Notícias / Teatro e artes performativas

"Fausto" é a radiografia do país

Fausto
D.R.

O novo espectáculo da mala voadora celebra os 25 anos do CCB com uma obra-prima que convoca Portugal para cena, a estrear esta quarta. Toda a gente quer participar.  

Depois disto nada será como antes. Um jornalista diz-nos que nada será como antes, vejam bem. Isto porque daqui vai surgir uma obra-prima, aliás, o jornalista está aqui para cobrir essa obra-prima, que a companhia portuense mala voadora vem fazer ao Grande Auditório do CCB pelas comemorações dos 25 anos da instituição.

E bem sabemos o que significa fazer uma obra-prima, essa coisa da totalidade, da perfeição, de um batalhão de figurantes, de jornalistas a cobrir o evento mediático, o exagero dos figurinos e da cenografia, no fundo, um tudo-à-grande que requer mundos e fundos, que logicamente o CCB não tem: “A ideia é a de uma companhia de teatro que queria fazer um espectáculo que fosse uma obra-prima e pedia ao CCB para co-produzir e a falta de dinheiro dessa instituição levava a contactar diversos ministérios para que pudessem desbloquear essa verba. E a Luísa Taveira, tendo em conta esta efeméride do aniversário do CCB, achou que era ideal fazer este projecto neste contexto”, esclarece Jorge Andrade, que assina o texto e a direcção.

Primeiro a preparação: conferências de imprensa que antecedem o espectáculo que teima em não arrancar. Ao que parece – sim, que em Fausto o melhor é acautelarmo-nos perante a imprevisibilidade da coisa – os artistas andam reunidos com os diferentes ministérios para garantir apoios de variadas formas, de tal forma que depois da reunião com o Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social aparecem 50 figurantes em palco. Desempregados que eram trabalhadores do lixo, informáticos, publicistas, engenheiros, todos sem trabalho que, por ordem do Ministério, se apresentam ao trabalho. Já o Ministério da Saúde cede materiais de hospital e fardas e em troca pede que os doentes em fila de espera, que não têm cama em nenhum hospital da Grande Lisboa, possam ficar no palco da peça. A Direcção-Geral do Património Cultural envia a Torres dos Clérigos por camião e a cúpula do Palácio da Pena por helicóptero. São muito os ministérios e entidades que decidem apoiar a grande obra.

Ao mesmo tempo, num estúdio televisivo ali ao lado, os actores discutem as questões éticas por detrás deste fenómeno, sim, porque “depressa se percebe que quem não entrar no espectáculo não tem papel no país”, explica Jorge Andrade.

Fausto tem 20% do Orçamento do Estado, portanto imagine-se a dimensão do espectáculo. E o nome vem, ao que parece – não esquecer de repetir esta expressão – de um ditador-encenador que quer a genialidade a todo o custo, mesmo que isso signifique virar Portugal ao contrário: “Ele está disposto a vender a sua alma ao diabo para atingir a perfeição, ou o conhecimento, ou a mulher-amada, ou o projecto científico. E neste caso acabámos por fazer uma coisa que é um retrato do país e que muito pouco depois de artístico poderá ter. Fazemos uma representação do real como se não soubéssemos que a arte existe para inventar aquilo que não existe”, afirma.

Às tantas, Fausto lá arranca. E apesar dos tumultos, esperemos que tudo se componha. E que se cantem os parabéns ao CCB, claro.

Texto e direcção Jorge Andrade. Cenografia José Capela. Com Anabela Almeida, Carla Bolito, David Pereira Bastos, João Vicente, Manuel Moreira, Marco Mendonça, Maria Ana Filipe, Mónica Garnel, Tânia Alves, Vítor d’Andrade

CCB. Qua-Sex 21.00. Sáb 16.00. 13-23€.

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