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Guilherme Geirinhas “agiganta” os próprios medos em ‘Vai Correr Tudo Bem’

O humorista abre o livro da sua saúde mental numa websérie semi-biográfica que estreia no YouTube este domingo. Rogério Casanova co-assina o argumento.

Renata Lima Lobo
Escrito por
Renata Lima Lobo
Jornalista
Guilherme Geirinhas
©DRGuilherme Geirinhas, em 'Vai Correr Tudo Bem'
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Guilherme Geirinhas é humorista, cronista e sportinguista. É também obsessivo-compulsivo e criador da websérie Vai Tudo Correr Bem, cujo argumento co-assina com Rogério Casanova, misteriosa personalidade que escreve semanalmente no jornal Público. Os cinco episódios estreiam este domingo, dia 26, no canal de Geirinhas no YouTube, numa produção da KILT. Esta é uma agência especializada em eventos de comédia stand-up, mas aqui – e apesar de uma mão-cheia de notáveis do humor nacional no leque das participações especiais – aventura-se noutra cena.

Numa antestreia que aconteceu a 21 de Novembro no Cinema Ideal, Geirinhas estava nervoso e um pouco inseguro com o que estava prestes a acontecer. Dentro de segundos, apresentaria o seu “segundo filho” a uma sala cheia. A estreia de Vai Correr Tudo Bem estava marcada para a Primavera, mas o nascimento do filho, o primeiro, acabou por ditar o atraso no lançamento desta produção, iniciada há quatro anos. “Em 2019, mandei uma mensagem ao Rogério Casanova a dizer que gostava muito do trabalho dele, a bajulá-lo, para ele se meter nisto comigo. Ele é um personagem do Twitter, tem um nome para além de Rogério Casanova”, recorda Geirinhas, dizendo ter escolhido um parceiro de escrita que “odeia comediantes”.

Para o humorista, a série “agiganta” os seus próprios medos e inicialmente queria “levar isto muito a sério e tocar com o dedo na ferida”. “Mas felizmente chamei um argumentista [Rogério Casanova] que me proibiu de fazer isso, porque odeia comediantes. E fez-me ver em todas as nossas decisões que os comediantes se levam demasiado a sério e tem mais graça gozar com isso. Portanto a série é um misto disso, da minha cabeça – a dizer tu vais tocar com o dedo na ferida e dizer que tens estes problemas – e o Rogério a dizer ‘não, não te leves tão a sério’”. Por exemplo, inicialmente Geirinhas imaginava o Guilherme da série a frequentar um psicólogo. Casanova discordou, porque era uma cena gasta. “E então na série eu tenho uma data de psicólogos que não são psicólogos. Lá está, o homem das raspadinhas é uma pessoa que me trás alguma sabedoria, funciona como psicólogo”, exemplifica, numa sessão onde abriu um pouco o livro dos seus próprios medos. Alguns dos quais vamos ficar a conhecer em Vai Correr Tudo Bem, mesmo que tenham sido entretanto ultrapassados, como o receio de conduzir, por andar para a frente e para trás durante horas, às vezes por não ter a certeza se tinha passado “por uma lomba ou uma velha” (e ir confirmar). 

Guilherme Geirinhas
©DRGuilherme Geirinhas, em 'Vai Correr Tudo Bem'

Inicialmente, a ideia para uma série, sempre com a saúde mental como pano de fundo, passava por alternar entre imagem real e animação, que ilustraria “os medos” de Geirinhas. “porque os medos normalmente são invisíveis e então era a forma de os tornar tangíveis”. “Por exemplo, um ataque de pânico é muitas vezes associado a um urso a entrar dentro de uma sala. Se nós virmos um urso a entrar aqui de repente toda a gente vai fugir e enlouquecer. E o ataque de pânico é veres o urso sem ele cá estar”, explica. Uma solução entretanto abandonada, “porque é caro”. Avançaram, com a convicção de “fazer isto” com “o menor dinheiro possível, mas com dignidade” e também com planos fechados. “Sem desfazer, os realizadores arriscam demasiado em Portugal, porque não há assim tanto dinheiro. E querem fazer muitos planos abertos a mostrar muita coisa e não dá, porque as coisas são caras”, diz o humorista. “Eu não consigo, com o dinheiro que nós tivémos, fazer coisas boas com um plano aberto em que o Guilherme vai a uma loja e só está lá um figurante contratado por cinco euros e uma sandes. Não dá. Mais vale não fazer isso e fazer uma cena em que eu pudesse fazer o mesmo sem figurantes, porque o mais caro são as pessoas”. Ainda assim, só nos dois primeiros episódios exibidos no Cinema Ideal, vimos Pêpê Rapazote e Luísa Cruz (em personagem, claro), num elenco que também conta com Teresa Guilherme ou Gonçalo Waddington, entre outros actores. E são apenas algumas das muitas participações especiais neste Vai Correr Tudo Bem.

Guilherme Geirinhas e Luana do Bem
©DRGuilherme Geirinhas e Luana do Bem, em 'Vai Correr Tudo Bem'

Os humoristas Diogo Batáguas, Luana do Bem, Pedro Teixeira da Mota, Vítor Sá, Ricardo Araújo Pereira também ajudam a levar esta produção a bom porto. “Isso é a vantagem de cravar favores a colegas humoristas. Eu também vou aos podcasts deles, vou lá fazer coisas. Depois, quando são actores a sério, não se pode cravar favores. Nós tivemos um apoio da União Europeia [50 mil euros, através do programa Garantir Cultura financiado pelo FEDER – Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional], que serviu para cerca de menos de metade do orçamento. O resto foi do nosso bolso. Para se ter talento, tem de se pagar”, defende Geirinhas. O que também evitaram pagar foi um cenário réplica do programa Quem Quer Ser Milionário para um dos episódios. “Custava praí 100 mil euros, que era o valor da série. E pensámos: como vamos fazer isto de forma digna, sem parecer barato? Fazendo planos fechados do apresentador e da concorrente. Metemos uns leds na plateia e, se forem ver um plano aberto, na plateia só estão três pessoas com plano fechado e leds à volta”, recorda. Imagens que irão aparecer num making-of da série, prometido por Geirinhas, que confessa ter “cenas no bolso” para depois “vender como cenas extra”. Coisas que “custaram a prescindir”.

Geirinhas não tropeçou sem querer no audiovisual. Nos seus tempos de criativo como copywriter na agência BAR Lisboa (entre 2014 e 2017), venceu por várias vezes a competição do Festival Young Lions Portugal, uma antecâmara dos prestigiados prémios de publicidade Cannes Lions International Festival of Creativity, onde representou Portugal.

YouTube @GuilhermeGeirinhas. Estreia a 26 de Novembro.

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