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P.R.A.Ç.A.
©Mariana Valle Lima

Chegou uma nova P.R.A.Ç.A. ao Mercado do Rato

O Mercado do Rato é a casa de um novo projecto que alia a arte ao trabalho social. E todos são bem-vindos a esta P.R.A.Ç.A..

Por Renata Lima Lobo
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Inaugurou a 6 de Maio a P.R.A.Ç.A. (Polo da Reviravolta Ambiental Cultural e Artística), um projecto nascido da parceria entre a Dona Ajuda, já residente no Mercado do Rato, e a associação POUSIO – Arte e Cultura. Este novo espaço cultural tem como matéria-prima doações que são feitas à Dona Ajuda e que são reaproveitadas por artistas em residência nos diferentes espaços de uma das alas do mercado. O resultado podem ser exposições, mas também música, teatro, cinema ou literatura. É que este será um espaço mutável, onde a imaginação não tem limites.

Fundado em 1927, o Mercado do Rato era, até há pouco tempo, um dos mais esquecidos da cidade, mas desde 2016 que tem mais vida. A Dona Ajuda, uma loja social da associação Boa Vizinhança, ocupa uma das alas, com roupa, objectos usados e até mobiliário, tudo fruto de doações, tudo escolhido a dedo e tudo bem organizado ao longo das pequenas lojas que, outrora, estavam ocupadas pelos negócios do mercado. O Talho das Miudezas, por exemplo, é uma boutique de senhora, o Talho do Fernando é uma livraria. Mas a Dona Ajuda cresceu e começou a precisar de mais espaço para distribuir os seus objectos, acabando por se estender para uma segunda ala, onde agora funciona a P.R.A.Ç.A.

P.R.A.Ç.A.
©Mariana Valle Lima

A POUSIO, a quem a Dona Ajuda se juntou, é uma associação com sede em Lisboa, mas pára pouco por cá. Isto porque promove a criação artística em contextos sociais e culturais mais isolados do país. Uma rede de residências artísticas multidisciplinares que são feitas em várias regiões, onde há troca de conhecimento entre os artistas e as comunidades locais e a possibilidade de desenvolver workshops, concertos, conversas ou tertúlias.

P.R.A.Ç.A.
©Mariana Valle LimaMobília em segunda mão e a oficina de costura

A filosofia é agora transposta para a P.R.A.Ç.A., onde as residências de artistas vão trabalhar de perto com a comunidade. Diana Maria d'Orey e Martim Mesquita são as caras por detrás da POUSIO, que, explicam, junta a criação ao trabalho social, uma área já muito bem explorada pela Dona Ajuda. “Vamos à procura da cultura local”, diz Martim, sublinhando que o projecto quer “combater a desinstitucionalização” e facilitar o acesso à cultura. “A ideia é desafiar diversos projectos a residir dentro do espaço, com várias disciplinas num espaço aberto e democrático, e dar origem a uma contaminação artística”, acrescenta, temendo que a palavra “contaminação” não seja a melhor escolha para os dias que correm. Não faz mal: esta contaminação é do bem.

Cultura e reciclagem

Muitas das antigas lojas ainda estão ocupadas pela Dona Ajuda, como uma livraria, uma loja de música, uma loja vintage ou um espaço de costura onde a costureira Leonor recicla tecidos de chapéus de chuva e os transforma em sacos ou toucas de banho, explica Rita Costa Pinto, uma das caras do projecto. Os espaços podem agora mudar para residências artísticas, porque cada um deles passa a ser uma porta de possibilidades. Há excepções, como os livros ou a oficina de upcycling Reviravolta, um projecto da Boa Vizinhança, liderado pelo voluntário Hélio Mateus, que promove a reciclagem e o reaproveitamento de bens que teriam o lixo como destino. “A partir de um grupo que funcione neste espaço, pode acontecer cinema, formação audiovisual… Cada loja é uma porta de possibilidades. De um espaço de costura pode nascer uma uma instalação têxtil e daí uma performance. Já nem são lojas, são espaços a partir de onde pode nascer um pequeno festival de cinema. Em termos práticos a P.R.A.Ç.A. é um spin off da Dona Ajuda, tudo o que sobra aqui ganha uma outra vida”, explica Hélio.

P.R.A.Ç.A.
©Mariana Valle Lima

Além da união de forças entre a Dona Ajuda e a POUSIO, a P.R.A.Ç.A. já tem como parceiros a Fruta Feia (aqui às terças-feiras, das 17.00 às 21.00), a Green Cork, O Tampinhas e o Banco Alimentar, mas nunca fecha as portas a uma lista que espera que continue a crescer. Até o restaurante de petiscos do Sr. Francisco e da Dona Lurdes, Mercado da Sardinha, ali mesmo na porta ao lado, já foi desafiado a juntar-se à festa.

O primeiro artista em residência, na “Loja 18”, é Francisco Duarte Coelho (©franciscoduartecoelho), artista plástico e cliente da Dona Ajuda que aceitou o convite de Hélio para ocupar um dos espaços, onde está rodeado de material informático obsoleto, como um velhinho Spectrum 48K. A única contrapartida é ajudar no Reviravolta, quando não está ocupado no seu trabalho de galeria no Espaço Cultural Mercês. No seu novo ateliê, trabalha com escultura e faz impressão 3D, estando a preparar uma exposição individual. “Estar aqui é bom, porque neste ambiente de praça trocam-se ideias. E é um género de montra”, explica o artista, ele próprio em exposição.

Mercado do Rato
©Mariana Valle LimaFrancisco Duarte Coelho

As actividades da P.R.A.Ç.A. vão manter a ideia de mercado com a organização de feiras mensais com uma forte componente temática, num espaço que poderá receber um pouco de tudo: teatro, dança, artes plásticas, workshops ou leituras encenadas. Na manga está ainda um Clube de Leitura, um espaço para um atelier de fotografia e um estúdio de música.

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