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Hortas de Lisboa
Museu de Lisboa

Como germinou na cidade a semente do passado e a do futuro na exposição "Hortas de Lisboa"

A exposição convida os visitantes a conhecer o passado hortícola da cidade e pensar um futuro sustentável com hortas na paisagem urbana.

Por
Francisca Dias Real
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Não, as hortas não são coisas de outros tempos. E não, não existem apenas no campo. As cidades já foram, mais que agora, talhadas por terrenos hortícolas e Lisboa tem uma história rural que cultiva desde a Idade Média, ainda que agora com menos espaço e afinco que outrora. Os olhares sobre o passado cruzam-se com os do presente, que começa a traçar um futuro, daquilo que são as “Hortas de Lisboa”, uma exposição no Palácio Pimenta do Museu de Lisboa.

O Pavilhão Preto do museu ficou mais verde, muito à conta de uma história que nunca ninguém tinha contado. Uma história sobre hortas que desde sempre fizeram parte da paisagem urbana, sobretudo no que diz respeito à subsistência de quem as habita. 

A exposição começou a ser pensada há mais de três anos, mas demorou até se concretizar, por todo o estudo e pesquisa que envolveu esta viagem até à Idade Média na cidade e de como se plantava nessa época. E não só. Os hortelões de hoje têm vindo também a contar as suas histórias ao longo dos últimos tempos, tudo para compôr uma teia cronológica daquilo que foram, o que são e o que serão as hortas de Lisboa. 

“Estávamos à procura de metodologias de como conhecer melhor os lisboetas de hoje. Queríamos trabalhar a alimentação e a questão do cultivo próprio para consumo e da sustentabilidade”, refere Joana Sousa Monteiro, directora do Museu de Lisboa, que co-comissaria a exposição juntamente com Daniela Araújo, antropóloga do museu, e ainda Mário Nascimento, também historiador no equipamento. “E porque não fazermos a história das hortas em Lisboa? Fizemos um trabalho de investigação desde a Idade Média em Lisboa até começarmos a entrar século XX adentro com os primeiros parques hortícolas”.

A verdade é que dantes o espaço hortícola na cidade ocupava muito mais área que agora, muito à conta dos terrenos e cercas dos conventos, que constituíam uma grande fatia desta actividade. 

Ainda no século XIV e XV, as hortas, chamadas de almoinhas por influência islâmica, constituíam sobretudo um meio de subsistência das populações, fossem elas em quintais, cercas conventuais ou integradas em sistemas intensivos de irrigação. A expansão da cidade levou depois a um desaparecimento de hortas no centro, passando os arrabaldes a assumir outra importância. É nessa altura ainda que as plantas começam a ser reconhecidas pelo seu papel medicinal e terapêutico, sendo a horta já olhada como um local de bem-estar – como é vista nos dias de hoje.

O segundo núcleo “Horticultores de Oitocentos” mostra a evolução dos terrenos a partir do século XIX, com a extinção das ordens religiosas e, consequentemente, dos seus terrenos, começando as hortas de instituições como escolas e quartéis a ganhar espaço.

Mais tarde começam a surgir os lunários e os almanaques, exemplares antigos que “serviam de guia aos agricultores para marcar o ritmo das tarefas agrícolas ao longo do ano”, conta Daniela, debaixo de uma representação lunar numa sala da exposição e junto a alguns originais emprestados pela Biblioteca Nacional. 

A descoberta da horticultura e floricultura, pela divulgação técnica e científica, foi tendo cada vez mais destaque por toda a Europa, muito por culpa de Francisco Simões Margiochi, agrónomo e autor de notáveis artigos sobre agricultura, e também Frederico Daupiás, que abriu uma casa de sementes no Chiado. 

Nesta zona da exposição há amostras de livros de horticultura, um regador emprestado do Palácio da Ajuda e uma grande foto representativa dos “famosos passeios às hortas de domingo”, refere Joana. Essas romarias aconteciam desde meados de oitocentos às primeiras décadas do século XX e incluíam piqueniques familiares em jeito de prática social. 

Hortas de Lisboa
Hortas de Lisboa

A meio da mostra, no núcleo “Uma Lisboa de Muitas Hortas”, os visitantes vão poder pisar a cidade, literalmente. Começa com um levantamento topográfico dos terrenos pelo engenheiro Silva Pinto, onde o chão da sala é um mapa onde são visíveis os espaços verdes e identificáveis os parques hortícolas de Lisboa. Já nos dias de hoje, a horticultura é a actividade mais comum praticada sobretudo em espaço municipal, nos cerca de 770 talhões dos parques hortícolas da autarquia, mas há também quem cultive em lugares privados ou hortas comunitárias. O que importa é manter viva a semente.   

A história daqui para a frente

As hortas deixaram de ser exclusivas a quem tem um jardim ou um talhão num parque hortícola. O futuro destes espaços passa pela possibilidade de qualquer pessoa poder ter um cantinho germinado em casa, seja na cozinha, no quintal ou na varanda. No quarto núcleo “Ferramentas para uma horta na cidade”, o nome é explicativo para o que guarda esta sala que oferece conselhos para que qualquer um possa montar a sua horta em casa e dá até exemplos de hortas futuristas autónomas – equipamentos que fornecem água, solo e luz favoráveis ao desenvolvimento da espécie plantada. E a história, na exposição, aproxima-se cada vez mais da realidade actual e do panorama hortícola da cidade.

A fruição e o “bem-estar que se sente numa horta”, refere Joana, são o denominador comum a todos os hortelões com quem falaram. Independentemente das razões pelas quais cultivam – muitos deles para a própria subsistência, apesar de não o admitirem muitas vezes – é o facto de se sentirem bem quando estão nas hortas, de “estarem sozinhos com os seus pensamentos” que move muita desta gente. Esse ambiente, quase introspectivo e íntimo, é reproduzido no núcleo “A minha horta – o meu mundo”, uma zona com bancos que recria o ambiente de uma horta com paisagens sonoras e visuais. Ao lado, caixas de madeira embutidas na parede suportam pequenos televisores que transmitem oito testemunhos com histórias distintas de hortelões com quem Daniela falou para recolher a experiência da horta de cada um – a acompanhar há objectos pessoais de cada um deles, desde uma casa natural para abelhas ao saco para transportar hortaliças.

Hortas de Lisboa
Hortas de Lisboa

E tudo se encaminha para o final. O fim da exposição é o fim e o início de um ciclo, remetendo na realidade para a origem de tudo: a semente. Numa estrutura em madeira, semelhante a uma estufa, está o último núcleo “O dom e o devir das sementes”, um trabalho de catalogação de espécies hortícolas de 25 hortelãos da cidade, que escolherem a sua planta de eleição para ver representada nesta exposição. Cada unidade apresenta uma imagem do hortelão, uma breve história e respectiva espécie com as sementes que lhe correspondem.

Há ainda um mapa das freguesias lisboetas em branco onde cada visitante poderá assinalar a sua horta, caso tenha uma – uma forma interactiva de perceber a quantidade de alfacinhas que têm um espaço de cultivo. 

À saída, no túnel de passagem, pendem do tecto 500 bombas de sementes que, no último dia da exposição, a 19 de Setembro de 2021, serão retiradas e oferecidas aos visitantes desse dia para que plantem a bomba e transformem “os espaços vazios em espaços de resiliência e de novos cultivos”, remata Joana. 

Campo Grande, 245. Ter-Dom 10.00-18.00. 23 de Outubro a 19 de Setembro de 2021.

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