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Dr Bernard BoaVida
Mariana Valle Lima

Dr Bernard abriu um restaurante em Lisboa, mas os olhos continuam na Caparica

Leonor Godinho é a chef deste Dr Bernard BoaVida, um restaurante cheio de pinta onde é possível comer durante todo o dia.

Escrito por
Cláudia Lima Carvalho
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Não há praia à vista nem é preciso. A irreverência e a boa onda que tomam conta da Costa da Caparica há três anos, no Dr Bernard, instalou-se em Lisboa também. Quem passa no n.º 119 da Rua dos Poços Negros não fica indiferente, quem entra não sai a correr. Chamam à atenção as cores, o rosa choque que delineia o restaurante, o axadrezado do tecto que se estende às paredes, os néones aqui e ali, e umas escadas coloridas que dão acesso a uma mezzanine onde nada parece combinar mas tudo bate certo. Atrás do balcão, Leonor Godinho, a chef que no Verão anunciou a saída da Musa da Bica. É que se o Dr Bernard na Costa da Caparica é uma série de coisas numa só (de restaurante a escola de surf), o Dr Bernard BoaVida quer ser apenas um restaurante, embora não um restaurante qualquer.

Dr Bernard BoaVida
Mariana Valle Lima

“Sou muito Caparica, mas tinha muitas pessoas a dizer que não conseguiam ir para a Caparica sempre, que tínhamos de abrir em Lisboa. Resisti durante três anos porque gosto de ser um rapaz da praia, de não ter de vir para Lisboa, gosto da comunidade lá”, começa por contar o francês Gregory Bernard, explicando que o seu objectivo sempre foi levar as pessoas para a outra margem do Tejo e não o contrário. Continua a ser, aliás. À primeira vista, parece uma contradição, no entanto abrir agora em Lisboa é só mais um passo nesse sentido. “Estamos basicamente a tentar tornar este espaço numa porta de entrada para a Caparica”, diz, enquanto aponta para uma fotografia na parede do espaço em frente à Praia do Norte. Quem nunca foi ao Dr Bernard depressa perceberá aqui a vibe do que o espera do outro lado. “E talvez no futuro tenha um shuttle aqui. Vens, tens um bom almoço, está sol e apanhas um shuttle para a Caparica onde podes ir surfar. É como se fosse um ponto de encontro antes da praia.”

Ao contrário da Costa da Caparica, Gregory não quer dispersar em Lisboa. O foco é mesmo a comida. “Se abríssemos em Lisboa tínhamos de compensar a vista bonita, a praia e o mar e trazer mais alguma coisa. E eu queria mesmo trabalhar com uma grande chef e claro que queria trabalhar com uma mulher porque temos uma forte de equipa de mulheres poderosas”, continua o responsável. Leonor Godinho foi uma escolha natural, diz, apesar de ter sido difícil de convencer. “Já a conhecíamos de alguns pop-ups. Eu gosto mesmo da comida dela e acho que tem tudo a ver com o nosso ADN. Ela é muito séria e profissional, é muito talentosa, mas também é muito rock’n’roll e muito maluca. Foi um match muito bom.”

Dr Bernard BoaVida
Mariana Valle LimaLeonor Godinho

O que travava então Leonor Godinho? “Tinha algumas condições que queria estabelecer para a maneira como íamos trabalhar.” O equilíbrio entre vida profissional e pessoal nunca foram uma questão para Gregory. Ninguém melhor do que ele para perceber a importância de manter a mente sã – o francês instalou-se na Costa da Caparica em 2018 quando decidiu mudar de vida, deixando a indústria do cinema, em prol da sua saúde mental. Leonor Godinho não mudou propriamente de vida, mas queria voltar ao registo de restaurante e não de um bar onde se petisca. 

O compromisso entre os dois resultou num restaurante que está aberto de quinta-feira a segunda-feira com uma cozinha que entre as 12.00 e as 22.00 nunca pára. “Vamos estar a servir comida o dia inteiro. Podes vir às cinco da tarde e almoçar, o que é uma coisa que não tens – e eu adoro comer fora de horas. Podes chegar às cinco da tarde e comer um coelho”, aponta a chef. 

Dr Bernard BoaVida
Mariana Valle LimaCoelho da Isaura

Quanda fala em coelho, Leonor Godinho fala da receita da avó que aqui reproduz, um prato a que chamou Coelho da Isaura (12€) e que acompanha com um arroz de grelos (mais caseiro é difícil). 

O menu, diz, ainda não está acabado, talvez nunca esteja, visto que vai mudando conforme a época e aquilo que os produtores têm. “Estou a trabalhar muito com produtores pequenos, tipo Val das Dúvidas, Hortelão do Oeste, compro os cogumelos ao Tiago Sena, trabalho com o Mercado da Ribeira. Tenho cuidado porque há uma grande diferença”, acrescenta a chef. 

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Mariana Valle LimaGnocchi de abóbora com burrata, maple, salva e toucinho de porco preto

Por agora, além do coelho, tem ainda um lírio curado com pastinaca e mizunas (8€), um puré de batata com ovo, cogumelos selvagens e queijo de ovelha (7,5€), e uns gnocchi de abóbora com burrata, maple, salva e toucinho de porco preto (10€). Antes disso, o couvert (5€) dita a experiência: chips de kale, grão frito e especiarias, paté de fígados de frango e puré de cogumelos e ainda umas bolinhas de queijo e chucrute. Para a sobremesa, uma  tatin de dióspiro (4,5€) – é aproveitar enquanto é época. 

Na hora de escolher o que beber, entregue-se às sugestões de vinhos naturais (4,5€/copo) e não sairá desiludido. 

“Estamos focados realmente na comida e na qualidade. Já há várias coisas a acontecer aqui à volta e por isso queremos ter um restaurante especial”, defende Gregory, para quem este Dr Bernard é um constante trabalho em progresso, pelo menos no que à decoração diz respeito. “É importante que as pessoas sintam que estão num sítio completamente diferente.”

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Mariana Valle LimaGregory Bernard

Muito em breve, talvez na próxima semana, já exista um caldo verde e um pão com chouriço, tudo pelas mãos de Leonor Godinho, apesar de poder não ser a chef a servi-lo. É o tal compromisso para que o trabalho na cozinha não consuma a vida de Godinho. “Vamos ter umas opções como essas e queijos fundidos que o bar pode preparar para se alguém aparecer aqui depois das 22.30 e quiser mesmo comer.” A promessa é a de que não será um caldo verde ou um pão com chouriço qualquer.

Rua dos Poços Negros 119 (São Bento). Qui 11.30-00.00. Sex-Dom 11.30-01.00. Seg 11.30-00.00

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