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Rei da Cachupa
Duarte Drago

Experiências pós-confinamento: a descoberta da cachupa do Fox Coffee – O Rei da Cachupa

A cachupa, um dos grandes pratos da cozinha cabo-verdiana, ocupou a Praça do Chile.

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Toda a gente tem o seu prato favorito para curar a ressaca. O meu é cachupa. Tive uma empregada doméstica, minha grande amiga cabo-verdiana, que a fazia de forma estupenda. Pedia-lhe para cozinhar grandes tachadas e depois congelava-a em unidoses. No dia a seguir a uma intoxicação alcoólica, era só pegar num tachinho – micro-ondas, jamais –, colocar um fundo de água e atirar lá para dentro a cachupa. No final, um ovo estrelado por cima e, se as condições o permitissem, dose extra de picante.

Para que a cachupa fizesse o máximo efeito, devia primeiro deixar o estômago esvaziar-se de todas as impurezas líquidas acumuladas na véspera. Acordava e não metia nada na boca, ficava à espera que aquele buraco intestinal aumentasse. Ao primeiro ronco vindo das profundezas do organismo sabia que estava na hora. À medida que a cachupa entrava no aparelho digestivo desaparecia o hálito a álcool, desaparecia a dor de cabeça, desaparecia a fraqueza. Era como se os feijões e o milho expulsassem o veneno, ocupando o seu lugar com o vigor que se lhes conhece.

A cachupa de carne da Maria Antónia – quando a Maria Antónia estava inspirada e não a deixava pegar ao tacho –, levava atum de conserva no molho. Era, de longe, a melhor cachupa. O atum esfarelava-se e desaparecia no refogado, dando-lhe uma complexidade única. Outras versões de cachupa que comi ao longo da vida não tinham atum, mas tinham suplementos, servidos à parte, como batata doce ou peixe frito. Eram boas, mas não tão boas como a da Maria Antónia.

Talvez por isso a cachupa de que mais gostei no Fox Coffee tenha sido a de peixe. A cachupa de peixe é muito tradicional e popular em Cabo Verde, ao contrário do que alguns possam pensar. No Fox leva casca de curgete
e é bastante boa. Vem com o milho perfeito, com aquela consistência rijinha do milho branco cozido, e tem feijão congo e feijoca (esta pareceu-me de lata). O atum é servido em troços, que podiam estar menos secos.

As outras cachupas do Fox são de carne, de frango e vegetariana. O menu ostenta também uma de bacalhau, mas deve ser mesmo só ostentação, porque em ambas as visitas nem vê-la.

Fox Coffee "O Rei da Cachupa"

 

©Duarte Drago

 

Provei também a refogada de carne, prato de véspera frito na frigideira com cebola e ovo a cavalo, mais seca e potente. O ovo, claro, fica uma delícia ali, por cima de pedaços de chispe e enchidos (pena o chouriço ser daquele cor de laranja a que a indústria chama corrente mas devia chamar bosta).

Gostei também bastante da cachupa de “frango do campo”, talvez porque mais leve, a deixar as leguminosas e o molho picante da casa (bem saboroso) brilharem.

À parte de uns pastéis de atum fritos, de entrada, também muito bons, nada mais vale a pena comer. Numa das visitas, experimentei um bife, anunciado como da vazia, e foi uma desgraça. Nem era da vazia, nem as suas batatas fritas eram de batata, mas dessas farinhentas congeladas. Perante o reparo, António Fox, proprietário – professor de fitness e modelo – esteve espirituoso. “Pois, isto é o Rei da Cachupa...”, atirou, revirando os olhos como quem diz: “Isto não é o rei do bife da vazia, ó palerma.” Vai buscar.

Pela primeira vez em muitas críticas, não toquei na sobremesa. A única que se anunciou era um cheesecake de frutos vermelhos. Que cheesecake? “Industrial”. Industrial de onde? “Veio do Algarve.” Preze-se a honestidade, mas passo. A justificação para a falha foi o regresso de férias. Dias depois, noutra visita, o regresso de férias continuava a fazer-se sentir: doces “cabo-verdianos” nada, nem mesmo a mousse de manga da casa.

Comi sempre na esplanada, mas a sala interior está muito confortável e bem posta. As mesas na calçada são agradáveis, mas já levavam uma demão.

Em síntese. Rei da Cachupa talvez seja um apelido excessivo, mas a verdade é que na cidade de Lisboa é raro encontrar-se uma cachupa tão boa. Houve falhas de atenção, um ou outro tacho não chegou quente, mas valeu bem a visita, sempre com gente simpática a atender e boa música cabo-verdiana.

Maria Antónia, ainda assim, destronaria António Fox.

Rua António Pedro, 173 (Arroios). Ter-Sáb 10.00- 23.00, Dom 10.00-17.00. Preço: 15€

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