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Eliades Ochoa
©DREliades Ochoa

De Cuba para o mundo. Uma conversa com Eliades Ochoa

Por
Luis Filipe Rodrigues
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Eliades Ochoa tocou com o Buena Vista Social Club e é um dos mais famosos músicos cubanos vivos. O cantor e compositor cubano actua segunda-feira no Teatro Tivoli BBVA.

O disco do Buena Vista Social Club foi gravado quase por acaso. Ry Cooder e Nick Gold, da editora World Circuit, tinham planeado ir para Havana com artistas do Mali, em 1996, e juntá-los a intérpretes locais para tocarem juntos e explorarem as semelhanças entre as músicas dos dois países. Só que os malianos não conseguiram os vistos necessários para entrarem em Cuba, e os gringos viram-se obrigados a gravar, apenas com os músicos locais, os discos de Afro-Cuban All Stars e Buena Vista Social Club. O resto é história.

Desde então, morreram muitos dos protagonistas do Buena Vista Social Club. Mas os sobreviventes têm percorrido o mundo, primeiro juntos e depois sozinhos. É o caso do veterano cantor e compositor Eliades Ochoa, a quem já chamaram “o Johnny Cash cubano”. Regressa a Lisboa na segunda-feira, para tocar no Teatro Tivoli BBVA, acompanhado pelo seu Grupo Patria. A mesma formação que o escoltou da primeira e única vez que se apresentou em nome próprio em Lisboa, em Agosto de 2008, no Centro Cultural de Belém.

Nascido em 1946, Eliades Ochoa pegou na guitarra pela primeira vez com seis anos. E ainda miúdo, aos 11, ganhou os primeiros trocos com a sua música: “cinco centavos”, recorda. A moedinha foi atirada para o seu chapéu, nas ruas de Santiago de Cuba, antes da revolução. Mais tarde, em 1963, começou a viver da sua arte. Profissionalizou-se e passou por vários grupos, antes de se juntar ao Cuarteto Patria. “Lidero o grupo desde 1978 e continuo a tocar com eles”, conta. “Foram eles que me acompanharam no meu novo disco.”

O disco chama-se Vamos a bailar un son e foi editado há um mês. Sem surpresas, é um disco de son cubano. Boa parte do mundo (re)descobriu esta música tradicional, com influências espanholas e africanas, através do Buena Vista Social Club. Eliades Ochoa, no entanto, sempre foi um apologista do género, e nunca esqueceu as suas raízes. Ao longo dos anos, manteve-se fiel ao son e ajudou a moldá-lo. Hoje, é um dos seus principais intérpretes e embaixadores.

No Teatro Tivoli BBVA, o caribenho vai tocar as canções de Vamos a bailar un son. “Se queres vender algo, tens de anunciá-lo. Tens de promover aquilo que queres que o público conheça”, assume o cantor e compositor. “E eu quero vender o meu disco, por isso vou tocar os temas novos.” Quando é confrontado com o legado do Buena Vista Social Club, e com o facto de ser isso que a maioria quer ouvir, reconhece que “o público quer que toque essas canções”. Essas e outras antigas dele, mais conhecidas. “Não posso dizer que não as toco, mas se tenho temas novos preciso de tocá-los.” É justo.

Quando é interrogado sobre a relação dos cubanos com as suas músicas tradicionais e com aquilo que se ouve e passa fora da ilha, ele parece desviar-se da pergunta. “As pessoas ouvem aquilo de que gostam”, considera. “Ouvem o son cubano e ouvem reggaeton e ouvem música merengue e ouvem os mexicanos. Cada ritmo tem o seu público.” Pouco depois, leva a conversa de volta para si. Afinal, há um concerto (e discos) para vender. “Também há muita gente que gosta do bolero, por exemplo. E mostraram-me isso quando gravei o disco Un Bolero Para Ti e recebi o Grammy [Latino]. O que é sinal que as pessoas aceitaram e gostaram do que fiz.”

Pergunta-se sobre a relação dos jovens com o son, e ele mais uma vez evita responder. Muda-se o ângulo e a abordagem: será que o son e outros ritmos cubanos continuarão em boas mãos quando os últimos músicos da geração do Buena Vista Social Club morrerem? Aqui há músicos com muita qualidade. Cuba é uma ilha musical.”

Em mais do que uma ocasião, tenta-se falar da realidade cubana, mas sem sucesso. “Não quero falar de política”, diz a dada altura. O embargo a Cuba, para ele, “é um problema do governo”. Sobre as formas como esse bloqueio afecta a população, ele prefere não falar. “A mim não me afectou, nem afecta, o embargo. Nem sei o que é isso, porque não é o meu trabalho. Eu faço música e posso tocar onde quiser.” Esta semana, quer tocar em Lisboa.

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