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Georgia: um festim de partilha onde não há pratos principais

É um negócio de família com o nome do país onde dois irmãos nasceram. É para comer sem regras, à medida que os pratos vão chegando, carregados de nozes e romãs.

Andreia Costa
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Andreia Costa
Georgia
Rita Chantre | Georgia
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Não há entradas nem pratos principais. Tudo é para partilhar à medida que vai chegando à mesa. É assim no país de origem dos proprietários e é assim no restaurante que decidiram abrir em Lisboa no final de Outubro de 2025. “Na Geórgia, a mesa é montada com 30 ou 40 pratos e cada um come o que quiser. Aqui tínhamos de fazer como fazemos em casa”, explica à Time Out Jaba Somkhishvili.

O empresário vive em Portugal há 26 anos, sempre trabalhou em restauração e, apesar de já ter tido um espaço próprio no Bairro Alto há cerca de uma década, foi com a chegada do irmão, Giorgi, e da cunhada, Tamari Tabatadze, há quatro anos, que começou a pensar abrir um restaurante realmente familiar.  “Na Geórgia, o meu irmão tinha uma empresa de elevadores e a minha cunhada estava em casa, mas sempre cozinhou para a família.” É, por isso, dela a responsabilidade de preparar tudo o que está na carta, enquanto os irmãos gerem a parte mais visível do espaço com capacidade para 26 pessoas.

Um balcão tradicional e memórias de família nas paredes

O bar, de frente para a porta, tem um azul vivo e uns recortes tradicionais que recriam uma varanda típica – também lá estão as telhas, no topo – que foi totalmente construída por Giorgi.

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Rita ChantreA decoração do Georgia veio mesmo da Geórgia
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Rita ChantreAs paredes do Georgia estão forradas com tecidos, roupa e brinquedos tradicionais

A decoração veio da Geórgia: no Verão passado, Jaba regressou de lá com tecidos, bonecos e instrumentos tradicionais. São eles que enfeitam as paredes – e até os tectos, uma vez que os candeeiros estão vestidos com roupas tradicionais. Além disso, em várias molduras estão fatos do sobrinho, Papuna, que era bailarino de danças tradicionais e que agora está responsável pelo bar. Numa fotografia logo à entrada é possível vê-lo em palco, quando tinha apenas seis ou sete anos.

Na cozinha, tudo é feito na hora e as receitas não tiveram qualquer adaptação para agradar ao paladar português. “Se adaptássemos já não era georgiano. Quando estás a abrir uma coisa típica, tens de estar preparado para ter pessoas que gostem e outras não.”

Um pão em forma de barco e dumplings para comer à mão

Começando pelo básico, há pão georgiano com tomate, requeijão e hortelã (8€) e adjaruli (18€) – um pão em forma de barco, recheado com queijo, manteiga e ovo, feito aqui mesmo. O ovo chega por misturar, como numa açorda, sendo envolvido com o queijo e a manteiga já à frente do cliente. E agora, como é comemos isto? O ideal é tirar um pouco de pão das bordas e molhá-lo no recheio. No final, só há-de restar a carcaça amolecida pelo queijo (ou seja, a melhor parte). 

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Rita ChantreO adjaruli do Georgia
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Rita ChantreO colorido pkhaleuli do Georgia

Numa travessa chega o colorido pkhaleuli (18€), com três bolas feitas de espinafres, beterraba e alho francês. No centro há beringela e pimentos recheados com nozes. Tudo é salpicado com romã e acompanhado com bolinhos de milho. Uma imensidão de sabores e frescura num só prato – este é daqueles que vai ficar vazio num instante.

Para os apreciadores de carne há tolma (16€), carne mista picada com arroz revestido em folha de videira e embebido em iogurte e alho; ou sacivi (18€), frango braseado com molho de nozes, açafrão e romã. Os khinkali (15€) são uma espécie de dumpling com carne mista, alho, coentros e cebola. Chegam em doses de cinco e são enormes, portanto há que seguir as seguintes instruções: “Come-se com as mãos. Pegamos na parte mais estreita, viramo-lo ao contrário e trincamos. Sugamos o molho, se não vai escorrer-nos para as mãos, e depois é só continuar a dar pequenas trincas”.

Também existem opções vegetarianas, caso do bebos lobio (12€), feijão refogado com tomate e coentros, ou da salada kakhuri (10€), com tomate, pepino, cebolinho, nozes e romã.

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Rita ChantreOs khinkali comem-se com as mãos

Muitos dos ingredientes, como as especiarias e o queijo, vêm da Georgia. Assim como o vinho. “Há muita produção de vinho lá. Sabiam que a Georgia é o país onde nasceu o vinho, há oito mil anos?” 

Não sabiamos e, com isso, ganhámos mais um motivo para provar as opções da carta. Nos brancos há pirosmani rkatsiteli (7€ o copo e 30€ a garrafa) ou alazani rkatsiteli (36€); nos tintos saperavi dry (8€ o copo e 32€ a garrafa); e nos rosés o pom-pom (7€ o copo e 28€ a garrafa).

Impronunciáveis, mas deliciosos

Se achava que os nomes ficavam mais fáceis de dizer a partir daqui, desengane-se. Nas sobremesas, o pelamushi (5€) é um dos mais apreciados. É feito com sumo de uva natural, engrossado com farinha de trigo, e leva nozes. O Torti de khinkali com frutos vermelhos (9€) é como um dumpling, mas aberto. No centro tem um bolo fofo e húmido, com creme de baunilha e frutos vermelhos. 

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Rita ChantreEntre as sobremesas do Georgia está este Torti de khinkali com frutos vermelhos

No final do ano passado, num concurso de Gastronomia Intercultural, organizado pela Câmara Municipal de Oeiras, o Georgia ficou em primeiro lugar entre 25 países participantes, um certificado que exibem com orgulho numa das paredes. Um dos objectivos é mesmo o de mostrar mais da cultura do seu país, mas Jaba orgulha-se de encher as mesas do restaurante com clientes portugueses, além de russos, ucranianos e, claro, georgianos. “A parte mais difícil é mesmo dizerem o nome dos pratos, mas estamos cá para ensinar”, promete. 

Rua de São João da Mata, 46. Qua-Sáb 12.00-15.00 e 19.00-00.00, Dom 12.00-16.00 e Ter 19.00-00.00

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