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Noite, Discoteca, Incógnito
©Duarte DragoIncógnito

E agora? o que vai acontecer à noite?

Por Clara Silva
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O futuro de bares e discotecas é incerto e por enquanto aumentam os DJ sets online – e também o consumo de substâncias ilícitas em casa. Falámos com especialistas que estão a avaliar os impactos da pandemia no sector.

A Covid-19 trouxe “uma bomba”, e definir estratégias “um terramoto”, para a vida nocturna das cidades. Quem o diz é um dos responsáveis pela LX Nights (que, por razões laborais, prefere não ser identificado), uma rede informal de investigadores que se dedica a estudar vários aspectos da noite de Lisboa.

Antes da pandemia, o foco era a “turistificação”, um dos grandes impulsionadores da noite de Lisboa e do Porto, tal como “o aumento significativo de estudantes estrangeiros” nas cidades universitárias.

Agora, o novo coronavírus trouxe outras preocupações. Nos próximos dias a LX Nights, a funcionar desde 2011, quando a noite era “uma resposta” à crise económica, vai lançar um inquérito online para avaliar os verdadeiros impactos no sector.

O estudo é transversal e destina-se a frequentadores e trabalhadores da noite, empresários e proprietários de estabelecimentos ou promotores, com perguntas tendo em conta “o passado [como era o negócio antes da pandemia], o presente [movimentações durante a quarentena] e o futuro [se pensam abandonar o lazer nocturno, por exemplo]”.

Em Berlim, 250 discotecas uniram-se com o propósito de angariar fundos durante a quarentena para os DJs e trabalhadores da noite que ficaram sem trabalho através do site United We Stream (unitedwestream.berlin), com streamings de DJ sets dos principais clubes da cidade – já angariaram mais de 500 mil euros.

Por cá, apesar dos vários sets em directo de discotecas de referência como o Lux Frágil, em Lisboa, ou o Plano B, no Porto, ainda não há nenhum crowdfunding a decorrer. “Face ao tipo de dinâmica que existia, marcada por turistas e estudantes universitários – o grosso do público da noite de Lisboa e Porto –, tenho dificuldade em achar que esses frequentadores estariam dispostos a contribuir para um negócio ou um artista com o qual não têm uma relação directa”, opina um dos dinamizadores da LX Nights.

Por enquanto, as festas têm acontecido em casa – e até festivais. No mês passado, a Fuse organizou um festival gratuito de quatro dias de electrónica inteiramente online. “Mantemo-nos ocupados, os artistas mantêm-se ocupados e é uma plataforma de divulgação de música”, dizia na altura Luís Baptista, responsável pela editora e promotora nacional prestes a comemorar nove anos. “Não há retorno financeiro, mas contribuímos um pouco para esta situação da quarentena.”

Com as novas dinâmicas de festa, aumentam também os consumos de substâncias ilícitas noutros contextos. Na semana passada a Kosmicare lançou outro inquérito em Portugal - em colaboração com duas associações em Espanha e Itália - para avaliar os comportamentos de consumo nestes países durante a quarentena. "Mudou o contexto de consumo", confirma a psilologa Cristina Vale Pires, uma das responsáveis da Kosmicare. “Já não é em festas nem em grupo, é em casa, sozinhos ou em pequenos grupos, mediados pelas plataformas digitais.”

A Kosmicare, que começou em 2002 com uma pequena banca de aconselhamento no Boom Festival, ganhou no ano passado um espaço físico em Lisboa com vários serviços, tendo em vista a redução de danos de consumo, um deles o “drug checking”, para avaliar a pureza das substâncias, que continua activo durante a pandemia, mas tem sido pouco procurado.

“Sabemos que há mais consumo de álcool, que as pessoas continuam a consumir substâncias ilícitas em festas em streaming, sabemos que há quem tenha mais tempo e por isso quer ter experiências com substâncias psicadélicas”, continua Cristiana. Além de querer conhecer precocemente as novas dinâmicas de consumo, o objectivo do estudo é avaliar o impacto na oferta de drogas, no preço e na sua adulteração. Por exemplo, “já sabemos que as pessoas estão com problemas em encontrar canábis”.

Fora das festas e dos festivais, a Kosmicare tem dado aconselhamento – sempre “não moralista”, sublinha Cristiana – nas redes sociais. Pelo menos, até voltarem para o terreno, sabe-se lá quando.

“A visão que temos do futuro é muito incerta”, diz um dos membros da LX Nights. “Acho que em termos percentuais, será muito mais grave a situação nos estabelecimentos nocturnos do que nos próprios restaurantes.”

Pode responder ao inquérito da Kosmicare em https://worldlaboratories.org/limesurvey/index.php/767423

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