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A Divina Comédia
Jorge Gomes

Dante e Teatro Griot, no meio do caminho

O Teatro ​​​​​​​Griot desafiou Miguel Loureiro a trabalhar ‘A Divina Comédia’. Só que “o teatro é cena e não é literatura”, diz o encenador, dias antes de levar o texto à Malaposta.

Escrito por
Joana Moreira
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Enquanto encenador, enfrentar o longo poema épico e teológico que é A Divina Comédia é uma dupla tarefa. “Primeiro, porque, para já, é assustador”, diz Miguel Loureiro sobre aquela que “é uma obra clássica e intemporal e onde todos se projectam”. Segundo, porque o texto de Dante Alighieri, escrito algures entre 1304 e 1321, não foi pensado para ser levado a palco. Mas Zia Soares, directora do Teatro Griot, sugeriu-lhe, ainda antes da pandemia, que trabalhasse sobre as palavras do escritor italiano. “Começámos a pensar numa forma de o Griot se encontrar com A Divina Comédia”, recorda. O encontro resultou em No Meio do Caminho, que se apresenta em apenas duas récitas, a 22 e 23 de Outubro, no Centro Cultural da Malaposta, em Odivelas.

Tal qual o texto original, a peça divide-se em três partes: o Inferno, o Purgatório e o Paraíso. Três actores (Daniel Martinho, Tiago Barbosa e Zia Soares) atravessam estes lugares, o primeiro de condenação e dor, o segundo de penitência e purificação, o terceiro de redenção. A peregrinação de hora e meia alonga-se no Inferno, “a parte maior, cheia de acontecimentos, um bocadinho mais fantásticos, mais cénicos, mais espectaculares”, explica Miguel Loureiro, antes de seguir para o Purgatório, a “parte mais humana, onde há perguntas e respostas e mais contacto de contracena entre os actores”.

Foi a pensar na contracena que a versão dramatúrgica de Miguel Loureiro e Miguel Graça partiu da adaptação em prosa de Marques Braga. “É a [tradução] que talvez esteja menos sacralizada e mais esquecida, que não é tão nobre. O teatro é cena e não é literatura, não preciso de todos os predicados excelentes do Vasco Graça Moura [autor de outra das traduções disponíveis]”, justifica. “O que me interessa no teatro são sempre as questões de oralidade e de transmissão do legado textual. Gosto de uma imagem que surja de um dizer.” Além disso, “estamos a subtrair tempo de vida a alguém que nos vai visitar. Temos de ter cuidado. Apesar de tudo é um espectáculo aberto, não é para uma plateia de académicos, nem de especialistas”, avisa o encenador. 

A Divina Comédia
Jorge Gomes

Debruçando-se na linguagem directa, Miguel Loureiro não abusou por isso das “descrições teológicas e filosóficas” para chegar aonde ambicionava: um diálogo com a moral cristã, uma reflexão sobre a condição humana. “O que A Divina Comédia e outros textos deste género, epopeias e outros textos épicos, fantásticos – faz é que nos ajuda a reflectir para além da fábula que ela em si encerra, na nossa própria fábula.”

Este Meio do Caminho é “da vida do próprio Dante, que se sente apetrechado para reflectir sobre a sua vida no meio do caminho da sua vida”, crê o encenador, mas não só. “Nós também somos todos artistas entre os 40 e os 50 anos, achamos que estamos no meio do caminho [risos]. É o meio do caminho do Griot também. Usamos também esse sentido meta-teatral de reflectirmos um bocadinho sobre as nossas reflexões de trabalho e as condições de trabalho do Griot”, afirma.

A Divina Comédia
Jorge Gomes

Desde a sua criação que o Teatro Griot, companhia constituída por actores e encenadores negros, tem trabalhado com particular incidência sobre questões identitárias e temas como o racismo ou o pós-colonialismo. “Essa condição está muito presente no trabalho deles”, admite Miguel Loureiro. “A questão é que eles também foram sendo arrumados às vezes para uma zona que não sei se eles... Não são os legítimos representantes de nada. São legítimos representantes de quererem fazer teatro e de se confrontarem com grandes textos”, defende. Ainda mais este, que “abarca todas as nossas expectativas, de toda a nossa experiência humana, [que] é mais do que todas as politizações somadas. É sempre a questão da esperança. Aquelas perguntas primordiais filosóficas. Porque é que estamos aqui? Existe alguma coisa a seguir? São temas que são apetecíveis a qualquer grupo de qualquer orientação política, de qualquer espectro étnico”, nota.

Voltando à sala de ensaios, no fim, ei-lo: o Paraíso. Durante seis ou sete minutos, os três actores executam uma “longa coreografia” sobre uma nota do compositor Mestre André. Diz-se, em coro, um poema de Santo Agostinho n’A Cidade de Deus. “Eis o que estará no fim sem fim./ E que outro é o nosso fim senão chegar ao reino que não tem fim?”. Um momento que “espelha as expectativas do que é o fim, o fim de uma jornada que é o fim da jornada da vida, o que é o paraíso e estar no paraíso”, diz o encenador. Afinal, “a cena também é um sortilégio, como a religião”.

Centro Cultural Malaposta. Rua de Angola, Olival Basto (Odivelas). Sáb 20.30, Dom 16.30. 12,5€ 

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