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Gabrielle Zevin: “A forma como nos vemos influencia as nossas criações”

‘De Amanhã em Amanhã’ fala-nos sobre processos criativos, amor e a brevidade da vida. E poderá vir a ser adaptado ao grande ecrã. Falámos com a autora, Gabrielle Zevin.

Raquel Dias da Silva
Jornalista, Time Out Lisboa
Gabrielle Zevin
© Hans CanosaGabrielle Zevin
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Gabrielle Zevin era ainda adolescente – tinha apenas 14 anos – quando começou a escrever críticas de música para o jornal norte-americano Sun-Sentinel. Licenciada em Harvard, estreou-se na literatura em 2005, aos 27 anos, com Margarettown (ainda sem tradução para português). Seguiram-se mais sete livros, incluindo o mais recente Tomorrow, and Tomorrow, and Tomorrow (De Amanhã em Amanhã, na edição portuguesa da ASA), que poderá vir a ser adaptado ao grande ecrã pela Paramount, que adquiriu os direitos por mais de um milhão e 800 mil euros. Eleito como Melhor Livro de Ficção dos Prémios Goodreads de 2022 e considerado um dos melhores livros do ano por várias publicações especializadas, como as revistas Kirkus e Publishers Weekly, o romance acompanha o percurso de vida de Sam Masur e Sadie Green, dois jovens apaixonados por videojogos que, antes mesmo de completarem 25 anos, alcançam fama e fortuna com o seu primeiro lançamento para computador.

“Há uma cena [em De Amanhã em Amanhã] a partir do ponto de vista da Sadie, que fala sobre como, quando és autor ou qualquer tipo de criativo, há durante muito tempo um intervalo significativo entre o que são os teus gostos e o que são as tuas habilidades. E isso é algo que eu própria vivenciei. E, sinceramente, a única coisa a fazer nesse período é, bem, fazeres o que tens a fazer”, diz-nos Gabrielle Zevin. “Não estou a dizer que os meus livros anteriores não são bons ou que não lhes dei tudo de mim ou que não contribuíram para desenvolver a minha escrita, mas pessoalmente não senti que sabia de facto fazê-lo até este romance. E sei que é estranho dizê-lo, porque o faço há alguns anos; é só que, não sei, foi assim que me senti”, confessa a autora, antes de lamentar a pressão incutida aos escritores desde a primeira publicação. “Há aquela ideia de que, se vais publicar pela primeira vez, tens de estar pronto para algo como White Teeth, [a estreia literária] de Zadie Smith [galardoada com o Guardian First Book Award, o Whitbread First Novel Award e o The Betty Trask Award].”

Ambientado num lugar imaginário no interior de Nova Iorque, habitado apenas por mulheres chamadas Margaret, Margarettown não lhe valeu nenhum prémio: apenas uma indicação ao Otherwise, originalmente conhecido como James Tiptree Jr., que distingue obras de ficção científica e fantasia que expandem ou exploram a compreensão dos leitores sobre o conceito de género. “Às vezes, [a primeira coisa que fazemos] não nos leva necessariamente a uma carreira interessante e, na maior parte das vezes, a coisa mais interessante que as pessoas escrevem surge depois de sete, oito, nove, dez tentativas”, avisa. “Claro que, se lerem os meus livros, encontram certas temáticas ou coisas sobre as quais estou a aprender ou a processar, que estão, de certa forma, presentes em todos.” A problemática da identidade, por exemplo. Zevin – que nasceu nos EUA, mas é filha de uma imigrante coreana e tem ascendência asquenaze, russa, lituana e polaca – já a tinha abordado no seu primeiro livro, mas as suas inquietações vão ainda mais longe em De Amanhã em Amanhã.

Quem somos, como é que os outros nos vêem, qual o nosso lugar no mundo, como é que decidimos viver a vida e se nos deixamos ou não afectar pela opinião dos outros. Todas estas questões estão presentes no livro. Por um lado, porque há personagens ásio-americanas, que lidam diariamente com racismo sistémico e a sua própria dúvida sobre a que lugar e cultura pertencem. Por outro, porque ambos os protagonistas têm falta de auto-estima e até dificuldade em reivindicar o seu espaço e as suas conquistas, em particular Sadie, que se confronta várias vezes com os desafios de trabalhar como designer de videojogos numa indústria dominada por homens. “Achei que seria interessante explorar a forma como nos vemos a nós mesmos afecta as coisas que fazemos, e como as fazemos”, partilha. “Há ainda uma cena no livro em que Sam fala sobre a primeira vez que visitou Koreatown, em Los Angeles, e como há pessoas coreanas por todo o lado. A sério, Koreatown é enorme! E eu tive essa mesma experiência, de imaginar como teria sido se tivesse sido criada num lugar onde todos são asiáticos.”

Gabrielle Zevin
De Amanhã em Amanhã, de Gabrielle ZevinEdições ASA. 496 pp. 19,95€

Quando começou a sua carreira, Zevin queria escrever personagens que fossem o mais diferentes de si possível. Mas, ao longo dos anos, tem-se sentido mais confiante na sua pele e com o mundo, que está cada vez mais aberto a diferentes pontos de vista. “[Caso contrário] nunca me teria ocorrido colocar uma pessoa meio judia, meio coreana, com uma deficiência [motora], no centro de uma narrativa”, confidencia-nos, revelando ainda que, ao pensar sobre quem gosta de videojogos e as diferentes razões porque as pessoas gostam de jogos no geral, imaginou logo alguém para quem a possibilidade de viver noutros mundos e ser uma versão melhorada de si mesma fosse de facto importante. Para Sam, por exemplo, tem a ver com a sua experiência de quase morte e as sequelas físicas com que ainda sofre. “Quando penso nele, penso como a maior parte das pessoas fisicamente aptas acham que isso nunca lhes acontecerá, e a verdade é que só revelam falta de imaginação, porque é possível e pode ser genético ou simplesmente acontecer-te. Eu queria falar sobre isso, como a falibilidade [a probabilidade de errarmos ou de as coisas não correrem como planeámos] é inevitável, especialmente no que diz respeito ao nosso corpo, que não funciona bem para toda a vida. Negar isso é negar o que significa ser humano.”

Em De Amanhã em Amanhã, a problemática da falha humana e do fracasso em geral é largamente explorada, inclusive no contexto do processo criativo. “Quando estava a falar do livro ao meu agente, disse ‘é um livro sobre falhar’, e ele respondeu-me ‘podemos por favor não dizer isso?’”, conta-nos Zevin, por entre risos. “Mas, pessoalmente, quando me sinto bem comigo mesma como ser humano ou como uma artista que também é um ser humano, é quando descubro como falhar melhor. É também por isso que este livro é sobre pessoas criativas no geral, pessoas que tentam fazer coisas diante de um universo incerto e imperfeito. Quer dizer, as pessoas têm defeitos, o mundo é um caixote de lixo a arder mas, dito isso, a única coisa que podemos fazer é amar-nos uns aos outros e fazer coisas. Não estou a dizer que o meu agente não tinha razão em promovê-lo como um livro sobre amor, arte, videojogos e tempo. É de facto sobre amor, arte, videojogos e tempo, mas também sobre fracasso. Hoje em dia, temos plataformas como o Instagram que não nos deixam falhar em público de uma forma honesta, porque mesmo quando falhamos é performativo, e é por isso que temos muito pouca prática em falar sobre fracasso de uma forma saudável”, lamenta, antes de chamar a atenção para o quão perigosa pode ser a necessidade de validação.

De Amanhã em Amanhã
DRSadie Green é uma das protagonistas de ‘De Amanhã em Amanhã’, de Gabrielle Zevin

Sadie Green, a protagonista feminina do seu romance, é o exemplo perfeito de uma jovem na casa dos 20 absolutamente vulnerável à opinião e pressão de terceiros. O seu professor preferido, por exemplo. Se por um lado, Dov a incentiva a investir no seu talento e a apoia durante todo o seu percurso como designer de jogos; por outro, também a aprisiona num relacionamento tóxico, com uma dinâmica de poderes desequilibrada, que a impede de se conhecer a si própria e de se sentir segura como mulher e profissional. “Durante muito tempo, ela procura sentir que está no caminho certo a fazer a coisa certa, e é difícil parar de querer isso [mesmo quando sabemos que é essa a razão para não estarmos a avançar].” Ter o apoio das pessoas certas pode ajudar. “Como criativa tenho descoberto que, quanto mais escrevo, mais valorizo todas as outras pessoas que, desde a edição ao marketing, fazem parte do processo, e isso tem tudo a ver com o personagem do Marx [que se tem tornado um favorito dos leitores]. Ele é todo o amor que tenho pelos meus editores e todas as pessoas com quem tenho vindo a colaborar e, enfim, a quem agradeço nos meus livros”, diz-nos. “Há pouco estava numa outra entrevista e estavam a dizer-me ‘escrever romances é realmente um processo solitário, muito solitário’ e eu estava a pensar ‘bem, sim, é solitário. Até deixar de ser’.”

De Amanhã em Amanhã, de Gabrielle Zevin. Edições ASA. 496 pp. 19,95€

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