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Dave está a disputar no Teatro da Politécnica um jogo de vantagem nula

Por Miguel Branco
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O primeiro espectáculo de Tiago Lima atira-nos para um court de ténis, onde muito se falha. Dave, Queda-Livre é excesso de informação e expectativas desmedidas. É subir à cadeira e apreciar o jogo.

O chão desta casa – que também é consultório, floresta, cemitério, academia de ténis – é de terra batida. Há fitas na cabeça e meias aos quadrados bem puxadas, raquetes, um sofá, uma mesa grande e as respectivas cadeiras, um objecto artesanal que o pai de Dave lhe fez para este bater bolas em casa. E sim, se há coisa que está presente em Dave, Queda-Livre – texto e encenação de Tiago Lima, a partir de A Piada Infinita, do romancista norte-americano David Foster Wallace – é aquilo que os pais querem que sejamos. Neste caso, querem que Dave seja o melhor jogador de ténis, seja um rapaz atinado, um bom aluno, um ser relativamente sociável, querem que ele passe a vida a lavar as mãos, enfim, querem que seja um tipo normal. Mas ele é tudo menos isso. Dave, Queda-Livre está no Teatro da Politécnica, casa dos Artistas Unidos, desta terça-feira até sábado.

Este é o primeiro texto e encenação de Tiago Lima, que não gostou propriamente do curso de teatro na Escola Profissional de Teatro de Cascais, isto é, não queria ser actor. Então começou a pensar que “fixe se calhar era poder escrever as coisas que queria dizer em cena”. “Comecei a escrever uma peça, que seria a relação de um pai e de um filho, uma coisa um bocado autobiográfica”, confessa. Depois encontrou-se com Foster Wallace e achou que seria muito interessante “levar para teatro este excesso de informação”, um livro que tem 1146 páginas, sendo que mais de 100 são notas de rodapé. Realidade textual que parece, muitas vezes, ser a linguagem deste espectáculo, uma quantidade de informação absurda, que nem sempre se entende de onde vem. Se a isto juntarmos um bando de personagens surreais, temos o caldo entornado, no bom sentido: há uma mãe de discurso fatalista; um pai obcecado, que não sabe falar com o filho, que tem uma academia de ténis e uma carreira de sucesso no cinema independente; duas gémeas que sempre seguram o telemóvel, viva-a-futilidade-da-vida; Dave que é um miúdo deprimido e sobredotado que se interessa por erotismo bizantino e que sabe de tudo da vida; entre outras.

Dave, no final das contas, só quer que o deixem em paz, que o deixem ser ele, mas é sempre este tipo de pessoa que o humano parece ter especial gosto de atazanar, de agitar, para ver se arrebita ou endireita. Seja a namorada, os amigos, os pais, todos querem que Dave seja não-sei-o-quê. E se em alguns casos reais isso pode ter gerado um resultado positivo, aqui não é, de todo, o caso. Tiago Lima cita Freud, para falar sobre esta ambição desmedida, para as expectativas que depositamos nos outros: “Uma vez um pai foi a uma consulta com o Freud e disse-lhe que não sabia o que havia de fazer para educar os seus filhos. E o Freud respondeu: ‘Tudo o que tu fizeres vai estar mal, não te preocupes’”. Está dito. Game, set and match.

Teatro da Politécnica. Qua 19.00. Qui-Sex 21.00. Sáb 16.00 e 21.00. 6-10€.

De Tiago Lima
Com Beatriz Godinho, Bruno Ambrósio, Carolina P. Sousa, Cristina Carvalhal, David Esteves, Eduardo Frazão, Guilherme Moura, Jani Zhao, Pedro Lacerda e Rodolfo Major

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