Siga este roteiro de arte urbana em Lisboa

Nos últimos anos, Lisboa tornou-se uma das capitais mundiais da arte urbana
Antigo restaurante panorâmico de Monsanto
Por Francisca Dias Real e Renata Lima Lobo |
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Vhils, Bordalo II, Aka Corleone, ±MaisMenos±, Tamara Alves ou Mário Belém são alguns dos nomes mais sonantes neste roteiro de arte urbana em Lisboa. A eles juntam-se artistas de todo o mundo, que escolhem Lisboa para servir de tela aos mais variados estilos e mensagens. Se por um lado Lisboa está em guerra com taggers com pouco talento para a coisa – e que fazem questão de espalhar assinaturas por tudo quanto é sítio –, por outro a cidade é cada vez mais um museu a céu aberto de belíssimas obras de arte urbana. Embarque connosco num passeio alternativo pela cidade.

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Roteiro da arte urbana em Lisboa

Marielle Franco Vhils
Duarte Drago

Mural Marielle Franco de Vhils

O Iminente 2018 já lá vai, mas ficaram as marcas. Fortes, marcas fortes e políticas. Este ano num novo espaço, o Panorâmico de Monsanto, Vhils juntou-se à Amnistia Internacional para exigir justiça pelo assassinato de Marielle Franco. Alexandre Farto fez aquilo que sabe melhor e esculpiu a vereadora brasileira numa das paredes interiores do Panorâmico, a propósito do festival. Se não teve a felicidade de ter visto o mural durante o Iminente, olhe, sorte a nossa que é uma das peças que vai ficar por lá para ser vista, revista e fotografada. O Panorâmico está aberto de segunda a domingo, das 09.00 às 19.00. 

iminente, ±MaisMenos±
DR

REAL de ±MaisMenos±

Será que o espelho reflecte mesmo o real? Mais ou menos. Nesta instalação de Miguel Januário, conhecido por ±MaisMenos±, uma das laterais exteriores do Panorâmico é ocupada com uma película espelhada que compõe a palavra REAL, uma forma de explorar a dicotomia urbano/natural, uma vez que a obra espelha a mancha verde de Monsanto em redor do miradouro. A instalação já foi parar ao Instagram de muito boa gente, durante o festival Iminente 2018, e pode continuar a ser vista por lá, até que a natureza e o tempo os separe. 

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arte urbana, pichi&avo, mural
Fotografia: Manuel Manso

Estátua de Pichi&Avo

Pichi&Avo são o duo espanhol que gosta de juntar tudo no mesmo tacho: a arte clássica e a rebeldia do graffiti. E foi exactamente isso que fizeram no mais recente mural em Lisboa, na Calçada de Santa Apolónia. Juntaram muita cor à receita e o resultado foi este que pode ver aqui – uma grande figura escultórica sobreposta a tags infinitos na lateral do prédio. O traço de Pichi&Avo é conhecido pelas pinceladas grosseiras, que se encontram com um desenho mais cuidado. O mural foi feito no âmbito da exposição “Versus”, na Galeria Underdogs.

Calçada de Santa Apolónia, 69.

mário belém, mural, arte urbana
Fotografia: Manuel Manso

Abolição da pena de morte de Mário Belém

Nem precisa de ir mais longe. Depois de ver o mural de Pichi&Avo, desça a rua e deite o olho à obra de Mário Belém. Para celebrar os 150 anos da abolição da pena de morte em Portugal, a Galeria de Arte Urbana convidou o artista para ocupar parte de uma parede e o seu muro contíguo. Mário usou cores mais vivas, como o amarelo, o laranja e os azuis, num claro contraste com os tons mais escuros que a morte sugere. A obra está dividida em três: a imagem da vida representada pelas flores; a da morte, com o esqueleto; e a frase de celebração.

Cruzamento da Rua da Bica do Sapato com a Rua Diogo Couto.

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wk interact, arte urbana
@Underdogs

Monocromático de WK Interact

Já é premissa obrigatória da Underdogs que sempre que algum artista inaugura uma exposição na galeria tem de criar um mural na cidade, e foi exactamente isso que WK Interact fez. O artista francês radicado em Nova Iorque assume que sempre quis deixar algo para as pessoas que vêm a seguir a ele. Dito e feito. Debaixo do viaduto do eixo Norte-Sul, entre a Alta de Lisboa e a Ameixoeira, ergueu-se um mural gigante a preto e branco.

Viaduto Eixo Norte-Sul entre Ameixoeira e Alta de Lisboa.

bordalo II, arte urbana
Fotografia: Manuel Manso

Big Trash Animals de Bordalo II

Bordalo bateu recordes com a sua primeira grande exposição em nome próprio. E claro que a par disso houve mais uns tantos animais da série Big Trash Animals à solta por Lisboa. Dois deles estão no Beato, onde decorreu a exposição “Attero”: um macaco gigante (no largo do ateliê do artista) e um sapo (na Rua da Manutenção). O outro viajou até Santos – uma raposa gigante encastrada num edifício devoluto na Avenida 24 de Julho. 

Estes são os mais recentes, mas pode encontrar outros animais da série Big Trash Animals por Lisboa: o Guaxinão numa parede do Centro Cultural de Belém; o Trash Puppy, construído um mês depois ao pé da rotunda de Cabo Ruivo; um porco na Rua do Rio Douro; uma abelha gigante dentro da Lx Factory; e uma libelinha no bar do Infame.  

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tamara alves, arte urbana
Fotografia: Manuel Manso

Disquietheart de Tamara Alves

Tamara Alves voltou à carga para deixar a sua marca numa das paredes junto ao nosso parente Time Out Market. A obra foi inspirada nas palavras do escritor José Saramago – “Se tens um coração de ferro, bom proveito. O meu, fizeram-no de carne, e sangra todo o dia”. Disquietheart é uma obra feita no âmbito dos Dias do Desassossego.

 Largo D. Luís (Cais do Sodré).

add fuel, louvor da vivacidade

Louvor da Vivacidade de Add Fuel

Em 1959, a Câmara Municipal de Lisboa instalou em quatro escadarias da Avenida Infante Santo painéis de azulejos de Maria Keil, Alice Jorge, Júlio Pomar, Rolando Sá Nogueira e Carlos Botelho. Em 1994 chega o painel cerâmico de Eduardo Nery, encomendado para Lisboa Capital Europeia da Cultura. Mas há cinco escadarias da avenida e faltava decorar a que dá acesso à Rua Joaquim Casimiro. E havia uma escolha artística mais ou menos óbvia. Desta vez o convite partiu da Junta de Freguesia da Estrela e chegou ao ilustrador e artista urbano Add Fuel (Diogo Machado), conhecido por reinterpretar o design tradicional dos azulejos portugueses.

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SAINER-CROSSROADS
©SEINER

Crossroads de Sainer

O artista responsável por este mural é polaco, chama-se Sainer e é conhecido mundialmente pelas suas criações em grande escala e pelo carácter onírico e surrealista que lhes imprime, seja nos enormes murais, pinturas ou ilustrações. Faz parte da Etam Cru, juntamente com o seu conterrâneo Bezt, mas este trabalho no 20 da Avenida Afonso Costa (Olaias) foi realizado a solo em Abril de 2015. Quando chegou a Lisboa, o artista ainda só tinha um esboço da figura da mulher. O cão e o pato foram acrescentados enquanto pintava (com tinta acrílica e spray), em prol do equilíbrio e harmonia visual da composição, isto num prédio com 11 andares, o que faz deste o maior mural da cidade em altura. O convite para a sua realização partiu da Galeria Underdogs no âmbito do seu Programa de Arte Pública 2015.

Vhils e Obey
Fotografia: Francisco Santos

Universal Personhood de Shepard Fairy

Universal Personhood é o nome de uma série de trabalhos de Shepard Fairey, o artista americano também conhecido como Obey Giant, o homem que criou o famoso cartaz "Hope" de Obama. Pois bem, Shepard veio a Lisboa por ocasião da exposição "Printed Matters Lisbon" na Galeria Underdogs e deixou um legado (mais ou menos efémero como toda a arte urbana) junto ao 69 da Rua da Senhora da Glória (Graça). A peça é única. O significado desta série é o apelo aos direitos iguais para mulheres de todas as etnias e religiões e Obey quis partilhar a construção desta obra de 5mx14m com Vhils que ficou encarregue de completar a segunda metade do mural no seu estilo artístico.

Rua da Senhora da Glória, 69.

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Odeith, graffitti em homenagem a Breaking Bad
©DR

Breaking Bad de Odeith

Sérgio Odeith, o artista urbano famoso internacionalmente por pintar murais que saltam das paredes, pôs a descansar a sua tendência para obras anarmóficas a três dimensões no seu mural de eleição na Damaia. Ali pintou a sua série preferida. Porquê? “Foi para mim a melhor história, em que todos os actores representaram um papel brilhante. Estes dois são os que mais marcam a série”, explicou à Time Out Lisboa. E não é por acaso que Walter White e Jesse Pinkman moram neste muro da Rua Dr. Francisco Sousa Tavares. “Pinto aqui há cerca de 20 anos, quase como se o muro fosse meu. Fica perto de casa e toda a gente respeita. O que quer dizer que as peças ficam intactas até envelhecerem”. Antes de ficarem com rugas arriscamos dizer que vão participar em muitas sessões fotográficas, entre fãs de Odeith, de Breaking Bad e de ambos. Totalmente pintado a spray “sem qualquer outra técnica, nem recorrendo ao uso de projectores, o que torna a pintura mais natural”, a obra de 16 metros de comprimento e quatro de altura demorou apenas quatro dias a ficar concluída. Odeith já perdeu a noção do número de murais que criou por todo o mundo. É que, além de em Portugal, já pintou nas ruas do Dubai, Espanha, Inglaterra, Alemanha, Israel, USA, Brasil, Panamá, Malta, entre outros. Também já foi tatuador, mas em 2008 fechou o estúdio e rumou a Londres, onde chegou a trabalhar num barbeiro jamaicano. Agora não pensa sair “do nosso bonito Portugal”.

Rua Dr. Francisco Sousa Tavares

Calcada by Vhils e calceteiros de Lisboa
©Bruno Lopes

Calçada de Vhils

Podíamos escolher uma parede rebentada artisticamente. Mas ainda há muito boa gente que não sabe quem é o autor desta obra chamada Calçada que mora no largo entre a paragem do eléctrico 12 na Rua de São Tomé e a Rua dos Cegos (a caminho das Portas do Sol). O autor é mesmo Vhils e este foi o seu primeiro projecto feito em calçada, a partir de um convite do cineasta luso-francês Ruben Alves. Após o sucesso de A Gaiola Dourada, Ruben foi desafiado pela Universal France a criar um álbum referência de fado com a nova geração de fadistas a cantar Amália. Foi assim que se atirou de cabeça para um projecto que celebra a portugalidade e que junta Alexandre Farto (o artista que conhecemos por Vhils), os calceteiros de Lisboa, Celeste Rodrigues (irmã de Amália), quase todos os novos fadistas da nossa praça (de Ana Moura e Gisela João a António Zambujo e Ricardo Ribeiro) e até Bonga e Caetano Veloso. Parece complicado, mas não é. Criar o álbum não foi suficiente para o ambicioso realizador, que convidou Vhils para desenvolver uma obra única e marcante com o rosto de Amália, imagem que será a capa do disco e foi assentada pela nata dos calceteiros da cidade. Para ficar a conhecer as suas principais paredes e peças criadas fora de portas desde 2007, explore este mapa interactivo.

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Finok
©Sara Pinheiro

Iemanjá de Finok

O artista brasileiro aproveitou a sua passagem por Lisboa em 2015, onde passou parte da infância, para trazer um pouco do Brasil às ruas da cidade, mais precisamente a um prédio na Rua Manica, junto ao aeroporto. De ascendência espanhola e japonesa, espelha nas suas obras a multiculturalidade do Brasil. Finok, actualmente um dos mais produtivos artistas paulistas, ajudou-nos a interpretar este mural. Os motivos escolhidos para a roupa são brasileiros, mas também portugueses, como as flores na parte superior. Na verdade, a figura representa uma baiana, mas Iemanjá é a deusa do mar, esse monstro que liga Brasil a Portugal. O boneco integrado nos brincos da imagem é a assinatura de Finok: pode encontrá-lo em todas as suas obras. Já os desenhos do rosto representam a diversidade étnica do Brasil, entre índios, africanos, europeus e orientais. Choveu no dia em que o pintou, então Finok decidiu que queria incluir as malditas gotas no seu trabalho.

Rua Manica

Mural de André Saraiva
Fotografia: Ana Luzia

Mural de azulejos de André Saraiva

André Saraiva apresentou no Jardim Botto Machado (junto à Feira da Ladra) um megalómano mural com 188 metros de comprimento 1011m2 de área e precisamente 52.738 azulejos. André, luso-francês, ficou conhecido nos anos 90 com o seu alter ego Mr. A, uma personagem que também funciona como a sua assinatura e que se espalhou por algumas cidades europeias. Este mural reinterpreta a cidade com alusão a alguns dos principais monumentos, misturados com outros elementos, como uma Torre Eiffel.

Campo de Santa Clara.

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Akacorleone
©Cristina Morais

Desassossego de Akacorleone

Num prédio da Rua Damasceno Monteiro, junto ao Miradouro Senhora do Monte, apareceu no início do ano este mural. Mas só apareceu de repente para os mais distraídos, porque Akacorleone (Pedro Campiche para os amigos) demorou "cinco ventosos dias" a realizar a obra visível mesmo para quem está no Martim Moniz. O convite partiu dos próprios inquilinos – aka vizinhos do artista – que tinham acabado de repintar a fachada, alvo de tags e graffittis não solicitados. “Eles queriam de alguma forma prevenir isso, por isso contactaram-me para intervir na fachada. Foi uma coincidência interessante, porque vivo perto e é uma fachada que gostava de pintar já há algum tempo", explicou. A obra contou com o apoio da Galeria Underdogs, que disponibilizou o material e acompanhou o processo em vídeo. Chama-se Desassossego, já que "representa de uma forma bastante livre a personagem que mais representa a cidade de Lisboa, Fernando Pessoa, num sonho psicadélico".

Mais arte urbana

Coisas para fazer

Um roteiro de arte urbana em Marvila

Foi em 2017 que o Festival Muro transformou 17 paredes laterais de prédios em 17 telas de grandes dimensões, contando com a intervenção de artistas portugueses e internacionais. Entretanto, a arte urbana continua bem e recomenda-se, e Marvila, a zona que acolheu este projecto cheio de cor, tem seguido pelo mesmo caminho. Autêntica galeria a céu aberto, este é só mais um bom motivo para partir à descoberta da zona oriental da cidade. 

vhils no barreiro
ⓒCMBarreiro
Coisas para fazer

Vhils em Lisboa: o roteiro perfeito

Vhils não se faz rogado quando o assunto passa pela dimensão das obras que vai criando mundo fora. A nova obra localizada numa das entradas do Bairro de Santa Bárbara tem 150 metros e faz uma homenagem ao passado industrial do Barreiro.

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