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Tiago Bettencourt
©Duarte DragoTiago Bettencourt

Carta de Amor a Lisboa: Tiago Bettencourt

Desafiámos alfacinhas com jeito para as palavras a escrever a Lisboa, a cidade do nosso coração.

Por Editores da Time Out Lisboa
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Foi de noite, pelas ruas empedradas do Bairro Alto vazio que me deixei levar pelos encantos secretos da velha cidade. Secretos talvez apenas para mim, que não os queria partilhar e me sentia um rebelde por os saber percorrer tão pretensiosamente. Eu era de fora, vivia nos arredores ao pé do mar. Diziam que era perigoso o Bairro Alto naquela altura, pouca gente lá passava, principalmente nos dias de semana, mas eu não, nunca senti esse medo. Nunca me interessaram por demais as discotecas da moda, ou os bares onde se encontravam os grupos de gente conhecida. Eu era já um pós-adolescente e queria estar na parte vazia, nos cantos perdidos, porque eu era perdido também, pairando naquele folgo livre prestes a transformar-se em grito, ou em dança, ou em quadro, ou em canção, e sentia-me em casa, seguro, longe.

Queria a parte da cidade que parava no estado sonolento de quem não se quer ir já deitar porque o ar estava denso e limpo ao mesmo tempo e as luzes amareladas dos velhos candeeiros pintavam as ruas de um mistério suspeito, de uma navalha embrulhada num lenço, de histórias antigas prestes a acontecer. Havia fado na Artilharia 1 e em Alfama. No Bairro Alto e na Bica falava-se de música e poesia e bebiam-se imperiais e viam-se poucas pessoas passar em frente ao snooker e eu sentado nos degraus das portas desordenadamente espalhadas pelas vielas antigas ortogonalmente dispostas. Disposto estava eu a viver um grande amor quando me mudei para Lisboa, e assim aconteceu.

Hoje a minha cidade está grande, cheia, europeia e mundial e já não é só minha. A minha prova de amor é deixá-la ir aos poucos, seguir o seu caminho, transmutar-se a ela e aos seus segredos sob a mesma luz amarelada em cuja sombra me encontrei durante tantos anos. Talvez um dia nos abracemos de novo, e falemos de tudo, sentados no mesmo degrau em frente ao snooker que ainda existe.

Tiago Bettencourt, músico

+ Carta de Amor a Lisboa: Márcia

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