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'Cinderela' estreia esta terça-feira no São Luiz

Por Maria Ramos Silva
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Cinderela calça o sapato das preocupações sociais a partir de terça-feira no São Luiz. Assistimos à prova, na nova criação de Lígia Soares, com Crista Alfaiate e Cláudio da Silva na interpretação. 

Nem este príncipe é tão príncipe, nem esta gata é tão borralheira. Bem-vindos à classe média, estrato menos estático do que um conto de fadas, uma zona onde as possibilidades se alargam e onde ao mesmo tempo nem tudo encaixa na perfeição. Nesta Cinderela da vida real, o pé não entra à primeira no sapato de cristal (tão pouco a matéria-prima será nobre), acumula-se a roupa para lavar e engomar, e há uma prova de endurance para cumprir, como em qualquer relação madura. Isso, olá vida madrasta. “Quis pôr em diálogo preocupações sociais que tenho e que muitas vezes estão reflectidas no discurso de todos os dias e no discurso íntimo entre as pessoas, com a família, com os amigos. Este deslassar ou não de vínculos familiares, amorosos, através de uma ideia de sociedade que nos isola.”

Em palco, Crista Alfaiate e Cláudio da Silva, competentes mulher e homem estátua, quase replicam O Beijo de Rodin, ou as antigas fotos a la minuta. São o casal que entra em cena vindo de lados opostos, para se disporem quase totalmente imóveis, ao longo de uma hora, numa estrutura circular engendrada por Henrique Ralheta, responsável pela cenografia.  A desafiante postura, um teste ao equilíbrio, espelha os meandros desta união, com todas as suas compreensões e tensões, com esse conforto e desconforto que se professa por livre vontade – esse, o de passar muito tempo com alguém – por mais que o corpo acuse dor aqui e ali, quando o imobilismo entra em cena.  “Esta não é uma ideia de amor romântico. Vemos que afinal já estão juntos há imenso tempo, que têm um filho. Conhecem-se muito bem”, descreve Lígia sobre esta corrida de fundo, apontando para a permanente assombração  que paira sobre qualquer dupla. “Vieste dizer que me amas, mas não gostas de mim’, diz ela. Claro que há ali um fantasma de perfeição, de relação idílica. De que forma através do discurso  a distância prevalece? Também depende da capacidade real de cada um flexibilizar ideias”,  admite a criadora, sendo que neste caso  “o limite da nossa acção é o nosso próprio discurso”.  E toda a gente sabe como falar é mais fácil do que fazer. 

O feitiço faz-se e desfaz-se a partir de terça-feira na sala Mário Viegas, no São Luiz.  Depois, e porque o diálogo está muito longe de se esgotar neste borralho, Cinderela seguirá para o teatro Viriato, em Viseu (13 Out), e para Aveiro e Porto já em 2019. 

São Luiz Teatro Municipal, Rua António Maria Cardoso, 38. Ter-Sáb 21.00, Dom 17.30. 5-12€.

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