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Parque Silva Porto, Fulvio Capurso, Esculturas
©DRFulvio Capurso

Fomos à procura dos Story Tellers do italiano Fulvio Capurso em Benfica

O arquitecto, ilustrador e escultor italiano criou uma narrativa imersiva, potenciada pela tecnologia, no Parque Silva Porto, em Benfica.

Escrito por
Helena Galvão Soares
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Miaaaauu! Um grande gato cinzento listado, elegante e lustroso, está à entrada do Parque Silva Porto, em Benfica. E vai reaparecer, miaaau aqui, miaaau ali, por entre os arbustos, numa curva, por trás de uma árvore, a fitar-nos enquanto andamos à descoberta dos Story Tellers, personagens que Fulvio Capurso criou e foi semeando pelo parque. Fará o bichano parte da história? É difícil pensar que não, até porque a primeira personagem que encontramos é precisamente uma menina a ler um livro – com um gato ao lado.

São oito as figuras espalhadas pelo parque, que encontramos com a ajuda de um mapa que fotografámos à entrada. É uma ajuda essencial, mas não corta o prazer da descoberta: as pequenas esculturas em metal oxidado, no seu castanho salpicado de tonalidades, estão bem camufladas no meio dos troncos e folhagem das árvores. Outras vezes damos com elas em locais mais insuspeitos: no topo de um poste, numa vedação, num telhado, num muro.

Na história que estas figuras nos contam, há crianças hipnotizadas pela leitura e outras que parecem já se ter tornado na personagem principal da narrativa: um menino empoleirado numa cerca empunha um monóculo para ver o que se passa no horizonte; outro num muro chama os amigos para entrarem por uma janela; outros três discutem o que se passa no livro (ou será um mapa do tesouro?).

Esta intervenção é uma iniciativa da Junta de Freguesia de Benfica, em parceria com a Galeria de Arte Urbana e a Bedeteca de Lisboa, que é a responsável pelo outro lado da instalação. Junto a cada figura encontra-se um QR code que nos dá acesso a pequenas biografias e PDFs de pranchas de autores de BD portugueses de diferentes épocas: Rafael Bordalo Pinheiro, Carlos Botelho, Sérgio Luís, Eduardo Teixeira Coelho, José Ruy, Isabel Lobinho, Fernando Relvas e Nuno Saraiva, cujas obras podem ser lidas na Bedeteca.

Não há ligação entre as personagens Story Tellers e os autores de BD, que aliás irão mudar de três em três meses ao longo de três anos: “Eles são só pequenos leitores que convidam quem anda pelo parque a descobrir estes conteúdos. É uma maneira de difundir a cultura da banda desenhada, que anda um pouco perdida e tem bastante valor”, explica Fulvio Capurso.

Parque Silva Porto, Fulvio Capurso, Esculturas
©DR

QR é ok, mas realidade aumentada é que era

“O Story Tellers é um filho do BooksOnWall”, continua Fulvio, arquitecto, ilustrador e escultor italiano – e co-fundador deste colectivo multidisciplinar sediado no Uruguai que cria narrativas imersivas através da arte e da tecnologia em percursos urbanos. “O Story Tellers é uma versão mais fácil de fazer, quando não há orçamento para um grande projecto. Usa só QR codes, não utiliza a realidade aumentada, que permite misturar o digital e o real, como o BooksOnWall.”

Duas características fundamentais destacam o BooksOnWall: o colectivo de programadores desenvolveu uma aplicação de software livre, que permite que outros colectivos e artistas possam usar o código; e os conteúdos têm a ver com o lugar onde são apresentados, não são algo trazido de fora. “Em Montevideu trabalhámos com músicos locais, a história fala da música do lugar – um lugar onde nasceu o candombe [património imaterial da humanidade], uma espécie de batucada que vem dos escravos negros –, tem escritores do bairro, as vozes são de meninos do bairro, houve uma integração do projecto e da comunidade que fez uma coisa revolucionária”, descreve.

Em Montevideu, há um mapa no telemóvel que geolocaliza os pontos onde estão as esculturas e os murais onde vemos as animações quando apontamos a câmara; entre os pontos, para não se perder o fio narrativo do conto, existe um áudio que a pessoa pode ouvir até encontrar outro objecto. Neste momento o equipa no Uruguai está a melhorar a aplicação para conseguir detectar a aproximação das pessoas a um determinado ponto e interagir com som, tipo: "Pssst, olha aqui para cima!".

Fulvio está há dois anos em Portugal, mas enfim: pandemia. Nada que o tenha feito baixar os braços. Tem um atelier com outros designers e artistas (@mariadezasseis), continua a preparar projectos para apresentar a entidades publicas e privadas, e perto de sua casa começou já a criar murais e a espalhar esculturas que hão-de entrar num futuro conto. Ora vá espreitar o que já se passa na Praça da Armada, em Alcântara, perto do restaurante Ruvida.

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