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Deixe a tristeza para lá. No Flamma, a vida vai melhorar

Alessandra Borsato abriu em Campo de Ourique, junto ao mercado, um pequeno restaurante com espírito de neo-boteco e cozinha sem-fronteiras. Com espetadinhas e boa disposição, a chef brasileira está pronta para conquistar o bairro – e a cidade.

Hugo Torres
Escrito por
Hugo Torres
Director-adjunto, Time Out Portugal
Flamma
Rita Chantre | Alessandra Borsato, João Marujo e Júnia Helloisa
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Termos o Tim Maia a ecoar na cabeça é uma felicidade, que se sublinha com o assomo de uma imagem do cantor a sorrir com o rosto todo. Não é comum. Acontece quando o rei faz anos, quando nos deparamos com algo bom. Começa o trompete, o saxofone, a flauta, a guitarra filtrada pelo wah-wah e lá vem ele: “Que beleza é sentir a Natureza (...)/ Uh uh uh que beleza”. Depois passa e seguimos com a nossa vida. Tão cedo não voltará. Por isso, se estamos há quase duas horas a murmurar a canção, em ininterrupta sequência, é porque algo de muito especial se passa. O motivo? A carta do novo Flamma, toda a carta.

O restaurante de Alessandra Borsato em Campo de Ourique é uma alegria. É uma alegria a música, é uma alegria o ambiente contidamente conversador, é uma alegria a informalidade, é uma alegria a cerveja (Original, a pilsen da brasileira Antarctica, um achado em Lisboa), é uma alegria o vinho e, sobretudo, é uma alegria a comida – quase tudo a passar pelo fogo, quase tudo servido em espetadinhas. Como a chef vem de São Paulo, o primeiro instinto leva-nos para o churrasco brasileiro. E o ponto de partida até pode ser esse, mas o que aqui se come é uma mistura de influências nem sempre provável, reflexo do percurso de “Alê”.

A experiência anterior da chef em Portugal tinha sido no Senhor Uva, cozinha que comandou durante três anos. Ainda antes disso, tinha trabalhado com Alexandre Silva no Loco e no Time Out Market, de onde saiu para tirar um mestrado em cozinha no País Basco. “Como sou brasileira, é natural que as pessoas vejam espetinhos e imaginem uma experiência com feijão preto, um churrasco, coisa assim”, diz. Não é o caso. “É uma cozinha de autor, espetos criativos.” Alessandra garante “muita latinidade” na carta, mas sem fronteiras definidas: “Muitas coisas que não são só do Brasil, são do México, Peru, Colômbia, com o produto mais nacional possível.” 

Flamma
Rita ChantreFlamma

Tal como por cá assistimos ao fenómeno das neo-tascas, no Brasil são os neo-botecos que estão a elevar as experiências gastronómicas tradicionais. O Flamma bebe desse universo, embora Alessandra não aprecie a categorização, precisamente porque a sua cozinha não tem geografia, só imaginação, técnica e sabor. “De ambiente, sim: é mais neo-boteco. Mas não como cozinha. Como cozinha é liberdade mesmo”, afirma. De uma simples espetadinha de coração (3€) passa-se para uma de milho baby com emulsão de milho frito e tajin (4€, duas unidades), para outra de lula, manteiga de wagyu e pimenta calabresa (4,5€), ou para outra ainda de caranguejo de casca mole frito, escabeche de cebola nova e tamarindo (8€). 

Flamma
Rita ChantrePão, rosbife de presa de porco, pickles, gema cremosa

Viver em Campo de Ourique tem muitas vantagens. Desde que abriu portas, em Maio de 2025, numa esquina da Coelho da Rocha voltada para o mercado do bairro, o Flamma é seguramente uma delas. Os espetos que vão chegando à mesa parecem pequenos, mas não lhes falta proteína nem substância. Na visita da Time Out, para duas pessoas, foram duas entradas, sete pratos principais de espetadinhas e outro de sobremesa. Quando chegámos ao fim, há muito que a fome tinha dado lugar à gula. Parar é uma decisão difícil.

Flamma
Rita ChantreBónuelos (sonhos) de parmesão, pasta de caju e ali, copita

Antes de chegar ao fim, comecemos pelo princípio: o couvert. Pão de massa-mãe, para barrar com uma gema cremosa como se fosse manteiga, rosbife de presa de porco e espetadinha de picles – nesse dia, pepino-do-México e ovo de codorniz (4,5€). “Aqui, não temos medo da acidez”, atira Alessandra. “Acidez é vida!” Depois, vêm os boñuelos, receita colombiana de sonhos feita como pão de queijo, com bastante parmesão, pasta de caju e ají e copita, esta uma peça de charcutaria produzida com o cachaço do porco (5,50€). É então que arranca a prova de fogo, embora com uma estrela da carta que não vai ao carvão: os “secretos de atum” (7,50€). Um sashimi no espeto feito com atum balfegó, uma espécie pescada no País Basco, muito carnuda e de cor mais escura. Também no caso deste bicho é usado o cachaço. A textura é de carne. Serve-se com flocos de nori e molho nikkei. 

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Rita ChantreSecretos em sashimi de atum balfego, molho fresco nikkei

Nos principais, a carta tem nove opções fixas (3€-12€), a que acrescem duas especiais, disponíveis por curtos períodos de tempo. Na nossa visita, numa noite de chuva e frio, o espeto de gnocchi de mandioca (sim, no espeto), com pesto de amendoim e parmesão com 24 meses de cura, foi muito oportuno. O outro especial, de quiabo e sapateira, já não havia. Mas o de caranguejo, sim. Um crustáceo apanhado em países tropicais na muda da casca, sem o exosqueleto, e que por isso tem uma carapaça mole e é frito inteiro, panado, e servido com escabeche de cebola nova e tamarindo (8€). Delicioso e divertido. A espetada de coração de frango não falha, não poderia falhar. Vem com salsa anticuchera, uma marinada de origem peruana, e farofa brasileira (3€). Por fim, a espetada de xistorra alentejana (linguiça de tripa de porco), shokupan (o pão usado nas katsu-sando) e aioli fumado (5,8€).

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Rita ChantreLula, manteiga de wagyu, pimenta calabresa

Há também alguns pratos para acompanhar, picantes caseiros e, claro, as sobremesas – ananás dos Açores, caril doce e cocada cremosa (6€) e bolo de amêndoas, ganache caramelizada com miso de chícharos, fava tonka (6€). A lubrificar tudo isto, como manda o preceito de botequim, há cerveja, Heineken (1,80€-3,10€) e Original (4,20€), cachaça artesanal baiana (5€), cachaça envelhecida (14€), licor Cravo e Canela (5€) e um cocktail clássico brasileiro, o Rabo de Galo (6€), com cachaça, vermute, bitter e twist cítrico. Os vinhos são outra conversa. Escolhidos por João Marujo, a carta apresenta uma selecção criteriosa, exploradora, com referências de várias geografias e terroirs.

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Rita ChantreFlamma

Por norma, no Flamma encontramos Alessandra Borsato e Júnia Helloisa, que é quem está a trabalhar os espetos no fogo. Nas horas de serviço, a chef é a chefe de sala também. Nos dias de maior afluência, entra em cena um terceiro elemento. Ocasionalmente, há ainda um outro, precisamente João Marujo, sommelier e actualmente gestor operacional no Esporão. Alessandra e João são um casal, conheceram-se a trabalhar para Alexandre Silva, “há milhões de anos” (contas dela). “Toda a parte dos vinhos é dele. Eu vou aprendendo também”, diz a chef. Contudo, o que acontece quando João está presente é que os clientes recebem um serviço de vinhos muito superior àquele por que estão a pagar. Nível fine dining. No fundo, exactamente o que se passa com a comida dia sim, dia sim.

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Rita ChantreCaranguejo de casca mole frito, escabeche de cebola nova e tamarindo

“A ideia é descomplicar os bons produtos. Porque a gente pode ter bons produtos sem ter que ser muito fine dining, demasiado formal. É lógico que esses anos todos em que estive em Michelin ou em fine dining, lógico que isso não sai da gente e traz muita experiência”, observa a chef. Mas isso funciona tudo em background. “Quando estive em San Sebastián, para mim foi um divisor de águas. Vi vários chefs, estrelas Michelin, a descomplicar, a fazerem coisas incríveis com produtos maravilhosos. Pinchos, tapas, tudo o que possam imaginar. Isso mexia muito com a minha cabeça. Cara, é possível a gente descomplicar.” Voltando às neo-tascas e aos neo-botecos: “Muita, muita, muita qualidade de produto, mas de uma forma muito descomplicada, mais na cena dos petiscos e tudo o mais”.

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Rita ChantreCerveja Original

O Flamma é um cruzamento entre esses dois mundos. É descontraído, low profile, funciona bem para chegar cedo e petiscar, chegar tarde e petiscar, fazer um jantar mais substancial, ou mesmo um menu de degustação, para uma experiência gastronómica completa (basta pedir). “Essa é a liberdade que eu acho gostosa.” Um liberdade que também vem de o Flamma ser 100% independente. “Não há investidores. Zero, zero. E a ideia é permanecer assim. Por mais que cresçamos um bocadinho em estrutura, a ideia é ser sempre cozy, lembrar um pouco os botecos brasileiros e ter esse aconchego da música e da comida.” O único defeito do Flamma? Sairmos de lá a cheirar a fumo. Mas vale bem a pena.

Rua Coelho da Rocha, 110 (Campo de Ourique). Qui-Sáb e Seg 18.30-23.30, Dom 13.00-22.30

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A nova lista dos melhores restaurantes de Lisboa está aí – são 100 mesas onde fomos felizes e queremos voltar, entre novidades e clássicos, cozinha portuguesa e do mundo, tascas e estrelas Michelin. Por falar em estrelas Michelin – a Gala aproxima-se e nós já sabemos alguns detalhes sobre a cerimónia de 10 de Março. Antes disso, aconteceu o relançamento de Henrique Sá Pessoa fora do grupo Plateform – o chef espera nada menos do que duas estrelas no novo restaurante e também refrescou a sua proposta no Time Out Market.

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