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Ed Motta: “Não quero vender-me na minha arte”

Ed Motta
©Stefano Martino

Na mala cabem três décadas de carreira e 16 discos de originais, pautados por uma elasticidade que o leva do jazz à electrónica, mas Ed Motta não quer ficar por aqui. O músico brasileiro, que passa pelo Capitólio esta segunda-feira, discute a música que faz e ouve, os tempos e a forma como nunca abdicou da liberdade criativa.

Entrar na cabeça de um melómano é sempre uma tarefa ingrata. A música discute-se como um jardim de prazeres plenos onde cada acorde é identificado e cada arranjo devolvido ao respectivo autor, sem pontas soltas ou descuidos eufóricos de “nunca ninguém fez isto antes”. Ed Motta é um melómano. O cicerone da modernidade que guarda no passado todas as referências que lhe fazem a música do presente e do futuro, contidas numa colecção pessoal que ultrapassa os trinta mil discos. “É uma necessidade de comunicação que eu tenho. Não só a colecção de discos mas a colecção de filmes também. Vejo um filme por dia e quando descanso vejo dois. Mas geralmente vejo-o porque gosto de ler sobre o filme depois, pesquisar”.

A obsessão com o passado é omnipresente e ele justifica-a com a qualidade. Não é que a música de agora não lhe sirva ao ouvido ou que a sensação nostálgica seja assoberbante. É crónico. “Em 1988 eu já não ouvia música daquela época, era sempre o mote: o menino de 16 anos que não gosta dos anos 80. Eram essas as chamadas de imprensa. Imagina com 47, estou muito pior”. Isso levou-o a um percurso nem sempre consensual com o público da pátria verde, azul e amarela. Para uns, Ed Motta é a personificação da arrogância, um artista nas fileiras da MPB que ousou experimentar. Para outros, a fluidez estilística e a profundidade melódica são recortes que o colocam ao lado dos grandes.

A relação com os sons chegou cedo, aos 15, e cimentou-se aos 17, na altura com a Conexão Japeri, o primeiro projecto que integrou. A estética tocava o pop, o funk e a soul, uma mescla que havia de reproduzir tantas outras vezes ao longo de 16 discos, embebida em referências como Earth, Wind & Fire, Stevie Wonder ou Steely Dan, o mesmo Steely Dan que em Aja lhe resume a existência. “Se tiver que escolher um disco só, é esse. Está tudo ali, tudo o que amo, tem soul, pop, rock, jazz, letras sarcásticas, ácidas, histórias estranhas, parece um filme do Cassavetes, situações que não são confortáveis, os textos não são confortáveis. É o que eu tento quando escrevo, causar situações ligeiramente desconfortáveis”.

Mas a indústria mudou e a música seguiu-lhe o compasso. “A coisa que se perdeu depois dos anos 80, principalmente por influência da cultura punk, foi o elemento da composição. Fazer uma canção, construir uma música com parte A, B, C, com harmonias, acordes, melodias, um texto interessante”.

O “texto”, aliás, foi sempre tema. Nas canções que faz chegar, tudo o que ouvimos, à excepção da parte rítmica, transporta-nos a uma paisagem que não obedece necessariamente a uma ordem. “O texto pode estar presente em algumas coisas, não exactamente numa poética mais simplista, mas faz parte do dia-a-dia das pessoas. Mas acho que a música perdeu bastante o seu significado. A seguir ao punk, a cultura da música electrónica, do hip-hop, tudo isso afasta a ideia inicial, a língua franca, perdeu-se”.

“Tem muito hipster que adora jazz e que nunca ouviu”

Contudo, a contemporaneidade não está totalmente desfeita. Sassetti, por exemplo, chegou-lhe com surpresa e admiração. “A música do Bernardo Sassetti tem uma raiz forte na música de banda sonora de cinema, na música portuguesa tradicional. Isso interessa-me”, diz. Já no hip-hop, o multi-instrumentista reconhece a importância da mensagem e até a contribuição que o sampling possa ter trazido no apontar do holofote a nomes que se perderam no tempo, mas não chega. “Os artistas que o hip-hop samplou estão struggling para sempre, e quem está com a casa cheia de dinheiro é o Jay Z ou o Kanye. Não sei até que ponto é que isso é bom, na medida em que eles não são músicos, e o músico a quem eles vão tirar a ideia está a tocar num bar em Pasadena por 50 dólares a noite, tendo que sofrer para viver”.

O jazz também sofre, mas aqui Motta acredita tratar-se de outro problema. “Há pensadores super-radicais, como o Wynton Marsalis – e eu não concordo com ele, apesar de achar o ponto de vista interessante – que acredita que o jazz morreu nos anos 60 com o hard bop”. Para ele, “o jazz tem uma sub-vida agora, com essa fusão da ideia de hip-hop e jazz, e uma atitude misturada também. Então tem muito hipster que adora jazz e que nunca ouviu jazz na vida. É kinda hipster gostar de jazz. ‘Adoro jazz, adoro spiritual jazz’, e a forma como isso é absorvido é hipster, volátil, tem menos profundidade de causa”.

A conversa move-se para o trabalho e para a satisfação ao longo do percurso. Perto do meio século de vida, o músico tem no currículo – além das aventuras pelos discos –, contribuições para teatro ou cinema. “Gostei muito de ter feito a música para o 7 – O Musical com Cláudio Botelho e Charles Möeller. Tive muita alegria, foi uma realização importante, um desafio, e foi feito na régua, dentro do que se espera num musical Broadway. Fora isso, gosto muito dos meus últimos três discos, que fiz com o selo alemão [Membran]”.

“Gosto das coisas que fiz sem precisar de um compromisso e com a sorte de estar fora de uma grande gravadora”, continua. “Isso deu-me a sorte de poder fazer exactamente o que eu quero. Só tive de fazer o que não queria uma vez na vida e não foi assim tão grave, não doeu assim tanto: O Manual Prático Para Bailes e Afins que é um disco que chegou a platina”, atira.

“Quando fazes o que não queres vendes mais, isso é certo. A vida tem que dar alguma coisa em troca, que é dinheiro. Por isso é que se vê tanto pop star junkie, alcoólatra, etc. O sujeito tem dinheiro mas está infeliz artisticamente, caso tenha algum tipo de anseio artístico. Eu sempre tive, sempre gostei mais da arte do que de dinheiro. Não que não goste de dinheiro, adoro dinheiro, preciso dele para as coisas que gosto, então é um conflito. Gosto de ir para Paris, beber vinho, isso não é barato, mas também adoro arte, não quero vender-me na minha arte”.

E assim tem sido, num equilíbrio nem sempre fácil de caminhar. Do passado, onde teve a sorte de encontrar poucas barreiras, naquilo que considera uma “época facilitada” da indústria, ao presente, onde o streaming é quem mais ordena. “O grande mérito da humanidade neste período é essa democracia cultural que traz um Spotify. Para quem está interessado em pesquisar o que está fora da superfície, mergulhar mais fundo na piscina, tem muita coisa lá. É um período democraticamente cultural”.

Por entre polémicas e associações gastas a outros nomes do panorama musical brasileiro, Ed Motta sai da parede e responde em melodia, com todas as feridas que um disco possa trazer. E ele traz. Esta segunda-feira é o Capitólio que se enche com o último trabalho, Criterion of The Senses, para que também nós possamos fazer parte da democracia cultural dele.

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