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Ana Luzia

Comer em tempo de Covid: A Trempe

Antes de voltarmos todos a confinar, regressámos a uma casinha de comeres alentejanos, o telheiro mais famoso de Campo de Ourique.

Por Alfredo Lacerda
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Quando Lisboa ainda não tinha restaurantes com mobiliário nórdico e bancos Chesterfield, houve uma tendência de fazer restaurantes com telheiros interiores. O telheiro interior era uma forma de dar um ambiente de casinha rural a um restaurante encarcerado num prédio urbano de Lisboa e não só.

Sou fã de restaurantes com telheiros interiores e colecciono-os. Os telheiros interiores, com as suas telhas a bordejarem a cozinha e a entrarem pela sala, costumam ser um cliché kitsch e um veículo de alentejanice. Entra-se num restaurante com telheiro em Campo de Ourique e, de repente, está-se num tasco de casario em banda algures no interior do distrito de Beja.

No caso de A Trempe, estamos perante um duplo telheiro: um exterior, cravado na fachada do prédio, e um interior. Duplamente kitsch, duplamente rural. Viva o telheiro.


Já cá tinha feito três refeições no passado. A sensação, à entrada, foi a mesma. Eis uma casinha fofa, uma cozinha de bem-comer familiar, que resiste ao modernismo culinário do bairro e das suas gentes. Decoração de tijoleira e as famosas trempes, nome dado aos aros com três pernas sobre as lareiras, onde assentam (assentavam) as panelas de ferro.


Na mesa, foram logo postos petiscos (sem terem sido pedidos). Salsichão de porco preto cortado finamente; torresmos do rissol fritos no dia, chamucinhas de carne sem picante (e sem história); pão tipo alentejano fatiado; e uma saladinha mista.


A carta nem apareceu, que os pratos do dia expostos eram apetitosos e bastavam, das burras (bochechas de porco preto) ao churrasquinho de carnes, passando pela sopa à alentejana.


Havia doses e meias doses: as meias pelos 10 euros, as doses pelos 17. A comida foi despachada toda ao mesmo tempo, sem demoras. Depois de uma sopa de feijão com couves, belíssima, com o caldo da cozedura da leguminosa, rica na verdura, chegaram os principais.


Bem o linguado, fritura impecável com a carne a soltar-se em gomos, o peixe húmido, fresco. A acompanhar arroz de tomate feito de cereal agulha pouco alentejano e tomatada pouco apurada (o bom tomate foi-se em Setembro, Outubro). Nas carnes, optou-se por “lombinhos de porco” que não eram lombinho mas estavam saborosos. Tempero de pimentão e coentros (poucos), acompanhou batata frita às rodelas e arroz selvagem (!).


Nas sobremesas, nada de muito original. Na vitrina de frio destacava-se uma taça de doce da casa, que não era mais do que a também profusamente apelidada “delícia da casa”, à base de leite condensado e bolacha. Para algo mais alentejano, veio sericaia, o costume, boa todavia.


Por este repasto pagaram-se 60 euros ao almoço, com dois copos de um vinho fracote, copos esses de pé, bojudos, largos e grossos como os vidros da Casa da Moeda (antes as canecas de barro, que são costume em restaurantes de telheiro).


Desleixo no uso das máscaras. Serviço áspero e apressado. Um restaurante de telheiro. Com a telha.


Rua Coelho da Rocha, 11 (Campo de Ourique). 21 390 9118. Seg-Sáb 12.00-15.00/ 19.00-22-00. Preço: 20€-30€

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