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Em Alfama até os estendais se alugam

Em Alfama até os estendais se alugam

O Minipreço deu vales de compra aos moradores que estendem publicidade nas suas varandas. A iniciativa gerou burburinho e fomos averiguar se as molas ficaram bem presas aos lençóis.

Em Alfama, tudo parece continuar na mesma. Há fregueses rua acima, rua abaixo. Turistas em abundância, maravilhados com as casas toscas, seus miradouros e diminuta população autóctone. Mas nas varandas já não se contemplam apenas simples peças de roupa calejadas pelo uso diário. O Minipreço lançou na passada quinta-feira uma campanha em que os estendais dos moradores são usados para fazer publicidade a produtos da cadeia de supermercados. Em troca, recebem vales de compras para ajudar nos gastos com a alimentação. Nas redes sociais, o projecto causou alguma indignação, levando o grupo Fórum Cidadania Lx a pronunciar-se contra a medida. A junta de Santa Maria Maior questionou a forma como o processo foi conduzido. Apesar da contestação, há a pretensão de que a medida seja alargada a outros bairros históricos do país.

Mas vamos por partes. Para celebrar o 40.º aniversário, a cadeia de supermercados que pertence ao grupo DIA Portugal juntou-se à APPA (Associação do Património e População de Alfama) e à agência de publicidade Nossa, e criou o Estende a Renda, para ajudar “os moradores a lutar contra a subida das rendas”, lê-se no comunicado enviado. Na Rua da Regueira, por exemplo, o primeiro andar do número 28 dá conta de que o leite da marca DIA custa apenas 0,42 cêntimos, até 29 de Setembro. Mas encontram-se mais estendais com publicidade na Rua do Vigário e na Rua dos Remédios, num total de 12 varandas.

Fotografia: Inês Félix

Quem usa a sua varanda para fazer esta publicidade recebe um vale de 50 euros para gastar num supermercado Minipreço. Esta é, segundo a Nossa, uma forma de ajudar “os moradores de Alfama a aumentarem a sua disponibilidade financeira com vales de compras”.

Bruno Palma, membro do Fórum Cidadania Lx, considera a iniciativa “indecorosa”. “Não é este o caminho da requalificação urbana” de Alfama, defende, acrescentando que esta campanha “é o resultado de haver uma grande distância entre quem gere e o público”. “Estão a falar línguas diferentes.”

À Time Out, o presidente de Santa Maria Maior, Miguel Coelho, diz não ter sido contactado por nenhuma das partes envolvidas — Minipreço, Nossa e APPA. E levanta, inclusivamente, algumas questões. Será este tipo de publicidade “compatível com aquele bairro histórico”? Será do interesse dos munícipes “que todas as varandas tenham este tipo de publicidade”? Estas são interrogações que deixam o autarca preocupado por não saber se “é compatível com o edificado do património, muitas vezes mal-tratado”. Por fim, resta saber um outro detalhe: a campanha será passível de pedido de licenciamento à junta? Miguel Coelho não tem certezas quanto a esta questão, mas confessa-se “surpreendido” com o sucedido.

Fotografia: Inês Félix

No site da campanha, porém, defende-se que esta é “uma rede de anúncios estendidos contra a gentrificação”, tendo-se criado uma rede de publicidade “com base num ícone típico dos bairros lisboetas: os estendais”. Em Alfama a iniciativa termina domingo.

FIlipe Pontes, ex-autarca da junta da Sé (designação dada à área antes da reforma administrativa das freguesias) recorda um episódio semelhante na zona na altura das festas populares. Em 2011, quando a cidade e o bairro estavam longe do problema da gentrificação que vivem actualmente, o município proibiu alguma publicidade por ser excessiva e não estar licenciada. Agora, considera que, apesar da índole benemérita e criativa da acção, deveria “haver uma intervenção da Câmara Municipal de Lisboa para regular a situação”. “A questão que se coloca é se queremos preservar o bairro.”

Já a APPA diz ter actuado apenas como mediadora entre a agência e os moradores.

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