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Distante
Fotografia: Filipe Ferreira

Ciclo dedicado a Caryl Churchill traz o poder e o feminismo ao D. Maria II

O Teatro Nacional D. Maria II estreia esta quinta-feira um ciclo dedicado à dramaturga inglesa Caryl Churchill.

Por
Raquel Dias da Silva
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À primeira vista, as personagens e as situações até podem parecer triviais. Uma miúda que não consegue dormir e acaba a ser testemunha de um acontecimento potencialmente traumático. Rumores de corrupção numa empresa de chapéus. Uma entrevista de emprego invasiva, porventura hostil. Uma mulher que – perante a oportunidade de uma vida diferente, longe da miséria – não vê alternativa senão deixar a filha ao cuidado da sua irmã. Nós e os outros, eles contra nós e vice-versa, num mundo a rodar contra si próprio. O círculo vicioso do poder, das mentiras, das políticas sexuais e do capitalismo. E, de repente, o trivial, o corriqueiro, o que acontece a todo o momento, são os dilemas intemporais e as grandes questões do mundo contemporâneo. É esta a verdade sombria revelada no Ciclo Caryl Churchill, que se estreia esta quinta-feira, 20 de Maio, no Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa, com dois espectáculos da premiada dramaturga britânica.

Teresa Coutinho, encenadora de um desses espectáculos, Distante, diz-nos o que esperar de Caryl Churchill. “Quando nos debruçamos sobre a totalidade da sua obra, é fácil perceber, por um lado, uma voz muito singular e muito crítica. Por outro, um pendor surrealista, que é muito interessante, porque no fundo é como esticar a realidade, aquilo que detectamos na sociedade como um problema, um lugar escuro e podre. É como se Caryl pusesse uma lupa sobre essas coisas e as esticasse quase até à incompreensão. Mas, ao olharmos com atenção, encontramos pontos de contacto com o presente”, assegura Coutinho, que não só encena como constrói sobre Distante, criando um ambiente sonoro de sobreinformação que, embora não faça parte do original, contribui para “o jogo”, a tensão e a reflexão que se pretende desencadear no público. Em cena na Sala Estúdio, o texto de 2000 é um dos mais visionários de Churchill, mantendo-se assustadoramente actual. Numa realidade distópica, que se confunde com os nossos dias, retrata-se uma sociedade consumida pelo medo e exploram-se as fronteiras ténues entre o bem e o mal.

No centro de uma narrativa fragmentada, que não se foca nem na sequência nem no desenrolar dos eventos, sobressai a ingerência do poder, avassaladoramente normalizada, naquilo que são as liberdades individuais de cada um e das quais, mais facilmente do que se imagina, se abdica. “Distante tem para mim o grande desafio e a grande magia de ser um texto altamente económico, com apenas três quadros e muito poucas informações acerca do que se está a passar”, conta Teresa Coutinho. “Quanto mais avançamos na peça, mais insólito se torna. E mais potente, porque nos obriga a confrontar a realidade. A conversa da terceira cena, de que lado é que estão, estão com estes, estão com aqueles. Nós reconhecemos este discurso. A tentativa constante de atribuir a grupos lados.” Quem tem o poder, a favor de quem, contra quem, a que custo, será possível usá-lo em prol de uma revolução social – são talvez estas as perguntas veladas que mais nos moem.

“É a lei do mais forte, ou matas ou morres. O que é que queres?”, questiona, em jeito de provocação, Cristina Carvalhal, que leva ao palco Top Girls, com um elenco de sete actrizes, que dão corpo a 16 personagens – e voz à Mulher. A peça de 1982, que estará em cena na Sala Garrett, resgata ao silêncio a voz de um grupo de mulheres notáveis que a História raramente refere, ao mesmo tempo que traça o percurso da ascensão ao poder de uma “mulher de sucesso” contemporânea. “Há 28 anos fiz esta peça, como actriz, com a Fernanda Lapa. E revolucionou a minha vida”, confessa a encenadora. “É um texto político, que fala dos efeitos nefastos do capitalismo selvático, que atinge tudo o que é mais vulnerável. A questão do poder é central, mas também a forma como a contamos.” E como questões de raça, género e classe ganham nova pertinência no período de crise global que atravessamos.

Teatro Nacional D. Maria II | Top Girls: Sala Garrett, 20 de Maio a 5 de Junho. Qua-Sáb 19.00 e Dom 16.00, 9€-16€ | Distante: Sala Estúdio, 20 de Maio a 6 de Junho. Qua-Sáb 19.30 e Dom 16.30, 11€.

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