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Acção de limpeza da Graça
Mariana Valle LimaAcção de limpeza da Graça

Este protesto é uma limpeza

Um grupo de cidadãos desafiou os alfacinhas a pegar nas vassouras e nas pás, numa acção de limpeza, mas também de protesto. Falámos com a ideóloga desta iniciativa.

Escrito por
Renata Lima Lobo
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Na quinta-feira, 1 de Setembro, um grupo de cidadãos saiu à rua munido de pás, vassouras, sacos do lixo e toda a parafernália necessária para declarar luta à sujidade nas ruas, em prol da higiene urbana. E da sua própria saúde. Não são profissionais da limpeza, mas estão fartos da insalubridade que tem tomado conta do bairro da Graça, o primeiro a receber esta iniciativa que não faz parte de um movimento ou instituição. É simplesmente chamada “Acção de limpeza da Graça” – e mais podem estar a caminho, noutros bairros de Lisboa. Uma iniciativa cidadã, impulsionada pela moradora Ana Reis, com quem falámos pelo telefone.

“O objectivo é dar o alerta”, começa por explicar Ana, residente na Graça desde 2014 e que tem assistido a um aumento de lixo depositado no espaço público, não só no seu bairro, mas um pouco por toda a cidade. “Eu ando muito de transportes, a pé e de bicicleta e é geral em toda a geografia de Lisboa”, lamenta. Por isso, decidiu arregaçar as mangas e passar à acção. Com um grupo de mais três amigas, moradoras noutros bairros que também precisam de higienização, decidiu começar a passar a palavra, ou melhor, panfletos a desafiar para uma acção de limpeza que envolverá toda a sociedade civil que se queira juntar a uma iniciativa que não só quer devolver a dignidade às ruas da cidade, como apelar à responsabilidade de todos. Cidadãos e instituições responsáveis pela higiene urbana, como as Juntas de Freguesia e a Câmara Municipal de Lisboa (CML).

Mas mesmo antes de começar, a iniciativa parece já ter gerado alguns frutos. O ponto de encontro estava marcado em frente à Voz do Operário e estava planeado seguir pela Rua Diogo Couto, Rua Bica do Sapato e Rua da Verónica. Só que “a Junta de Freguesia tem limpado essas ruas do percurso”, adiantou Ana. Coincidência ou não, a verdade é que há mais ruas a precisar de mimos e a actividade tomará o seu curso, seja ele qual for.

A sensibilização dos moradores é um dos objectivos traçados pelo núcleo duro desta limpeza, através de acções de sensibilização. “Somos todos responsáveis, tem de haver regras e civismo em coisas tão ordinárias como atirar as beatas para o chão”, defende a mulher, que também não se cala quando vê pessoas a urinar no espaço público. “Mando sempre uma crítica directa a dizer que é uma vergonha, mas muitos acham que é normal”, lamenta. No entanto, Ana sublinha que não se pode descartar a responsabilidade das autoridades responsáveis, que não só têm sob sua alçada a tarefa de manter as ruas limpas, como, na sua opinião, poderiam desenvolver mais campanhas de sensibilização, além de disponibilizarem mais WC públicos ou cinzeiros na via pública. “Nada do que estamos a fazer desresponsabiliza as autoridades. É uma chamada de atenção à Câmara Municipal de Lisboa e Juntas de Freguesia que não estão a gerir [a limpeza urbana] de forma ágil”, diz Ana que, ao mesmo tempo, não quer que os cidadãos sejam “uma arma de arremesso” do poder local. “Se como cidadãos não exercermos pressão, não fazemos chegar as nossas vozes”.

Acção de limpeza da Graça
Mariana Valle LimaAcção de limpeza da Graça

Desde 2014 que testemunhou um “agravamento muito acentuado” do lixo no espaço público. Por um lado, Ana acredita que se deve à pressão turística de bairros onde existem monumentos, eventos regulares ou cruzeiros a atracar por perto, como é o caso da Freguesia de São Vicente, onde se insere o bairro da Graça. “As infraestruturas não são suficientes para a quantidade de turistas que temos actualmente e não temos condições de salubridade mínima.”

Ana sublinha ainda que esta iniciativa não é partidária e a organização rejeita qualquer tipo de aproveitamento político. E avisa que não se considera proprietária da ideia. É, aliás, sua vontade que mais cidadãos façam o mesmo noutras latitudes da cidade e mais além. “Têm entrado em contacto comigo pessoas da Reboleira. Perguntam quando vamos lá, mas eu não sou uma entidade, uma instituição”, diz, revelando algum ânimo por haver interesse de pessoas de outros concelhos. Arroios, Penha de França e Santa Maria Maior (onde residem as amigas que a estão a ajudar nesta aventura) poderão ser as próximas áreas a receber acções de limpeza deste tal núcleo duro que só quer ver as ruas mais limpas. Quem não tiver tempo para agarrar na vassoura e juntar-se ao grupo, pode sempre ajudar de uma forma mais simples: não deitar lixo para o chão e não deixar os sacos do lixo na rua, fora de contentores e em horários pouco apropriados.

Como é que isto funciona?
O actual “Regulamento de gestão de resíduos, limpeza e higiene urbana de Lisboa” diz que são as Juntas de Freguesia as responsáveis pela “lavagem, varredura e despejo de papeleiras na cidade”, estando tudo o resto sob a alçada do município, da recolha ao encaminhamento. Em Julho, a CML transferiu 10,2 milhões de euros para as Juntas de Freguesia no âmbito do contrato de delegação de competências da higiene urbana e assegurou também a contratação de mais 160 cantoneiros de limpeza e 30 motoristas, assim como o reforço das equipas de sensibilização e fiscalização e ainda a renovação da frota. Mas, segundo o regulamento, os “utilizadores” não estão livres de obrigações, tais como: “Não abandonar os resíduos na via pública ou noutros locais não adequados; acondicionar correctamente os resíduos, fechando-os hermeticamente de modo a evitar o respectivo derrame, cheiros insalubres e que ocupem o menor volume possível; cumprir as regras de deposição/separação dos resíduos urbanos”, entre muitos outros pontos. E se não souber qual o sistema de recolha de lixo na sua área de residência, pode sempre consultar um mapa que lhe dá as coordenadas. Toda a informação e documentação está disponível aqui.

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