A Time Out na sua caixa de entrada

Procurar
Projeto Esfera
DRManel Cruz e André Tentugal

Cabem muitas músicas portuguesas dentro do novo projecto Esfera

O projecto Esfera desafiou músicos nacionais para convidarem artistas com quem nunca tinham gravado para o estúdio. Os resultados começam agora a ouvir-se.

Escrito por
Luís Filipe Rodrigues
Publicidade

André Tentugal e o radialista Henrique Amaro gostam de promover encontros. Fizeram-no entre 2019 e 2021, no Eléctrico, o programa da Antena3 e da RTP1 que se prolongou por 33 episódios e duas temporadas e deu palco a 66 projectos portugueses – em cada episódio, dois músicos ou bandas alternavam-se ao vivo e apresentavam-se em entrevistas. E voltam agora a juntar diferentes músicos e bandas no Esfera. Mas enquanto o Eléctrico colocava frente-a-frente artistas com semelhanças óbvias e os mostrava ao vivo, agora promoveram encontros inéditos, alguns até improváveis, entre músicos de diferentes gerações e estéticas, que foram fechados durante três dias nos estúdios Arda Recorders, no Porto, e saíram de lá com maxi-singles que agora começam a ser editados.

“Tínhamos uma ideia já antiga de levar músicos até ao estúdio e de alguma forma eles convidarem outros artistas a juntarem-se a eles e criarem conteúdos inéditos. A alguns artistas, fizemos sugestões de parcerias. Umas avançaram, outras não. Mas demos a todos carta branca para fazerem o que bem lhes apetecesse”, conta o músico e realizador André Tentugal, que filmou os encontros em estúdio e tocou num dos discos, a convite de Manel Cruz. Pode parecer um abuso, o curador a imiscuir-se no projecto. Não é o caso. Manel Cruz e André Tentugal colaboram há “muito, muito tempo”, sublinha o realizador. Mas até agora Tentugal tinha sempre pegado na câmara de filmar e não em instrumentos. “Na verdade, já tinha feito há muitos anos os arranjos para uma das canções [‘Quando Tu Me Levas’] que o Manel escolheu gravar”, sublinha. “E mesmo a ‘Canção Sem Título’ o Manel já me tinha enviado há para aí um ano. Fiz alguma pré-produção e uns arranjos”.

Ambas as faixas que Manel Cruz gravou com André Tentugal nos teclados e electrónicas e Miguel Ramos no baixo já existiam antes deste projecto ter recebido o financiamento do programa Garantir Cultura, do Ministério da Cultura. E muito antes da residência de três dias nos estúdios Arda, ao longo dos quais foram terminadas e gravadas. O curador refere que, entre os primeiros contactos com os artistas e as gravações, que se prolongaram entre Setembro e Outubro do ano passado, passaram alguns meses. E nesse período muitos começaram a adiantar trabalho. Outros não. “Os Mão Morta, por exemplo, decidiram fazer sessões de experimentação total. Foram para estúdio sem nada, residência artística total”, lembra. “Não havia regras. Não havia obrigação. Só havia a premissa de ter um convidado.”

Essa saudável falta de regras reflecte-se nos discos que agora começam a ser partilhados. Os Sensible Soccers convidaram Carlos Maria Trindade para se juntar a eles, mas só ouvimos o antigo músico dos Heróis do Mar e Madredeus em uma das duas faixas de Fornelo Tapes Vol. 2 (os títulos dos discos foram escolhidos pelos autores), que não destoa das restantes edições da banda. O mesmo acontece em Thelma & Willy, dos Miramar e JP Simões, que canta apenas no lado A. A pianista Joana Gama, por outro lado, chamou Angélica Salvi, Adolfo Luxúria Canibal e os Haarvöl para a acompanharem, e gravou três faixas, uma com cada colaborador. É ela o único ponto de contacto entre os temas. Mão Morta e o saxofonista Pedro Sousa também gravaram três temas, mas foram criados de raiz em três dias, com todos juntos em estúdio. Sobre Manel Cruz, André Tentugal e Miguel Ramos não há muito mais a dizer – vale a pena elogiar as canções, no entanto.

Nos cinco discos agora editados ouvimos electrónica instrumental, música contemporânea, rock livre e fogoso e canções folk. Nem sequer a data de lançamento foi uniformizada, com cada artista a decidir quando e como partilha online as gravações, e o que faz com os 200 maxi-singles que ainda vai receber – “as cópias de teste não vieram em condições, por isso os discos de vinil ainda vão demorar três meses até estarem prontos”, explica André. O único que une estas edições é a ideia que esteve na sua génese. E o design gráfico dos estúdios Dobra, responsáveis pelas capas e contra-capas, sóbrias e uniformizadas, com apenas as palavras indispensáveis (os nomes dos artistas, os créditos) sobre blocos de cores fortes. E, eventualmente, os vídeos que André Tentugal filmou em estúdio e vão acompanhar as músicas. Segundo o realizador, chegam à internet no final de Maio.

+ Leia a edição digital da Time Out Portugal desta semana

+ Bateu Matou e outros concertos em Lisboa esta semana

Últimas notícias

    Publicidade