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E se uma peça de teatro nos fizer repensar a forma como gerimos o tempo?

Conversations out of place
Bernhard Müller

Conversations out of place é a mais recente peça da criadora Ivana Müller, que passa pelo D. Maria II estes sábado e domingo. Uma produção sustentável que sugere mais tempo para estar, ser.

Duas mulheres e dois homens numa floresta. De mochila às costas, movem-se em slowmotion, como se aquele fosse o seu tempo – ou o tempo daquele lugar –, conversam sobre filosofia, sobre a Europa, reflectem sobre filmes e realizadores, sobre a resistência do estômago dos vietnamitas, sobre a possibilidade de já não existirem comboios na Grécia, sobre se se comeriam uns aos outros se não existisse outra possibilidade de alimento, fazem jogos diversos como o eu-nunca ou o-que-parece-esta-paisagem.

E parecem sentir que já ali estiveram, ou seja, ou estão perdidos ou o mundo, até na floresta, parece todo demasiado igual. Conversations out of place é a mais recente criação da coreógrafa, encenadora, artista plástica e autora croata Ivana Müller, que, através de uma alegoria na natureza, reflecte sobre a ecologia e sobre o tempo. Passa pelo Teatro Nacional D. Maria II (TNDMII) este sábado e domingo.

“Comecei este trabalho em 2016, o gatilho foi reflectir na ideia de ecologia e como podemos pensar nela no contexto do teatro ou da representação. As bases do teatro são muito pouco ecológicas, quantos kilowatts gastamos para iluminar os nossos palcos, fazer digressão e os transportes e combustíveis que gastamos, por aí”, explica-nos a artista que garante ter efectivado a ecologia através da ideia de reciclagem. Como? Há pelo menos um elemento de todas as suas peças neste espectáculo, quer seja o movimento slowmotion (que já utilizou noutra ocasião), quer seja os raros e simples elementos cenográficos que saem das mochilas dos quatro performers, tudo “numa espécie de ideia sustentável de produção”.

Passam dias, meses, anos, e percebemos que esse lugar que eventualmente estariam à procura é uma ilusão, a impossibilidade do fim, do último nível: “A ideia é que não existe um sítio assim, um sítio final, esse sítio está sempre a ser reconstruído pela forma como olham uns para os outros, pelas experiências que vivem. Nós, humanos, construímos representações de ideias e lugares, e essa construção não é fixa, está sempre a evoluir e a mudar. Portanto não existe esse sítio que sempre procurámos, é um conceito, é a noção de tempo e a redefinição constante desse lugar, do olhar, que existe”, garante Ivana Müller.

E o que também está bem patente em Conversations out of place é que essa constante redefinição não significa viver numa cidade diferente a cada ano. Resistir é ficar no mesmo sítio, estarmos mais cá e menos na nossa cabeça, e tentar contaminar a nossa envolvente, como afirma Ivana: “A parte mais política desta proposta é a relação com o tempo. O que tenho tentado fazer é esticar o tempo, criar tempo, estamos todos numa espécie de programa do fim do tempo, o fim do mundo, essa catástrofe, mas é também a questão da percepção, se conseguirmos estar mais no momento, se conseguirmos, por exemplo, num teatro, esticar o tempo para uma noção conjunta da coisa, de todos os envolvidos, teremos mais tempo para ser, para pensar, para partilhar”. Seja na floresta, seja na civilização.

TNDMII. Sáb-Dom 19.00. 9-16€.

Texto, concepção e coreografia Ivana Müller
Com Anne Lenglet, Hélène Iratchet, Julien Lacroix e Vincent Weber

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