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Música, Organista, Diogo Rato Pombo
©Gabriell VieiraDiogo Rato Pombo

Escola de música da Penha de França inaugura aulas num órgão de tubos

Uma histórica escola de música de Lisboa vai arrancar o ano lectivo com aulas num órgão de igreja. Fomos entrevistar o professor que lhe deu uma aula sobre património nacional.

Escrito por
Renata Lima Lobo
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Não é um instrumento tão popular como o piano, que empresta sempre a ideia de alguma classe a quem o toca, ou como a guitarra, mais portátil e popular entre quem almeja ser o próximo Jimmy Hendrix da cena musical. Mas no início deste ano lectivo, todos podem pensar em dar uma oportunidade a um instrumento que faz parte do património musical português: o órgão. Não um órgão qualquer, o de tubos. O Instituto de Música Vitorino Matono (IMVM), com mais de meio século, dá aulas na Igreja de São Francisco de Assis. E qualquer pessoa se pode inscrever.

Trata-se de um “órgão a sério”, em oposição aos electrónicos, como o descreve Diogo Rato Pombo, professor de órgão, músico e organista titular na Igreja Paroquial de Linda-a-Velha. O instrumento que toca foi construído por Dinarte Machado, o mesmo mestre que concebeu o instrumento principal da igreja que visitámos e o responsável, por exemplo, pelo restauro dos seis órgãos da Basílica do Palácio Nacional de Mafra – entre muitas outras dezenas de órgãos históricos –, um conjunto único no mundo e um ex-líbris da escola de organaria portuguesa, que lhe valeu em 2011 o Prémio APOM, atribuído pela Associação Portuguesa de Museologia, e o Prémio Europa Nostra em 2012, os prémios europeus do património cultural. Apesar de mais pequeno, menos vistoso e mais moderno que os históricos órgãos nacionais, o órgão de tubos que se encontra nesta igreja inaugurada em 2002 na Rua Lopes, próxima do Alto de São João, é uma aposta mais do que segura para quem se quiser inscrever nas aulas do IMVM. Uma escola que apesar de também apostar no ensino articulado para os mais novos, tem as portas abertas a alunos de todas as idades.

Igreja, Igreja de São Francisco de Assis
©Gabriell Vieira

“É sempre preferível um aluno aprender nestes órgãos”, defende Diogo, para quem é urgente recuperar a tradição organista em Portugal. Neste momento, 60% dos alunos do instituto escolhem o piano como instrumento de aprendizagem. O professor identifica dois problemas principais para o órgão ser preterido: não há muitos órgãos funcionais e não há interesse dos alunos. Um piano é mais fácil de ter em casa – mais portátil, se pensarmos na versão electrónica, e mais barato. Um órgão de tubos “pequeno” não se encontra ou constrói por menos de 50 mil euros, o que acaba também por desmotivar novas aquisições ou o restauro de órgãos de tubos abandonados um pouco por todo o país. “O problema é que são instrumentos dispendiosos e quando estão parados estragam-se, como os carros. Têm de ter utilização e manutenção. Quem toca e quem constrói também deve estar em sintonia, como o piloto e o mecânico do carro. Tem de haver uma simbiose entre organeiros e organistas”, diz o professor, que não se cansa de defender este património nacional. “É possível aproximar a data de construção de um órgão através dos materiais e técnicas utilizadas. É um instrumento que nos traz a nossa identidade, são testemunhos físicos que indicam a história do próprio local. São documentos musicais e também históricos. Em Portugal há uma fortíssima tradição de órgãos, sobretudo posteriores ao terramoto de 1755. Temos muitos e muito bons. Mas muitos estão mortos”, lamenta.

A mecânica da coisa

O órgão que o mestre Dinarte construiu para a Igreja de São Francisco de Assis tem muito que se lhe diga. Diogo deu-nos uma aula não de música, mas da mecânica do instrumento. Começou por ligar um ventilador eléctrico que insufla o ar para um fole que, por sua vez, conduz ao secreto (caixa hermética) anexo ao someiro (caixa localizada em baixo dos tubos) e começou a lição. “Há algo de físico num órgão de tubos, não é um computador a produzir o som de forma artificial. Imagine centenas de flautas de bisel, de formas e tamanhos diferentes, sobre uma caixa de ar”, começa por explicar. Este em particular tem influência da organaria portuguesa, mas é composto por dois teclados manuais e um pedal, em oposição à tradição nacional, que aposta num único conjunto de teclas, dividido entre o Dó e o Dó sustenido. No entanto, junto aos manípulos que se vão puxando para obter diferentes sons, há nomenclaturas bem portuguesas. Por exemplo, um tubo de tipo “flautado” e de tamanho 12, uma medição feita em palmos e não em pés, como em França.

O som que sai do instrumento é definido pelo organista, que pode juntar vários, mais agudos, ou mais graves, consoante a peça que estiver a tocar. E não há dois órgãos iguais, porque a localização é crucial. “São instrumentos que dependem do local onde estão instalados, a finalidade importa”, explica o professor, que sublinha que a intonação e a harmonização dos tubos de cada órgão é adaptada ao espaço. “Este é um instrumento versátil e bem construído.”

IMVM. Rua Morais Soares, 47. 1º e 5º andar. 21 814 9522. Mensalidade, aulas individuais. 1x por semana 110€ (45m) e 160€ (1h). Inscrição: 55€

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