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Comer em tempo de Covid: Lés-a-Lés

Um restaurante que quer ser um best of da cozinha regional portuguesa fez-nos suspirar com a boa comida de conforto.

Alfredo Lacerda
Escrito por
Alfredo Lacerda
Les-a-Les
Gabriell Vieira
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Estava ainda a maldizer o pão com excesso de fermento industrial e esfarelado, porventura conservado no frio, quando cai na mesa o melhor rissol de camarão de que me lembro. Tudo perfeito: massa da grossa bem frita, o recheio um creme sedoso e piscícola a lembrar os rissóis de peixe de antigamente, lá pelo meio troços rijos do marisco, tudo quente a deitar fumo.

Se tivesse que eleger comida de conforto, os fritos estariam no topo das preferências, sobretudo os pastéis. Estão fora de moda, ninguém os vai ver na boca de um influencer, mas são miminhos de avozinha de escumadeira na mão, são manta no colo e mesa com flores estampadas na toalha, são cozinha com braseiro e relógio de cuco.

“Oh lá, lá”, atirou às tantas o meu amigo, já abalançado para os pastéis de massa tenra, acabados de pousar: folhados, pouco canónicos na substância de carne picada atomatada – muito bons, também.

A cabidela veio confirmar o talento do sítio, projecto de Frederico Pombares e Tito Serradas Duarte, proprietário do Mariscador, restaurante que residiu neste mesmo avançado do Campo Pequeno (como ainda atestam os talheres). Os bagos de arroz gordos e gostosos, o molho aveludado e gomoso ao jeito do risoto, tudo no ponto, da cozedura ao vinagre, da doçura ao sal.

A fasquia baixou com o entrecosto. Falhar um entrecosto é difícil. Basta tempo a cozinhar e temos comida boa. Este, longe de estar falhado, não era brilhante, expectativa legítima num restaurante que promete o melhor da gastronomia portuguesa. Acompanharam umas batatas fritas que, sendo gulosas e garantidamente “caseiras” – palavra de empregado –, não tinham nem a textura nem a forma que os humanos e suas facas lhe costumam dar.

Estava eu e o meu companheiro embrenhados nestas reflexões picuinhas e pseudotécnicas quando o Lés-a-Lés nos esbofeteia com a simplicidade notável de um esparregado clássico. Nabiças quase inteiras, só um pouco de farinha decadente, vinagre na dose certa. “Oh, que bom, que bom”, voltou a exclamar-se à mesa.

Nisto, eis que chega outro grande prato: o xerém. As papas de milho estão para os algarvios como a açorda está para os alentejanos. A base é parecida, com uma puxada de alho e ervas, normalmente coentros. Eu prefiro o xerém, porque adoro a textura do milho quebrado e a sua doçura elegante, e porque encontrar uma açorda feita com verdadeiro pão alentejano se tornou quase tão difícil como calar André Ventura num debate.

O xerém do Lés-a-Lés vem com choco cortado fino, o que torna tudo ainda mais divertido e saboroso e também vem, presumo, com uma boa dose de manteiga.

A concluir, nas sobremesas faltavam alguns clássicos, mas o arroz doce de trinca moída com canela soube muito bem.

Em síntese. Este Lés-a-Lés faz da melhor cozinha regional portuguesa que se pode comer em Lisboa, e melhor seria se os tempos permitissem outro investimento. Nascido em plena crise do confinamento, terá sido forçado a reduzir a carta, onde normalmente figurariam outras jóias nacionais, como o arroz de cabrito ou as cavalas com molho vilão. Ainda assim, já é um belíssimo mostruário do que os inspectores Michelin andam a perder.

A visitar. Agora e no futuro. 

Praça de Touros do Campo Pequeno (Campo Pequeno). 96 844 4126. Seg-Dom 12.00-22.30. Preço: 25€-30€

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