Origem, de Vhils e Bordalo II
Francisco Romão Pereira | Origem, de Vhils e Bordalo II
Francisco Romão Pereira

Siga este roteiro de arte urbana em Lisboa

Lisboa tornou-se uma das capitais mundiais da arte urbana, com festivais e uma criação prolífica à boleia de galerias.

Rute Barbedo
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Vhils, Bordalo II, ±MaisMenos±, Tamara Alves, Pantónio e Mário Belém são alguns dos nomes portugueses mais sonantes neste roteiro de arte urbana em Lisboa. A eles juntam-se artistas vindos do Brasil, França, Polónia ou Estados Unidos, compondo a paisagem visual da cidade, por vezes para nos fazer pensar, outras para fazer sentir o ar fresco da manhã ou da juventude. De Marvila à Madragoa aqui estão mais de 30 pontos da cidade para sinalizar no mapa dos verdadeiros fãs da arte que dominou as empenas e muros do mundo. 

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Roteiro da arte urbana em Lisboa

'Calipso', de Patrícia Mariano

Patrícia Mariano pintou o mural Calipso no Bairro da Bela Flor, em Campolide, durante a edição de 2025 do festival Muro Lx. No ano seguinte, a representação da ninfa do mar, que sublinha a relação entre os humanos e a natureza, foi distinguida pela plataforma Street Art Cities como a quinta melhor obra de arte urbana do mundo, colocando Lisboa no terceiro lugar do ranking das melhores cidades para apreciar arte urbana. 

Shepard Fairey (Obey), na Graça

A Mulher Revolucionária é uma das peças que o artista norte-americano deixou bem visível na empena de um prédio da Rua Natália Correia, na Graça. Ao olharmos para ela, lá está Abril, na boina e no cravo. Não muito longe, outra mulher ocupa o espaço público, desta vez, feita em parceria com Vhils, na Rua Senhora da Glória. Shepard Fairey, activista e um dos mais conceituados nomes da arte urbana internacional, veio a Lisboa a convite da galeria Underdogs, para uma primeira exposição a solo em Portugal, em 2017, cinco anos após ter tido direito a uma personagem na série The Simpsons. Em 2023, já esbatida, a "guardiã da paz" foi refeita pelo artista, ganhando novos tons.

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Em 2022, a Câmara Municipal de Lisboa e o Super Bock Super Rock inauguraram o Street Art Park, junto à Avenida David Mourão-Ferreira, no Lumiar. O espaço, de acesso e pintura livre (sim, sim, qualquer um pode levar e usar a sua lata), também tem um jardim, requalificado no mesmo ano, e uma zona destinada à prática desportiva, para andar de skate, patins ou bicicleta. 


'The language of flowers', de Jacqueline de Montaigne

Estamos no Largo Hintze Ribeiro e há duas obras de arte para admirar. De um lado, a floriografia sonhadora da artista anglo-portuguesa Jacqueline de Montaigne, numa pintura de 14 metros de altura que evoca a prática victoriana de utilizar as flores para expressar segundos significados (as rosas para o amor ou as dálias para o compromisso). Do outro, e a substituir a antiga pintura de André da Loba, estão as batucadeiras criadas pela dupla Frederico Draw & Ergo Bandits em 2019, para assinalar a abertura do Centro Cultural de Cabo Verde.

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'Precipitated Double Sunset for Lisbon', de Felipe Pantone

Na Travessa do Olival a Santos, Madragoa, Felipe Pantone deixou, em 2024, um duplo pôr-do-sol à cidade. "Decidi deixar fluir, literalmente liquefazer tudo, deixar escorrer. Por vezes não se sente tão preciso e só queremos deixar as coisas seguirem o fluxo. Estou muito contente com o resultado final. Tem essa ousadia, essa energia dinâmica, mas também aquela sensação de fusão, como o poder de algo que se pode dissolver subitamente mesmo à sua frente", explicou na altura o artista que tem na paleta de cores a sua arma.

'Crossroads', de Sainer

O polaco Sainer veio em 2015 a Lisboa e trouxe com ele uma senhora simpática, com um saquinho no braço e uma boquilha na mão, juntando-se-lhe um cão e um pato aos pés. Tudo isto demorou oito dias a pintar, num edifício da Avenida Afonso Costa, entre o Areeiro e as Olaias.

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A mercearia de Mariana Duarte Santos

Na lateral da igreja da Rua Nova do Desterro, Mariana Duarte Santos, artista que andou muito pela pintura a óleo, pelo desenho e pela gravura, mostra os seus dotes na também experienciada pintura mural. A base é uma imagem de Artur Pastor, um dos grandes nomes da fotografia portuguesa do século XX, que retrata uma loja tradicional que existiu nesta zona da freguesia, na década de 50. Faz “recordar a todos que por lá passam a vida das pessoas, os usos e tradições, bem como as memórias das gentes que existiram outrora”, enquadrou em 2021, ano em que a obra foi criada, a Junta de Freguesia de Arroios, parceira da Galeria de Arte Urbana nesta iniciativa.

'Rivers', de Borondo

É um dos grandes nomes da arte urbana e deixou no Bairro Padre Cruz, em Carnide, a sua marca (por duas vezes) no ano de 2016, durante o festival Muro Lx, sob a curadoria da Mistaker Maker. “A ideia era fazer dois murais em que duas partes da mesma imagem fossem expostas em duas paredes diferentes, situadas a algumas centenas de metros uma da outra. Um dos murais estava na parte antiga do bairro e o outro na parte nova. Fui informado sobre os problemas de integração entre a população das diferentes partes do bairro", pode ler-se no site do artista espanhol sobre o trabalho. Os murais tentam, assim, criar uma ligação entre as duas partes do bairro. Dez anos depois, as pinturas de Borondo estão, naturalmente, desbotadas. Mas será que cumpriram o seu papel?

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'Porta do Vale', de Sepher Awk

Se andamos em bairros não esqueçamos o do Vale Escuro, junto ao Bairro Lopes, na Penha de França, onde esta obra de Sepher Awk ganhou espaço com o intuito de "reflectir o que muitos não conseguem ver, ofuscados pela conotação negativa atribuída a lugares como este". Esta porta "não se limita a fronteiras territoriais ou preconceitos sociais", explicou o artista em 2024. A pintura surgiu na sequência de um triplo homicídio que chocou o bairro e Lisboa. Uma das vítimas foi Carlos Pina, barbeiro e agregador da comunidade local, que recebeu uma grande homenagem dos amigos e admiradores no seu último adeus, em Outubro de 2024.

Sara Correia, de LS, em Chelas

Ainda na linha de bairro, a obra pintada por LS no Bairro das Amendoeiras, em Chelas, deu que falar. Foi aqui que a fadista Sara Correia cresceu e começou a cantar (no Clube Lisboa Amigos do Fado). A pintura celebra a saída das margens para os grandes palcos, em 18 metros de altura que dão à fadista ares de rainha. Ao perto, podem decifrar-se as múltiplas formas geométricas que compõem a linha gráfica do artista, também ele de Chelas.

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'Sofia', de Superlinox

Quem gosta de chamar a Aveiro a "Veneza portuguesa" provavelmente também alinha na designação de Superlinox como o "nosso Banksy". O pouco que os une, porém, são o anonimato e o facto de trabalharem no espaço público. Superlinox emergiu na paisagem urbana em 2020 (sobretudo em Setúbal, de onde é o artista) e em Lisboa deixou já várias esculturas coloridas, como 'Sofia', que nos olha desde o Elevador de Santa Justa com o seu aspirador na mão, já que é uma "uma diva que não suporta migalhas", como descreveu o autor em entrevista à Time Out. Entre outras peças, um anjo verde figura na estação do Cais do Sodré.

'Estúpidos', de Robert Panda

Há uma série de estúpidos na cidade. E não, não estamos a ser ordinários. Falamos apenas das figuras antropomórficas de Robert Panda. O projecto tem raízes em 2011, quando Portugal entrou no buraco negro da dívida soberana e foi forçado a pedir um resgate financeiro a instituições internacionais. "Querendo denunciar a estupidez dos políticos, burocratas, agentes financeiros e outros que tais, dei início a uma série de acções de rua, como pendurar de pontes e viadutos efígies que representavam as pessoas responsáveis pela crise, que moldei de forma um pouco tosca com papel e fita adesiva", explica o artista no site. Mais tarde, acabou por reconhecer que, afinal, "todos nós éramos responsáveis", isto é, "todos nós éramos igualmente estúpidos". O projecto transformou-se na série de "estúpidos" que hoje conhecemos. Um deles está em Marvila, a olhar para o rio sem qualquer motivação, coisa muito estúpida de acontecer.

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'The great escape', de Fulvio Capurso

Ainda no plano da escultura, mas entrando no metal como matéria-prima privilegiada, vamos ao trabalho do italiano radicado em Itália que coloca figuras-sombra como fadas, crianças e quejandos (se não é tudo, por vezes, a mesma coisa) pelo espaço sideral lisboeta. Uma das intervenções do também arquitecto e ilustrador está na Rua Maria Pia e representa crianças na sua fuga para a liberdade através dos "degraus" de um telhado.  

Mural de azulejos de André Saraiva

André Saraiva instalou no muro do Jardim Botto Machado (Feira da Ladra) um megalómano mural de 188 metros de comprimento, 1011 metros quadrados de área e 52738 azulejos. André, luso-francês, ficou conhecido nos anos 90 pelo alter ego Mr. A, uma personagem que também funciona como assinatura e que se espalhou por algumas cidades europeias. O mural da Feira da Ladra reinterpreta a cidade misturando alguns dos seus principais monumentos com elementos curto-circuito, como uma Torre Eiffel.

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Campo da Feiteira, de Edis One e Pariz One

Edis One e Pariz One desenharam uma homenagem ao futebol português no local onde jogou a primeira selecção nacional. O Campo da Feiteira já não existe, mas há um túnel que celebra o talento nacional e os valores do fair play, junto à Rua Emília das Neves, em Benfica. A história pode ser lida aqui.

La Folie des Grandeurs, de Julien Raffin

Quem desce as escadas da Estação Ferroviária de Santos, em Lisboa, para chegar ao lado do rio depara-se, à esquerda, com um novo mural de arte urbana. É da autoria de Julien Raffin, 37, artista francês que trabalha habitualmente com colagens. Desde finais de Dezembro de 2021 que quem por ali passa pode ver o painel de azulejos La Folie des Grandeurs. Esta série questiona a noção de progresso, em diferentes aspectos”, contou Raffin à Time Out, por telefone. “Representa valores de liberdade e união, e ecoa os desejos de pessoas de mente aberta que acreditam num futuro melhor”, acrescenta. O mural mostra duas mulheres, de cravo vermelho ao peito, a interagir com a Ponte 25 de Abril. “Quis pôr mulheres na frente das cidades modernas, como Lisboa.”

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Lince ibérico, de Bordalo II

Esta instalação de Bordalo II, um lince ibérico de dimensões titânicas, está na Gare do Oriente para pôr Lisboa a pensar no desafio da emergência climática. O morador do Parque das Nações, que se junta ao famoso Gil da Expo 98, é um lince ibérico criado, como é habitual, a partir de materiais reutilizados. E há mais uns tantos animais do autor pela cidade, como o macaco da Rua de Xabregas, o Guaxinão do Centro Cultural de Belém ou o Tired Panda numa rotunda da Bela Vista.

Abolição da pena de morte de Mário Belém

Nem precisa de ir mais longe. Depois de ver o mural de Pichi&Avo na Calçada de Santa Apolónia, desça a rua e no cruzamento da Rua da Bica do Sapato com a Rua Diogo Couto deite o olho à obra de Mário Belém. Para celebrar os 150 anos da abolição da pena de morte em Portugal, a Galeria de Arte Urbana convidou o artista para ocupar parte de uma parede e o seu muro contíguo. Mário usou cores mais vivas, como o amarelo, o laranja e os azuis, num claro contraste com os tons mais escuros que a morte sugere. A obra está dividida em três: a imagem da vida representada pelas flores; a da morte, com o esqueleto; e a frase de celebração.

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'It’s all in the eyes', de D*Face

Dean Stockton é um dos grandes, mas talvez as campainhas só comecem a soar se lhe chamarmos D*Face. O artista britânico deixou marca no Parque das Nações, o bairro onde decorreu a quarta edição do Festival Muro, em 2021. O mural gigante está lá para ver e ser visto, até porque estas paredes, além de ouvidos, têm olhos. Está a meia dúzia de passos da Estação do Oriente, na Avenida Aquilino Ribeiro Machado, e dá-lhe uma razão para parar, olhar e ser olhado pela estreia de D*Face em Portugal. 

'Louvor da Vivacidade', de Add Fuel

Em 1959, a Câmara Municipal de Lisboa instalou em quatro escadarias da Avenida Infante Santo painéis de azulejos de Maria Keil, Alice Jorge, Júlio Pomar, Rolando Sá Nogueira e Carlos Botelho. Em 1994 chegou o painel cerâmico de Eduardo Nery, encomendado para Lisboa Capital Europeia da Cultura. Mas há cinco escadarias na avenida e faltava decorar a que dá acesso à Rua Joaquim Casimiro. Chegou assim o ilustrador e artista urbano Add Fuel (Diogo Machado), conhecido por reinterpretar o design tradicional dos azulejos portugueses, a convite da Junta de Freguesia da Estrela. De azulejo em pintura de azulejo, se fizeram as escadarias.

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'O Beijo I', de Akacorleone

Dois murais convivem lado a lado na Rua do Beato, criando uma narrativa. "Inspirei-me nas vistas para o rio, na localização e na tensão entre composições figurativas e abstractas, com o objectivo de criar algo que pudesse ser reconhecido à escala, uma vez que os murais podem ser vistos de longe", descreve o artista. Criado em Janeiro de 2025, é o mais recente trabalho do artista na sua cidade natal.

Elevador de Entrecampos, de Vanesa Teodoro

Vanessa Teodoro, artista sul-africana radicada em Lisboa, foi convidada pela Emel para finalizar a intervenção no elevador e espaço superior da passagem de peões em Entrecampos. A identidade visual dos seus trabalhos não deixa grande margem para dúvidas sobre a autoria, definida por padrões gráficos e elementos figurativos. Nesta última aventura, a intervenção foi inspirada em padrões africanos e na pop art, com recurso ao preto e branco.

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'Ignorantism', de Fuzi

Já é certo e sabido que assim que entra uma exposição na Galeria Underdogs sairá sempre uma intervenção artística numa qualquer rua de Lisboa. No seguimento da exposição individual “Ignorantism”, em 2019, o artista francês Fuzi deu o ar da sua graça na Rua da Cintura do Porto de Lisboa, junto ao Cais do Sodré. Fuzi é uma referência para a comunidade internacional do graffiti, tendo começado a pintar comboios em Paris, nem sempre passando incólume: foi preso perto de 20 vezes. Na década de 90, criou uma forma de graffiti que veio a ser conhecida como Ignorant Style.

'Teoria da Liberdade', de ±MaisMenos±

No Areeiro, ±MaisMenos± (Miguel Januário) joga com o famoso teste óptico para nos pôr a ver a liberdade com dificuldades. O artista urbano da palavra, política e filosofia, natural do Porto, dá aqui a resposta sobre o grau de abrangência do tão desejado bem: a liberdade é absoluta na relatividade do tempo e do espaço. Eis a chave do "Logaritmo do Ângulo Mínimo de Revolução". 

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Talude de RAF

A Alta de Lisboa viu nascer em 2019 uma das maiores obras de arte urbana da Europa a ser feita por um só artista. Com o objectivo de transformar um elemento urbanístico pré-existente – um talude – num espaço dinâmico, a Sociedade Gestora da Alta de Lisboa (SGAL) desafiou o artista RAF a repensar o espaço. “Quando me desafiaram para trabalhar aquilo que era, na altura, um gigante bloco de cimento, imediatamente a minha cabeça se encheu de ideias. Olhando à volta, vemos prédios recentes coloridos que se misturam com a palidez de outras construções mais antigas. Decidi logo pegar no elemento cor para trabalhar este projecto, e comecei a imaginar de que forma poderia, com recurso à utilização de cor e de técnicas de aerografia, atribuir-lhe uma nova dimensão”, esclarece. O resultado está bem à vista.

Os pássaros de Pantónio

Ainda na Alta de Lisboa, no antigo Bairro da Cruz Vermelha, encontramos uma das raras pinturas murais deixadas em Lisboa pelo artista da ilha Terceira, Açores. A criação vem  de 2019, durante a passagem do festival Muro Lx pelo Lumiar. Conhecido pelas obras em grande escala em vários países e pelo movimento dado à vida natural nas cidades, Pantónio deixou um conjunto de aves em voo circular entre quatro prédios da Gebalis. Um deles é o do bar da associação de moradores.

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'The Wolf Awaits', de Tamara Alves

Os lobos não são peça rara no trabalho de Tamara Alves e aqui, nas traseiras da Galeria Underdogs, voltam a aparecer, enunciando instintos. "The Wolf Awaits" é o nome dado ao mural, pintado em 2024 e inspirado na poesia do iraniano Abbas Kiarostami. Não faltam outras feras, muitas vezes coladas ao universo feminino, na cidade. A artista que começou o seu trabalho dentro de portas, quis depois levar gritos, animais, mulheres e olhares directos para a rua.

'Calçada', de Vhils

Entre a Rua de São Tomé e a Rua dos Cegos (a caminho das Portas do Sol), em Alfama, Vhils deixou a sua primeira intervenção em calçada portuguesa, a partir de um convite do cineasta luso-francês Ruben Alves. Após o sucesso de A Gaiola Dourada, Ruben foi desafiado pela Universal France a criar um álbum referência de fado com a nova geração de fadistas a cantar Amália. Foi assim que surgiu o projecto com Alexandre Farto (Vhils), os calceteiros de Lisboa, Celeste Rodrigues (irmã de Amália), Bonga, Caetano Veloso e fadistas como Ana Moura, Gisela João, António Zambujo e Ricardo Ribeiro. A imagem de Vhils fez a capa do disco e foi assentada pela nata dos calceteiros da cidade.

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'Iemanjá', de Finok

O artista brasileiro de ascendência espanhola e japonesa passou por Lisboa em 2015 e deixou obra na Rua Manica, junto ao aeroporto. Iemanjá, a deusa do mar, veio assim ligar Brasil a Portugal. E os desenhos no rosto representam a diversidade étnica do Brasil, entre índios, africanos, europeus e orientais. Como choveu durante a pintura, Finok decidiu incluir as gotas no trabalho. Chama-se memória.

'Lisboa Menina e Moça', de Mário Belém

A fachada da Biblioteca Manoel Chaves Caminha, na Avenida Rio de Janeiro, Alvalade, ganhou em 2021 uma dedicatória ao fadista Carlos do Carmo. O mural é da autoria de Mário Belém, que não quis cair no chavão óbvio da varina e substituiu a figura por uma "menina e moça" sentada numa pilha de livros. A imagem é complementada com elementos alusivos à cidade, como um vinil de Carlos do Carmo, um manjerico, o Santo António, monumentos, eléctricos e um corvo.

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'Romance da Raposa', Kruella d’Enfer

Já que estamos em Alvalade, vale a pena ver o que Kruella d’Enfer fez a Aquilino Ribeiro. Calma, não foi nada de mal. No âmbito do projecto Alvalade Capital da Leitura (sim, é um grande bairro de escritores), o Romance da Raposa (1924) ganhou, junto ao número 43 da Travessa Henrique Cardoso, uma ilustração mural que convida a efabular sobre as nossas vidas, todas elas com ambiguidades morais e lutas pela sobrevivência.

Estrada de Chelas

Na marginal Estrada de Chelas deu-se uma das mais intensas transformações visuais da cidade nos últimos tempos. Não, não se ergueram condomínios de luxo nem abriu nenhum hipermercado de uma conhecida marca espanhola. As infra-estruturas habituais, como a Imprensa Municipal, a Ar.Co e a ETAR, ainda lá estão, mas desde 2023 que vivem na companhia de muita arte urbana. O movimento causou uma inesperada aparição de tuk-tuks na estrada lisboeta, para mostrarem obras com as assinaturas de Halfstudio, Bordalo II, Vhils, Jaime Ferraz ou kampu5.      

Mais arte urbana

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É designer, é graffiter e é também detentor de um recorde do Guinness. Conhecido pelo seu projecto Original Extinction Art Project, que alerta para as espécies em vias de extinção, Edis One já pintou um pouco por todo o mundo, de Amesterdão ao Bali. E em 2016 participou na realização do maior muro do mundo pintado com luz negra, em Ras Al Khaimah, nos Emirados Árabes Unidos, que lhe valeu a entrada no grande livro dos recordes. Mas este artista de Benfica tem deixado a sua marca na zona de Lisboa, em particular no seu próprio bairro. Conheça algumas das obras de Edis One, realizadas a solo ou em conjunto com outros artistas, com destaque para o seu conterrâneo de Benfica, Pariz One.

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Vhils não se faz rogado quando o assunto passa pela dimensão das obras que vai criando mundo fora. Sobram poucas pessoas a quem não soe uma campainha quando ouvem o nome Vhils. Alexandre Farto passou fronteiras há muito e mesmo assim continua por cá a deixar a sua marca em murais de pequena ou grande dimensão. O mais recente representa o lançamento da primeira pedra da 'Chelas é o Sítio', uma associação sem fins lucrativos que conta com Sam The Kid no leme. Fomos à procura, nesta margem ou do outro lado do rio, das paredes rebentadas artisticamente por Alexandre Farto e encontrámos também a icónica obra na calçada portuguesa. Recolhemos as melhores perfurações artísticas de Vhils para que siga o roteiro mais esburacado de Lisboa, veja com olhos de ver e fotografe, que é tudo instagramável.

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  • Coisas para fazer

“A Cidade da BD”, como se tem afirmado em Portugal e como confirma a parede de um túnel a caminho do Fórum Luís de Camões, é uma referência da expressão artística no espaço público e na cultura urbana da Grande Lisboa. Na rota da arte pública, contam-se mais de uma centena de murais, graças sobretudo ao projecto “Conversas na Rua”, organizado pelo município desde 2015, que promove todos os anos várias intervenções artísticas, em articulação com o património e a paisagem urbana da cidade. Entre as diferentes propostas visuais, encontramos obras de artistas como Odeith, Akacorleone, Vile e Smile. Pode vê-las num acervo virtual ou aproveitar para programar um passeio em família com este roteiro de arte urbana na Amadora, onde procurámos reunir alguns dos mais bonitos ou surpreendentes graffitis.

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