticos, quando cresceram ficou clara a diferença entre um e outro nas capacidades física e intelectual. Larry sentia-se menorizado. Era. E o insucesso junto das raparigas levou-o a dar resposta aos seus impulsos libidinosos através da violência: raptando, violando e matando.

Black Bird é uma nova série de true crime, que se estreia na Apple TV+ esta sexta-feira, 8 de Julho, com dois dos seis episódios. Cada um tem uma hora, sob a batuta de um dos mais reputados escritores e argumentistas do género, Dennis Lehane, autor dos romances Mystic River, Vista Pela Última Vez... e Shutter Island, e com intervenção em produções como The Wire, Boardwalk Empire e The Outsider. É o showrunner, apoiado na autobiografia de Jimmy Keene, In with the Devil: A Fallen Hero, a Serial Killer, and a Dangerous Bargain for Redemption, publicada em 2010. True Detective é uma referência evidente. A história passa-se nos anos 1990, quando Keene, uma estrela do desporto escolar (futebol americano) tornado traficante de droga, é detido e condenado a dez anos de prisão sem possibilidade de liberdade condicional. Mas eis que, ao cabo de alguns meses, o procurador e a agente do FBI que o puseram atrás das grades lhe oferecem a possibilidade de comutação da pena: se se predispuser a ser transferido para uma prisão de segurança máxima, a aproximar-se de Larry Hall e a fazê-lo confessar onde estão enterradas as suas vítimas, Keene pode sair em liberdade. Não é um acordo fácil.

Esta parte é verdade. A cena da profanação do cemitério, talvez não. Está lá para dar berço a Larry e enquadrar a personagem débil, de voz aguda e olhar perdido, e em simultâneo assustadoramente presente e maquiavélica construída por Paul Walter Hauser. Lembra-se dele: é o adulto obeso com a mania que é jovem e cool em Cobra Kai. A forma como retrata Larry é como se este estivesse permanentemente drunfado, com assomos de lucidez em que demonstra uma cândida crueldade. Gosta de participar em reconstituições históricas das guerras norte-americanas e é nas imediações dos locais em que estas acontecem que vão desaparecendo raparigas e jovens mulheres. Entre 1981 e 1994, estima-se que tenha feito mais de 40 vítimas. No entanto, quando é preso, só há provas que o incriminam em dois casos. E quando estes são alvo de recurso, existe a possibilidade real de Larry, por questões processuais, incluindo por falta de apoio jurídico a alguém com o seu estado de saúde mental, sair em liberdade. É então que, num acto desesperado das autoridades federais, Jimmy Keene entra em cena.

O anti-herói da série é ele. Um fanfarrão musculado e aprumado que está longe de saber lidar com psicopatas, numa prisão que está cheia deles. Jimmy sempre teve conversa suficiente para levar a água ao seu moinho. Ali, não. Ali, tudo é imprevisível. E o facto de estar ali na condição de bufo fragiliza-o ainda mais. É interpretado por Taron Egerton (Kingsman, Rocketman), com Ray Liotta no papel do seu pai, “Big Jim” Keene, um antigo polícia que acredita ter falhado ao filho e que está disposto a tudo para o ajudar – mas com a sua saúde debilitada, curvando o durão de outrora, o voluntarismo pode não ser bem-vindo. Este é um dos derradeiros trabalhos de Ray Liotta, que morreu em Maio, aos 67 anos (ainda há mais uns filmes para estrear). O elenco principal completa-se com Greg Kinnear, que faz o detective Brian Miller, o primeiro a investigar Larry com proveito (até aí, era tido como alguém que procurava atenção e confessava crimes que não tinha cometido); e Sepideh Moafi como Lauren McCauley, a agente do FBI que é o contacto de Jimmy e o único elemento feminino forte num mar de testosterona e misoginia. Terá planeado bem?

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