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“Black Earth Rising”, um thriller político na Netflix

Por
Luis Filipe Rodrigues
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Black Earth Rising, que se estreia esta sexta-feira na Netflix, é a nova série do realizador e argumentista Hugo Blick. E não tem medo de fazer perguntas difíceis e se atirar a temas complexos e moralmente ambíguos.

O primeiro episódio começa com uma reputada advogada especializada em direito penal, Eve Ashby (Harriet Walter), numa palestra, a ser praticamente insultada e questionada sobre a legitimidade do Tribunal Penal Internacional (TPI) e o seu carácter neo-colonialista. O argumento do seu interlocutor prende-se com o facto de a maioria dos casos julgados pelo tribunal dizerem respeito a crimes contra a humanidade cometidos em África, por negros africanos, mas que acabam por ser condenados no ocidente, muitas vezes contra a vontade das populações locais.

Pouco depois, a tal advogada vê-se envolvida no julgamento pelo TPI de Simon Nyamoya (Danny Sapani), um alegado criminoso de guerra do Ruanda, que é visto como um herói por muita gente no seu país e não só. É que Simon, um guerrilheiro, ajudou a parar o extermínio da população tutsi pela maioria hutu no Ruanda em 1994, quando cerca de um milhão de pessoas foram assassinadas num espaço de 100 dias – as personagens são fictícias, mas o genocídio foi muito real e aconteceu perante a indiferença generalizada, ou pelo menos inacção, das potências ocidentais.

Uma das pessoas que se opõem ao julgamento de Nyamoya é Kate Ashby (Michaela Coel), a filha adoptiva de Eve, nascida no Ruanda, que é de etnia tutsi – ou pelo menos pensa ser, mas é sugerido que talvez não seja o caso – e guarda no corpo as marcas da guerra civil. Escusado será dizer que o facto de a mãe ir tentar condenar a uma pesada pena de prisão o homem que, indirectamente, a salvou quando ainda era uma criança não cai nada bem junto da filha.

Tudo isto acontece no primeiro episódio. E de hora para hora a série levanta mais questões e introduz novos e complexos problemas para resolver. Isto não só está estupendamente bem escrito e bem interpretado (o actor característico John Goodman está muito bem no papel do advogado Michael Ennis), como bem filmado. Há um cuidado na composição e na sequência dos planos, até na iluminação das cenas, que não é comum ver na televisão, nem mesmo na dita de prestígio. Até o genérico inicial, com música de Leonard Cohen ("You Want It Darker"), é óptimo. Black Earth Rising é a primeira boa surpresa do ano televisivo.

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