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D*Face pinta mural em Lisboa e antecipa Festival MURO 2021 no Parque das Nações

O mural é uma amostra do festival de arte urbana que acontece em Maio de 2021. O Parque das Nações está a mudar e o MURO ajuda na transformação.

D*Face
Gabriell Vieira
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Dean Stockton é um dos grandes, mas talvez as campainhas só comecem a soar se lhe chamarmos D*Face, um dos maiores nomes da arte urbana a nível mundial. O artista britânico mudou-se de latas e bagagens para Lisboa durante duas semanas para deixar marca no Parque das Nações, o bairro onde vai decorrer a 4.ª edição do Festival MURO, de 22 a 31 de Maio de 2021. O mural gigante está lá para ver e ser visto, até porque estas paredes além de ouvidos, têm olhos. 

A meia dúzia de passos da Estação do Oriente, na Avenida Aquilino Ribeiro Machado, há uma razão para parar, olhar e ser olhado pelos pares de olhos que D*Face deixou por lá na sua estreia em Portugal. 

D*Face
Gabriell Vieira

E quem disse que o tamanho não importa? Para D*Face importa. E muito. Nada melhor que um mural para fazer a mensagem saltar à vista da multidão – e este mural no Parque das Nações cumpre a missão. 

“Pinto murais de todos os tamanhos, mas o mais habitual é aquela parede de rua, normal. E quando cheguei aqui percebi que este trabalho ia ser um desafio, porque a parede é gigante e tem uma esquina. É muito longa e torna-se um grande desafio contar uma história aqui”, explica o artista, que quando chegou a Lisboa percebeu que, geograficamente, a zona era muito frequentada. “É um ponto de encontro de pessoas que vêm e vão. Durante estes tempos tudo o que tu vês são os olhos das pessoas, toda a gente usa máscara, toda a gente tem de decifrar o que sentes pelos teus olhos”. 

D*Face
Gabriell Vieira

É precisamente pelo olhar que D*Face quer prender atenções. Pelo olhar das figuras que, juntamente com a sua equipa, pintou nas dezenas de metros quadrados de muro. Em tempos pandémicos, nunca a expressão “os olhos são o espelho da alma” fez tanto sentido – a expressão facial e as emoções de cada um estão no olhar, a única parte da cara que a máscara deixa a descoberto. E no mural nada mais há que figuras humanas representadas do nariz para cima, apenas com os olhos à vista – olhares de tristeza, felicidade ou surpresa. 

“É interessante perceber como é que estes olhos ou aqueles contam uma história. Será que aquela pessoa está triste? Estará contente? Esta parede representa um bocado do passado, do presente e do futuro”, diz-nos. 

O artista não deixa, no entanto, de ser fiel ao seu estilo assumidamente influenciado pelo movimento artístico da Pop Art, eternizado por nomes como Andy Warhol ou Roy Lichtenstein, e sempre com uma mensagem mordaz pronta a ser pintada num qualquer mural.

“Fazia-me impressão como é que, por exemplo, nunca ninguém pára para pensar nos anúncios com que somos bombardeados. Parem para pensar”, diz. “O meu trabalho pode então ser uma pausa subversiva disso tudo. Pensei que se tornasse a minha voz mais directa fosse mais fácil para as pessoas perceberem a sociedade consumista em que estão e a esta cultura do consumismo que nos é imposta”. 

D*Face
Gabriell Vieira

A crítica é constante, mas é por isso que D*Face acaba por considerar que a arte urbana passa por ter um papel educativo de certa forma, porque está na rua, à vista de todos e para todos. “Claro que com a pandemia tornou-se mais relevante as pessoas questionarem o que vêm e o impacto que isso tem. Os tempos que estamos a viver são históricos a todos os níveis, mas gostava que o meu trabalho fosse uma aberta, um ponto positivo de tudo isto”, refere. 

O Festival MURO no Parque das Nações 

A mudança já tinha começado com várias obras previstas e feitas no bairro, como a recuperação do skate park no Parque Tejo, por exemplo, mas o Festival MURO vem adensar a transformação da zona.

“O espaço público depois do confinamento precisava deste boost. A nossa ideia é ir dando ao público pequenas amostras daquilo com que vão poder contar no festival em 2021. Começamos com esta obra importantíssima e que já é de Lisboa, finalmente”, explica Hugo Cardoso, da Galeria de Arte Urbana (GAU) da Câmara Municipal de Lisboa, que organiza o festival. “Queremos reforçar a ligação entre a arte urbana do bairro e a Expo 98, porque foi nessa altura, com Mega Ferreira, que surge a nomenclatura, quando começamos a nomear as peças de arte urbana que na altura tinha sido feita para o Parque das Nações. Era importante para nós também estarmos presentes nesta mudança do bairro”.

D*Face
Mariana Valle Lima

Este ano, as artes rumam a Oriente e pela, primeira vez, vão estar estar mais dispersas no bairro com intervenções em quatro núcleos: Gare do Oriente (onde D*Face já deixou marca), o Parque Tejo na área junto ao skate park, na Avenida de Pádua a propósito de um novo empreendimento, e no Bairro Casal dos Machados. É nesta última localização que, ainda em Dezembro, o colectivo RUA (Contra, Draw, Fedor, Oker, The Caver e Third) vai tratar de dar vida a empenas de prédios e a campos de jogos, uma empreitada que a GAU tem implantado na cidade.  

“Em 2021 Lisboa será Capital Europeia do Desporto e quisemos também assinalar esse marco, até porque esta zona é propícia à prática, tanto com os campos de jogos que vão ser intervencionados como a zona do skate park”, diz Mário Patrício, presidente da Junta de Freguesia do Parque das Nações, que está envolvida desde o início na organização do MURO. 

A zona do Parque Tejo tem ganho equipamentos de prática desportiva urbana, como é o caso dos da prática de pump track – que trouxe o primeiro evento do Red Bull UCI Pump Track World Championships a Portugal, mas Mário não quer ficar por aqui. “Vamos transformar parte do parque de estacionamento que lá está em campos de street basket 3x3, uma modalidade que vai entrar nos Jogos Olímpicos do próximo ano, tal como o skate”, diz. 

No que diz respeito às artes, vai avançar também no bairro um projecto vencedor do Orçamento Participativo, da autoria do artista Bordalo II, que será uma incubadora de artes para jovens artistas trabalharem as suas técnicas – cerâmica, têxteis, serigrafia, fotografia ou madeira. Serão uma espécie de residências artísticas pelas quais os artistas não terão de pagar para desenvolver o trabalho, tendo apenas de dar ao bairro algumas das suas criações e envolver a comunidade no processo. 

“No fundo o festival MURO veio cerzir todos estes projectos que já tínhamos em curso e reforçar ainda mais o nosso posicionamento neste sentido, desde a cultura, ao desporto e arte urbana”, afirma o autarca, que quer aumentar o espólio de arte pública no bairro, agora catalogadas em 56 peças.

As actividades vão estar mais concentradas nos fins-de-semana que apanham o festival, e não vão faltar os passeios guiados para conhecer as obras do MURO. “Pensámos até em fazer percursos cicláveis, uma vez que o festival vai decorrer de forma mais dispersa. Está tudo em aberto ainda, mas temos a certeza de que tudo será adaptado à situação pandémica que se viver em Maio para estarmos todos em segurança”, remata o presidente da Junta. 

Tal como aconteceu nas edições anteriores – no Bairro Padre Cruz, em 2016, em Marvila, em 2017, e no Lumiar, em 2019 –, a 4.ª edição do festival, de 22 a 31 de Maio de 2021 vai trazer, além das intervenções artísticas (que ainda agora começaram), workshops com novas técnicas de graffiti e ter mais muros de pintura livre, uma iniciativa que tem ganhado força pelas mãos da GAU. “Queremos apostar cada vez mais nesta vertente e deixar as pessoas pintar livremente. Não são só os novos artistas e emergentes a usarem, acho que é uma iniciativa que acaba por ser transversal até aos da velha guarda que se cansaram de pintar empenas”, diz Hugo.

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