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Palco, Performance, O Bom Combate, Edna Jaime
©Mariano SilvaO Bom Combate de Edna Jaime

Edna Jaime encena ‘O Bom Combate’ do povo moçambicano no D. Maria II

A coreógrafa de Maputo estreia-se em Portugal com o espectáculo ‘O Bom Combate’, criado em 2016 num contexto de particular instabilidade política em Moçambique.

Por Mariana Duarte
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A “resiliência” e a “integridade” do povo moçambicano perante um cenário generalizado de hostilidade, corrupção e violação dos direitos humanos é âncora deste trabalho, interpretado a solo pela artista de Maputo a partir de danças e músicas tradicionais do seu país. Numa altura em que Moçambique enfrenta uma crise humanitária em Cabo Delgado, esta peça ganha redobrada pertinência. “O meu corpo dá alma e voz aos gritos de socorro de Cabo Delgado”, diz a coreógrafa Edna Jaime em conversa com a Time Out.

Quais foram os pontos de partida para criar O Bom Combate?
O Bom Combate surge em 2016 quando Moçambique atravessava uma crise económica e social relacionada com escândalos económicos e políticos. Observar e admirar a resiliência dos moçambicanos ao atravessar essa época crítica, mantendo-se dignos e fiéis sem mergulhar na onda de corrupção e “negociatas” para ganhar a vida e sustento familiar, inspirou-me a criar esta obra coreográfica e homenagear estas pessoas comuns da minha sociedade. Permanecer honesto numa altura em que existia todo tipo de crise foi um acto heróico e merecia a minha vénia. O meu povo combateu “o bom combate” e muitos seguem combatendo diariamente.

Diz que esta criação é um “eco das lutas diárias”. Que lutas são essas?
A luta para ter pão na mesa todos os dias, sendo que tudo havia subido de preço. A luta para enfrentar a carência de transportes em Moçambique, mais especialmente em Maputo, onde vivo. A luta por causa da falta de segurança, devido a hostilidades políticas que havia na altura. A luta de viver num país com sistemas de saúde e educação muito frágeis, mais as questões de rapto e tráfico humano. Manter-se íntegro e honesto no meio de tantas dificuldades não é tarefa fácil no meu país e creio que existem muitos mais combates assim noutras sociedades.

Palco, Performance, O Bom Combate, Edna Jaime
©Mariano Silva

De que forma é que a actual situação em Cabo Delgado encontra eco nesta peça, apesar de ela ter sido criada em 2016?
A peça já havia sido criada num contexto de instabilidade política. E, com a actual situação em Cabo Delgado, naturalmente ganha maior eco. Este trabalho é o reflexo das vivências do quotidiano do meu povo e ao longo destes anos tudo o que vai acontecendo no meu país me influencia como ser humano, como cidadã moçambicana e como artista. O meu corpo fala automaticamente o que sente a minha alma ao ver e viver uma realidade de tamanha insegurança e mutilação dos direitos humanos.

Que vocabulários de movimento e músicas tradicionais moçambicanos são integrados no espectáculo?
Eu uso muito exercícios de improvisação e composição em contratempo entre a dança e a música para criar o vocabulário que uso na peça. São usados ritmos e movimentos base da etnia chope e ndau, às quais pertenço, mas também é usada uma cadência muito rara de pele de cobra que só se encontra normalmente em Cabo Delgado e que é usada na tão conhecida dança Mapiko e Ukapela Bai, cujas bases também uso.

Teatro Nacional D. Maria II. Quinta e sexta às 19.30. 11€

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