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uma declaração de amor à beira-Tejo
Helena Galvão Soares

Declaração de amor ou oferenda? Somos tão românticos que até vemos tudo trocado

Além de românticos, claramente somos também profundos desconhecedores de tudo o que tem a ver com despachos, macumbas, oferendas, orixás e outras palavras estranhas.

Por Editores da Time Out Lisboa
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Somos mesmo românticos. Vemos um ramo de flores, um chupa-chupa a dizer "adoro-te", uma garrafa de 50 euros de champanhe rosé Moët & Chandon e uma aliança com um V gravado, e o nosso coração dispara. Mesmo sendo tudo comprado num qualquer supermercado de Lisboa, e um pouco banal, nas nossas cabeças só há uma explicação: alguém está perdidamente apaixonado e precisa da nossa ajuda para conseguir o seu final feliz.

E somos também românticos na ideia vaga que temos do que sejam "oferendas". As que vimos em Monsanto e na Serra de Sintra, composições bonitas, de frutos e flores, e algum cozinhado, tudo cuidadosamente disposto, cercado de velas, também nos deixaram embevecidos: que bonito. Eram coisas tocantes que revelavam o empenho de quem as criou e escolheu meticulosamente cada elemento de acordo com a sua simbologia; o empenho de confeccionar um prato que tem um significado especial para uma daquelas divindades cujos nomes nos soam estranhos, e que escolhe para fazer a oferenda um local bonito, cheio de magia, no meio da natureza. 

E afinal, do outro lado do Atlântico, vem o esclarecimento: não é nada disso! Não entenderam nada! Era sexta-feira à noite, dois dias depois de acharmos que éramos os novos casamenteiros de Lisboa, quando percebemos que estávamos errados. Não era uma declaração de amor. Entre as mensagens e comentários que nos chegavam do Twitter, fomos percebendo o erro. “Quem conta?”, escrevia um utilizador. “Favor, não expliquem pra eles sobre o que é”, pedia outro. Afinal, não havia nada de romântico nesta história, e aquela composição à beira-rio era mesmo uma oferenda. Tornamo-nos virais pelo nosso engano e até o jornal O Globo se juntou à festa. “Quem imaginaria aqui [em] Portugal a @TimeOutLisboa famosa no Brasil por causa de um despacho? É a bandeira de Oxalá chegando, minha gente”, esclarecia-se ainda no Twitter. Quem imaginaria? Nós é que não, certamente.

Afinal, uma oferenda não tem de estar num local mágico e bonito, no meio da natureza – pode ser num paredão com carros estacionados onde as pessoas vão correr à beira-rio. As flores não têm de ser especiais nem estar dispostas de forma especial – pode ser um banal ramo de supermercado. "A pipoca ou doburu é o alimento ritual preferido de Omuluorixá que tem domínio sobre as doenças, detentor dos mistérios da vida e da morte", lemos num site sobre o assunto. Também podem ser de supermercado, não faz mal. E podemos fumar uma parte dos cigarros do maço que vamos oferecer ao orixá, e deixar lá as beatas, tudo ok. E a oferenda nem precisa de ter velas – mesmo com tudo comprado no supermercado e sem velas é oferenda na mesma.

Ficámos um bocadinho tristes com esta derrocada do misticismo que acreditávamos existir nas oferendas. Nada será como dantes. Mas vamos continuar a ser incorrigíveis românticos em relação a ramos de flores e garrafas de Moët & Chandon – para a próxima só temos de verificar se não está lá mais nada que atrapalhe a nossa teoria.

Não sabe do que estamos para aqui a falar? Espreite aqui a notícia original: Encontrámos uma declaração de amor à beira-Tejo. Para quem será?

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