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Mistério da Cultura
Ágata Xavier

David Marques revela o “Mistério da Cultura” no TBA

Por Miguel Branco
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Mistério da Cultura é a mais recente criação de David Marques, que passa no TBA de sexta a domingo. E é uma tentativa de sobreviver à violência burocrática, carregada de humor e ironia

Uma espécie de cegueira colectiva, onde os intérpretes se adivinham pelo toque e assim, vagarosamente, avançam, procuram outro lugar. Uma vez chegados a esse sítio transportam, um a um, tijolos de vidro para uma nova morada. Estão, afinal, a construir. A meio do trajecto a visão vai voltando, ouvem-se uns sons estranhos, numa ideia de aquecimento – se aqui estão e vão estar durante a próxima hora e meia convém que se preparem – que sugere um ou outro trava-línguas.

Ao fundo, numa tela gigante, observamos excertos de improvisações e entrevistas referentes a este processo de criação. No meio, uma torre com várias qualidades de luz é como que um objecto alienígena que rodeiam, a que sempre voltam. A cada momento que passam juntos enunciam um “ok” que sugere missão cumprida, que venha o próximo. Um pouco como um criador ao qual lhe sucedem os espectáculos.

Mistério da Cultura – o novo espectáculo de David Marques que, depois de ter passado pelo Materiais Diversos, passa pelo Teatro do Bairro Alto de sexta a domingo – é sobre a burocracia invasora de sonhos e casas, sobre as intermináveis candidaturas à DGArtes, sobre aquilo que não chega a palco.

O coreógrafo e intérprete David Marques começou a pensar nisto quando estava prestes a estrear a sua primeira coreografia de grupo: Ressaca, na Culturgest, em 2017. À data, não recebeu apoio nem do Ministério da Cultura, nem da Fundação Calouste Gulbenkian, e, como tal, teve que “convocar uma economia de afectos gigante”, diz. “Lembro-me de olhar para a peça, estar muito satisfeito e que era um bocado irónico que não se vissem as dificuldades que existiram para a fazer.” E isso ficou-lhe na cabeça.
De tal maneira que aos vários exercícios que os intérpretes vão fazendo, com ou sem tijolos de vidro, mais ou menos na positividade que ergue qualquer coisa em conjunto, sucede-se um outro, onde parece que jogam à batata quente com uns lençóis estranhos. Quando os lençóis se abrem percebemos que estamos perante um formulário de candidatura à DGArtes, bem como algumas notícias, frases como “O Ministério da Cultura usa cookies. São gráficos. São um monstro papão, isso sim.
E mais monstruosos ainda se tornam pelo movimento gerado pelos intérpretes. “A ideia é tentar criar uma maneira naive, muito simples, de tratar este monstro da burocracia e o monstro que o Estado pode parecer", explica. "Aquilo transforma-se na nossa casa. Não é fora de nós, mas é meio disforme e estranho, deixa pontas soltas e a gente não entende o que lá está mesmo por dentro. E sim, é esse monstro que ao mesmo tempo é meio cómico.
Se há coisa que Mistério da Cultura é, é irónico, profundamente humorístico, até na descrição do espectáculo: “um thriller burocrático dançado”. Mas afinal, como é que se dança a burocracia, e como é que isso ainda é um thriller? “Foi uma questão grande pensar qual é que seria esse corpo. Fizemos improvisações em torno disso, experimentámos ser bastante literais nessa coisa do suspense. Para mim, havia qualquer coisa de thriller no início, mas que não ficou tanto nos corpos, mas mais no ambiente do objecto”, conclui.
De David Marques
Em colaboração com Madeleine Fournier, Johann Nöhles, Nuno Pinheiro, Marco da Silva Ferreira, Francisco Rolo e Teresa Silva
TBA. Sex-Sáb 21.30, Dom 17.30. 5-12€.

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